Armazenamento com segurança: por que certificar BESS é vital para a energia solar

Por Vinicius Gibrail, Diretor da Divisão de Produtos Solares e Comerciais, da TÜV Rheinland 

A capacidade instalada de energia solar no Brasil ultrapassou recentemente os 72 GW – consolidando essa fonte como a segunda maior da matriz elétrica nacional, atrás apenas da hidrogeração. Essa marca representa mais de 25% da capacidade instalada brasileira, um avanço expressivo para um país que até poucos anos via a energia solar como complementar. A diversificação da matriz é positiva, mas também impõe novas exigências técnicas. 

À medida que a geração fotovoltaica avança, ampliando sua presença em grandes usinas e sistemas híbridos, torna-se urgente lidar com um efeito colateral técnico: a intermitência. Garantir que a rede elétrica absorva essa energia de forma estável é hoje um dos grandes desafios do setor – e é justamente nesse ponto que os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS, Battery Energy Storage Systems) entram em cena como soluções estruturantes. 

Desde 2022, estão em vigor regras específicas para usinas híbridas, que permitem a combinação de fontes, como solar e baterias, em uma mesma outorga. A Lei nº 15.269/2025, sancionada pelo Governo Federal, modernizou o marco regulatório do setor elétrico e criou as bases para regulamentar o armazenamento de energia elétrica por meio de baterias.  

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Em junho deste ano o Ministério de Minas e Energia publicou a Portaria Normativa nº 136/2026, que estabeleceu as diretrizes dos primeiros leilões de reserva de capacidade dedicado exclusivamente a novos sistemas de armazenamento de energia em baterias. E recentemente, no fim de julho, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) abriu consulta pública para análise da prévia dos editais dos Leilões de Reserva de Capacidade Armazenamento Nacional e Armazenamento Geral.   

Em paralelo, casos de uso inovadores pipocam: de projetos-piloto que acoplam parques solares e eólicos a bancos de baterias, até sistemas isolados em ilhas e comunidades remotas que reduzem o uso de geradores a diesel.  

Esse cenário mostra que o crescimento solar brasileiro não se sustenta apenas adicionando mais painéis – é preciso garantir que a infraestrutura de armazenamento acompanhe o ritmo, atendendo a rigorosos critérios de qualidade. É aí que as certificações entram como guardiãs da confiança e da excelência técnica, assegurando que cada bateria instalada, cada contêiner de armazenamento e cada inversor associado cumpram padrões elevados de desempenho e segurança. 

Certificação para sistemas BESS 

Diferentemente de componentes convencionais, as baterias de grande porte trazem desafios técnicos e riscos – desde a possibilidade de eventos térmicos até a complexa interação com inversores e sistemas de controle. 

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Nesse contexto, certificar um sistema BESS vai muito além de cumprir burocracias: trata-se de atestar, via entidades independentes, que aquele conjunto de equipamentos atingiu um nível reconhecido de segurança, desempenho e conformidade. Produtos e projetos certificados seguem normas internacionais rigorosas que garantem a segurança elétrica e operacional, o desempenho eficiente, a integração ambiental adequada e a interoperabilidade na rede elétrica. 

Do ponto de vista técnico, as certificações BESS abrangem uma cadeia completa – do nível da célula de bateria até o nível do sistema de potência integrado à rede. Cada etapa traz normas especializadas. No nível das células e módulos – o “coração” químico do armazenamento, normas como a IEC 62619 e a IEC 63056 definem critérios de projeto seguro para baterias de íons de lítio industriais, incluindo testes contra curto-circuitos, sobrecarga e superaquecimento.  

Esses padrões garantem que as células individualmente são intrinsecamente seguras, reduzindo riscos de explosão ou vazamento térmico. Além disso, protocolos de transporte como o UN 38.3 são mandatórios para baterias de lítio, exigindo que suportem vibrações, impactos e variações de altitude sem incidentes – um pré-requisito para qualquer fabricante que deseje movimentar baterias pelo Brasil ou exportá-las. 

