Em mobilização promovida pela GRA, setor elétrico cobra prioridade regulatória para infraestrutura de transmissão e desoneração de baterias.
O Senado Federal incorporou à agenda de debates do esforço concentrado propostas focadas na expansão das energias renováveis, modernização das redes elétricas, armazenamento e eletrificação da economia. A discussão reuniu representantes do setor privado, entidades empresariais, governo e parlamentares, colocando a infraestrutura necessária para absorver o crescimento das fontes limpas entre os principais desafios da transição energética brasileira.
A mobilização ocorreu com apoio da Global Renewables Alliance (GRA) e integrou o movimento Eletrifica Brasil, que busca ampliar o debate sobre o papel da vetorização elétrica no desenvolvimento econômico do país. O encontro marcou também o lançamento nacional da campanha global Electrify Now, apresentada pela GRA durante a London Climate Action Week.
Gerenciamento da abundância e gargalos na infraestrutura
A expansão acelerada da geração eólica e solar impõe novos desafios operacionais ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Para o setor, o crescimento da oferta precisa ser acompanhado por investimentos proporcionais em transmissão, distribuição, flexibilidade e armazenamento para suportar o surgimento de novas cargas industriais e tecnológicas.
A presidente do Comitê de Mobilização do Setor Privado da GRA e presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), Elbia Gannoum, enfatizou que a realidade brasileira difere da maior parte das economias globais: “O Brasil, diferente do resto do mundo, precisa gerenciar a abundância de recursos energéticos, principalmente os recursos renováveis. Enquanto o mundo discute como vai prover a oferta de energias renováveis para, então, promover a necessária transição energética, o Brasil precisa discutir como vai gerenciar essa riqueza.”
A executiva destacou a aprovação de marcos legais pelo Congresso nos últimos dois anos e apontou que a regulamentação pelo Poder Executivo será decisiva para transformar decisões legislativas em investimentos efetivos, classificando o ambiente normativo como “fundamental para o desenvolvimento das energias renováveis no contexto das mudanças climáticas”.
Três vantagens estratégicas e o obstáculo tributário no armazenamento
Durante os painéis, representantes do setor associaram a matriz renovável a três bônus estratégicos: o bônus social (cobertura de 97% da população via SIN), o bônus verde (atração de data centers, hidrogênio verde e indústrias de baixo carbono) e a segurança energética frente à volatilidade dos combustíveis fósseis.
Entretanto, para destravar esses vetores, o armazenamento de energia por baterias (BESS) foi apontado como tecnologia urgente para conferir flexibilidade ao sistema e mitigar os efeitos da variabilidade geradora.
Ao analisar o papel das decisões públicas para acelerar a transição e destravar novas tecnologias, o presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), Rodrigo Lopes Sauaia, cobrou prioridade executiva e criticou a carga tributária incidente sobre o armazenamento: “Há muitas decisões importantes que são tomadas tanto no Senado quanto na Câmara sobre o setor de renováveis. Mas é importante que o Poder Executivo também, independentemente de quem seja o vencedor do processo eleitoral deste ano, tenha a transição energética como um eixo central do desenvolvimento do nosso país.”
Sobre a viabilidade econômica do armazenamento, Sauaia defendeu a tecnologia por ser “mais barata, mais rápida de implementar e não poluir o ambiente”, mas alertou que “essa carga tributária afugenta a população de usar essa tecnologia e dificulta grandes investidores de fazerem projetos no país”.
Na mesma linha, o Head de South LATAM e Managing Director da Hitachi Energy no Brasil, Glauco Freitas, pontuou a oportunidade do debate institucional: “Esse momento é ideal porque a gente vai conseguir trazer à tona os temas que podem estar travando esse avanço das renováveis. A questão do armazenamento de energia é algo necessário para um sistema que precisa ser robusto, como é a necessidade do sistema brasileiro.”
Integração regional e competitividade industrial
A dimensão internacional da agenda foi trazida pelo embaixador do Chile no Brasil, Issa Farid Kort Garriga, que defendeu a cooperação bilateral para transformar o potencial natural em integração energética na América Latina: “O desafio está em como transformar as vantagens naturais em capacidade produtiva para gerar energia renovável, e esta é uma oportunidade para promover a integração energética entre nossos países.”
A sessão contou com ampla representação institucional, reunindo executivos da Coalizão Eólica Marinha (CEM/GWEC), ABIHV, ABRAGE, IHA, INEL, Atlas Agro e Energia +, além de técnicos do Ministério de Minas e Energia (MME), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e parlamentares.
O debate consolida a mudança de patamar do setor elétrico: a energia limpa deixa de ser vista apenas como meta ambiental e passa a ser tratada como ativo direto de competitividade industrial e atração de capital produtivo para o Brasil.



