Etanol de cereais se consolida como nova fronteira da bioenergia e deve atingir 10 bilhões de litros na safra 2025/2026

Expansão das usinas flex, interiorização da produção e valorização de coprodutos impulsionam crescimento do segmento, que amplia a segurança energética e reforça o papel do Brasil na transição para uma economia de baixo carbono.

O mercado brasileiro de biocombustíveis vive uma das mudanças mais significativas desde a consolidação da indústria sucroenergética. Tradicionalmente sustentada pela cana-de-açúcar, a produção nacional de etanol passa a incorporar de forma crescente matérias-primas como milho e sorgo, movimento que fortalece a diversificação da matriz de bioenergia e amplia a competitividade do setor.

As projeções para a safra 2025/2026 indicam que a produção de etanol de cereais deverá se aproximar de 10 bilhões de litros, crescimento de cerca de 20% em relação ao ciclo anterior. O avanço representa a consolidação de um segmento que, há menos de uma década, produzia aproximadamente 500 milhões de litros e que passou a registrar uma das maiores taxas de expansão da indústria brasileira de energia renovável.

O crescimento é sustentado pela rápida expansão das usinas flex, capazes de processar tanto cana-de-açúcar quanto cereais, pela incorporação de novas tecnologias industriais e pela busca por maior eficiência operacional ao longo de todo o ano, reduzindo os efeitos da sazonalidade característica da safra canavieira.

- Advertisement -

Usinas flex ampliam eficiência e estabilidade da oferta

A adoção de plantas industriais flexíveis alterou significativamente a dinâmica do setor. Ao integrar diferentes matérias-primas em uma mesma unidade produtiva, as usinas conseguem manter operações durante praticamente todo o ano, diluindo custos fixos, elevando a utilização dos ativos industriais e garantindo maior regularidade na oferta de etanol ao mercado.

Além dos ganhos operacionais, esse modelo reduz a exposição das empresas às oscilações climáticas e às variações de disponibilidade de cada cultura agrícola, tornando a cadeia mais resiliente.

A diretora comercial da Fertron e diretora estadual do CIESP-SP, Ágata Turini, avalia que essa integração amplia o potencial da bioenergia brasileira: “O etanol de cereais não chega para substituir a cana-de-açúcar, mas para ampliar as possibilidades da bioenergia brasileira. A integração entre diferentes culturas, automação, inteligência artificial e indústria fortalece toda a cadeia produtiva e torna o setor ainda mais eficiente e competitivo, consolidando o Brasil como líder global na transição energética.”

Produção avança para novas fronteiras agrícolas

A expansão da indústria também modifica o mapa da produção nacional. Se inicialmente as plantas estavam concentradas nas regiões produtoras de cana e, posteriormente, migraram para áreas de forte produção de milho no Centro-Oeste, o setor agora amplia investimentos para novas fronteiras agrícolas.

- Advertisement -

Atualmente, o Brasil conta com 25 biorrefinarias em operação, número que poderá chegar a 33 unidades até o fim de 2026. Os novos empreendimentos concentram-se principalmente na região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, além de projetos no Sul do país voltados ao aproveitamento de cereais de inverno, como trigo e triticale fora do padrão destinado à panificação.

A estratégia aproxima a produção das regiões consumidoras, reduz custos logísticos e amplia alternativas para o escoamento da produção agrícola. Ao analisar essa descentralização, Ágata Turini destaca seus impactos econômicos e regionais: “Ao levar a produção para o Norte, Nordeste e Sul, o setor reduz custos logísticos, aproxima a oferta dos centros consumidores que antes dependiam de combustíveis fósseis por falta de acesso competitivo ao etanol e impulsiona o desenvolvimento econômico dessas regiões.”

Coprodutos fortalecem a rentabilidade das biorrefinarias

O avanço do etanol de cereais também está associado à evolução do conceito de biorrefinaria. Nas plantas mais modernas, a produção de combustível é acompanhada pela fabricação de coprodutos de elevado valor agregado, que respondem por parcela crescente da receita operacional.