Subindo na escala, no nível de conjunto de baterias, outras normas complementam o escopo de segurança e desempenho. A própria IEC 62619 se aplica aqui, assim como a UL 1973 – padrão norte-americano para baterias estacionárias – e a IEC 62485-5, que foca na segurança das instalações de baterias de grande porte.  

Essas normas avaliam o sistema como um todo: verificam se o Sistema de Gerenciamento de Bateria (BMS) reage corretamente a células com defeito (por exemplo, isolando-as), se há redundância nas proteções contra sobrecorrente, e se as condições térmicas de todos os módulos permanecem dentro de limites seguros durante a operação em campo.  

Chegando ao nível do sistema integrado em contêiner ou sala elétrica, outras exigências entram em jogo: compatibilidade eletromagnética, tais como normas IEC 61000-4-X, para assegurar que a eletrônica da bateria não cause interferências nem sofra com ruídos externos, sistemas de ventilação e supressão de incêndio – a NFPA 855 e a EN 50272-2 definem distâncias, sensores e medidas de mitigação de fogo em instalações de baterias, além de protocolos de conectividade com a rede. Aqui, os inversores e conversores acoplados às baterias precisam atender a padrões como IEC 62109-1/2 (segurança de inversores solares) e normas de conexão distribuída.  

O Brasil tende a seguir esses passos internacionais, adaptando-os ao contexto local. Enquanto normas oficiais para armazenamento on-grid ainda estão em elaboração, espera-se que sejam alinhadas com os padrões IEC e IEEE globais para permitir que tecnologias e soluções amplamente testadas lá fora sejam adotadas aqui sem atrasos. Para o setor solar nacional, isso significa encurtar a curva de aprendizagem, adotando as melhores práticas já consolidadas: certificando baterias conforme IEC 62619/63056, testando inversores híbridos conforme IEC 62109 e regras de acesso à rede, e observando guias de incêndio como UL 9540A/NFPA 855 para projetos de grande porte. Essa convergência normativa não apenas facilita a importação de equipamentos certificados de fora, mas também coloca fabricantes brasileiros em pé de igualdade para exportar soluções de armazenamento com reconhecimento internacional. 

Certificação BESS como diferencial estratégico 

Neste mercado, que é altamente regulado, a certificação de sistemas BESS tornou-se um diferencial estratégico para projetos que buscam segurança operacional e acesso a mercados exigentes.  

A certificação cobre todo o ciclo do projeto, desde a concepção e escolha dos componentes até os testes finais de desempenho e integração. Esse processo garante que baterias, sistemas de gestão (BMS), inversores e interfaces sejam avaliados de forma abrangente, com base em normas técnicas internacionais atualizadas. Além de assegurar conformidade, o processo funciona como uma auditoria técnica preventiva, capaz de identificar falhas potenciais antes que o sistema entre em operação comercial. 

No mercado, esse reconhecimento técnico agrega valor imediato. Projetos com certificações independentes tendem a atrair melhores condições de financiamento, facilitar a aceitação por seguradoras e viabilizar a internacionalização de produtos por meio de esquemas de homologação multilateral.  

A certificação também fortalece a reputação das empresas diante de clientes, investidores e comunidades, ao demonstrar um compromisso claro com qualidade, segurança e responsabilidade ambiental. Em um setor como o de energia renovável, onde confiança é moeda de troca, esse tipo de validação técnica se transforma em ativo estratégico. 

A expansão da energia solar no Brasil já é uma realidade consolidada. O que se coloca agora como desafio é garantir que esse crescimento seja sustentável, seguro e tecnicamente robusto. Nesse novo cenário, os sistemas de armazenamento de energia – e, sobretudo, sua certificação – ocupam papel central na arquitetura da transição energética. São eles que permitem estabilidade para a rede, previsibilidade para os operadores e eficiência para os investidores. 

Certificar um BESS é, portanto, mais do que validar um conjunto de equipamentos: é estabelecer um padrão de excelência técnica que protege o sistema elétrico, valoriza o investimento e fortalece a confiança de todo o ecossistema envolvido, do fabricante ao consumidor final. Para o setor solar brasileiro, que se projeta cada vez mais como protagonista da matriz elétrica nacional, investir em certificações é investir em perenidade, reputação e maturidade tecnológica. 

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