Energia renovável amplia exposição a sinistros milionários e eleva demanda por gestão especializada de riscos no Brasil

Expansão de parques eólicos e solares impulsiona investimentos superiores a R$ 300 bilhões, mas eventos climáticos extremos tornam seguros de engenharia e regulação de sinistros peças estratégicas para a sustentabilidade dos empreendimentos

A rápida expansão das fontes renováveis transformou o perfil da matriz elétrica brasileira e consolidou o país entre os principais mercados globais de energia limpa. Entretanto, o avanço acelerado da geração eólica e solar também trouxe novos desafios para investidores, seguradoras e desenvolvedores de projetos, especialmente diante da crescente incidência de eventos climáticos extremos capazes de provocar perdas milionárias em ativos de infraestrutura.

Com investimentos que ultrapassam R$ 300 bilhões apenas na geração solar, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), o volume de capital exposto aumentou significativamente. Esse cenário elevou a importância da gestão de riscos e da contratação de seguros especializados para proteger empreendimentos de grande porte contra danos causados por vendavais, tempestades, granizo e outros fenômenos climáticos.

Os números do mercado segurador refletem essa transformação. Dados da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) mostram que o segmento de seguros de Riscos de Engenharia movimentou R$ 1,347 bilhão em prêmios diretos em 2025, impulsionado, entre outros fatores, pela expansão da infraestrutura energética renovável.

- Advertisement -

Nova realidade operacional exige gestão de riscos mais sofisticada

O crescimento dos parques eólicos e solares alterou significativamente o perfil dos riscos enfrentados pelo setor elétrico. Diferentemente das hidrelétricas, cujos ativos estão concentrados em grandes estruturas permanentes, os empreendimentos renováveis se distribuem por extensas áreas e permanecem permanentemente expostos às condições meteorológicas.

Além dos danos físicos aos equipamentos, eventos extremos podem comprometer cronogramas de obras, interromper a geração de energia, impactar contratos de fornecimento e desencadear disputas envolvendo seguradoras, financiadores, fornecedores e investidores.

Ao analisar esse cenário, a especialista em Direito Securitário e sócia-fundadora da Schalch Sociedade de Advogados, Débora Schalch, destaca que a velocidade dos investimentos exige uma evolução equivalente na gestão dos riscos: “A velocidade com que os investimentos em eólica e solar avançaram no Brasil superou a própria maturidade de gestão de riscos. Hoje, lida-se com um volume imenso de capital exposto a intempéries climáticas em instalações complexas. Quando ocorre um sinistro nesses canteiros, não estamos falando apenas de reparar um dano físico, mas de apurar responsabilidades milionárias em apólices altamente especializadas.”

Mudança da matriz elétrica amplia complexidade dos empreendimentos

A evolução da matriz energética brasileira ajuda a explicar essa nova dinâmica. Há cerca de uma década, as hidrelétricas respondiam por mais de 70% da geração nacional. Atualmente, essa participação caiu para aproximadamente 50%, enquanto as fontes eólica e solar passaram a representar cerca de 15% e 7,5%, respectivamente.

- Advertisement -

Essa diversificação fortaleceu a segurança energética e acelerou a transição para uma matriz de menor emissão de carbono. Em contrapartida, aumentou a necessidade de soluções técnicas voltadas à proteção de ativos altamente especializados, cuja operação depende da integridade de milhares de componentes distribuídos em grandes áreas. Nesse contexto, a regulação de sinistros tornou-se um processo muito mais complexo, exigindo análises multidisciplinares para identificar corretamente a origem dos danos e definir responsabilidades contratuais.

Ao abordar essa realidade, Débora Schalch explica que a investigação técnica vai muito além da simples identificação de um evento climático: “Quando um vendaval derruba uma torre ou o granizo destrói milhares de painéis, a primeira leitura costuma ser a de que se trata apenas de força maior ou de um evento climático inevitável. Em seguros de grandes riscos, porém, essa conclusão nunca pode ser automática. A regulação do sinistro deve reconstruir tecnicamente a dinâmica do evento e verificar se houve erro de projeto, subdimensionamento de estruturas e materiais, falha na execução da montagem, vício de fabricação, deficiência de manutenção ou descumprimento de obrigações contratuais. Essa apuração é determinante para definir cobertura, extensão da indenização, eventuais exclusões, responsabilidades de terceiros e possibilidades de ressarcimento ou sub-rogação.”