Entre os principais destaques estão o DDG (Distillers Dried Grains) e o DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles), utilizados amplamente na alimentação animal por seu elevado teor proteico e energético. Além disso, as unidades também produzem óleo de milho destinado à indústria e capturam dióxido de carbono para utilização em segmentos como bebidas, alimentos e indústria química.

Para Ágata Turini, essa integração amplia os benefícios econômicos em toda a cadeia do agronegócio: “Quando diferentes cadeias produtivas trabalham de forma integrada, todos ganham. A indústria aumenta sua eficiência e rentabilidade, o produtor amplia suas oportunidades de comercialização, a pecuária passa a contar com insumos de alta qualidade e a economia regional se fortalece de forma sustentável.”

Ribeirão Preto mantém protagonismo tecnológico

Embora a expansão industrial avance para novas regiões, Ribeirão Preto continua exercendo papel estratégico como principal polo nacional de desenvolvimento tecnológico para a bioenergia.

A região concentra fabricantes de equipamentos industriais, empresas de automação, desenvolvedores de softwares, fornecedores de sistemas de inteligência artificial e consultorias especializadas em processos industriais, responsáveis pelo fornecimento de soluções utilizadas em biorrefinarias de diferentes estados brasileiros. Esse ecossistema tecnológico contribui para elevar a eficiência energética, reduzir custos operacionais e acelerar a digitalização das unidades produtivas.

A executiva da Fertron e do CIESP-SP ressalta que essa capacidade tecnológica permanece como diferencial competitivo para o setor: “Ribeirão Preto reúne conhecimento técnico, capacidade industrial e mão de obra altamente especializada. As empresas instaladas na região são protagonistas no desenvolvimento das tecnologias, softwares e soluções de automação que impulsionam essa nova fase da bioenergia brasileira.”

Descarbonização amplia perspectivas para o setor

Além do crescimento da produção, a indústria começa a incorporar tecnologias voltadas à redução adicional das emissões de carbono. Entre elas está o BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage), sistema que combina a geração de bioenergia com captura e armazenamento geológico de dióxido de carbono, permitindo produzir combustíveis com emissões líquidas negativas.

A adoção dessas soluções pode ampliar a competitividade internacional do etanol brasileiro, sobretudo em mercados que valorizam combustíveis de baixa intensidade de carbono e mecanismos de precificação de emissões.

Na avaliação de Ágata Turini, a convergência entre inovação, diversificação agrícola e desenvolvimento industrial fortalece o posicionamento do Brasil no mercado global de energia limpa: “O setor passa por uma transformação profunda. A integração entre cana, cereais, tecnologia e indústria fortalece a competitividade brasileira, descentraliza o desenvolvimento, amplia a segurança energética e consolida o Brasil como um dos maiores fornecedores mundiais de energia limpa.”

Mais do que diversificar as matérias-primas utilizadas na produção de biocombustíveis, o avanço do etanol de cereais redefine o conceito de bioenergia no país. A integração entre agricultura, indústria, inovação tecnológica e economia circular amplia a eficiência das biorrefinarias, fortalece cadeias produtivas regionais e cria novas oportunidades para que o Brasil consolide sua liderança na oferta de combustíveis renováveis em um cenário global cada vez mais orientado pela descarbonização.

Destaques da Semana

ANEEL rescinde contratos da Gold Comercializadora e aplica multa de R$ 5,8 milhões

Sob recuperação judicial e com outorga revogada, empresa tem...

Consórcio Nordeste garante R$ 5,5 bilhões para reduzir impacto dos reajustes de energia em 2026

Repactuação de royalties hidrelétricos deve diminuir em cerca de...

Elea e AXIA Energia fecham parceria para erguer primeiro data center focado em IA na Região Amazônica

Projeto BEL1 terá capacidade de até 100 MW, fornecimento...

Fiscalização da Aneel flagra 88 MW de energia solar irregular; ONS alerta para riscos

Auditoria revela que 59% das inspeções confirmaram usinas operando...

Artigos

Últimas Notícias