Mudanças climáticas elevam riscos para o setor elétrico

Os desafios tendem a crescer à medida que os efeitos das mudanças climáticas se intensificam. Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já identificam episódios de indisponibilidade operacional provocados por ventos severos com velocidades próximas de 100 km/h, capazes de comprometer estruturas fotovoltaicas e torres eólicas.

Os levantamentos classificam o aumento da ocorrência de ventos intensos nas regiões Sudeste, Sul, Norte e Nordeste como um fenômeno de alta confiança, reforçando a necessidade de incorporar critérios climáticos mais rigorosos no planejamento e na proteção dos ativos.

Além dos impactos técnicos, cresce também a preocupação financeira. Grandes projetos renováveis frequentemente são estruturados por meio de operações de project finance, nas quais os contratos de seguro integram o conjunto de garantias exigidas por bancos, investidores e fundos de infraestrutura. Nesse ambiente, uma regulação inadequada pode comprometer tanto o pagamento das indenizações quanto a estabilidade financeira dos empreendimentos.

Ao avaliar os reflexos desse cenário para o mercado segurador, Débora Schalch ressalta que a precisão técnica passa a ser determinante para preservar a segurança jurídica dos contratos: “O reflexo financeiro dessa vulnerabilidade climática já acende um alerta relevante para o mercado segurador. Relatórios internacionais de grandes riscos indicam que granizo, vendavais e tempestades severas estão entre as principais causas de perdas em projetos de energia limpa. Para seguradoras, resseguradoras, investidores e financiadores, isso exige não apenas maior precisão na subscrição, mas também regulação de sinistros conduzida com método, documentação técnica robusta e leitura jurídica aderente às condições da apólice.”

Seguro passa a integrar estratégia financeira dos projetos

A crescente sofisticação dos empreendimentos renováveis faz com que o seguro deixe de ser apenas um mecanismo de proteção patrimonial e assuma papel estratégico na viabilidade econômica dos investimentos. Sinistros em grandes parques eólicos ou solares frequentemente envolvem perdas estimadas entre US$ 5 milhões e US$ 80 milhões por ocorrência, valores capazes de afetar o fluxo de caixa das empresas e comprometer contratos de financiamento de longo prazo.

Na avaliação da especialista, a gestão eficiente desses riscos tornou-se elemento essencial para garantir a continuidade operacional dos projetos e preservar a confiança dos investidores em um mercado que continuará expandindo sua participação na matriz elétrica brasileira: “Em um projeto dessa natureza, o seguro não é apenas um mecanismo de transferência de risco; ele integra a própria estrutura econômico-financeira do empreendimento. Uma avaliação de risco insuficiente ou uma regulação de sinistro mal-conduzida pode comprometer a indenização de danos materiais e lucros cessantes, afetar o fluxo de caixa da usina e desencadear disputas judiciais ou arbitrais entre segurados, seguradoras, resseguradores, fornecedores e financiadores”, concluiu.

Destaques da Semana

MME regulamenta compensação por curtailment e define regras para ressarcimento de geradores eólicos e solares

Portaria Normativa nº 140/2026 estabelece critérios para recontabilização financeira...

Electra vai à ANEEL contra cassação e alerta para contágio tarifário no ACR

Comercializadora em recuperação judicial argumenta que perda de outorga...

CVM aprova edital e leilão da OPA da Ecopetrol por 25% da Brava Energia é marcado para 5 de agosto

Após aval do Colegiado do regulador, superação de pendências...

Caso Enel: TCU pauta julgamento sobre apagões e fiscalização em SP

Sob relatoria do ministro Augusto Nardes, representação do MP-TCU...

Artigos

Últimas Notícias