Levantamento da LCA Consultores para o Instituto MBCBrasil projeta salto de 44 vezes na frota eletrificada nacional, mas alerta: sem infraestrutura, previsibilidade regulatória e políticas coordenadas, país pode perder sua vantagem competitiva em biocombustíveis e eletrificação
A transição para uma mobilidade de baixo carbono no Brasil avança, mas ainda depende de políticas públicas coordenadas e de uma infraestrutura robusta para sustentar o crescimento projetado. Essa é a principal conclusão do estudo “Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040”, lançado pelo Instituto MBCBrasil em parceria com a LCA Consultores.
O levantamento analisa os caminhos da mobilidade sustentável no país diante das novas metas climáticas e dos programas Combustível do Futuro e PATEN – Programa de Aceleração da Transição Energética. As projeções indicam que a participação dos veículos eletrificados crescerá 44 vezes até 2040, impulsionada pela expansão dos híbridos, que deverão representar 72% da frota eletrificada nacional.
O estudo ressalta que o avanço da mobilidade limpa exigirá mais do que tecnologia. Segundo o presidente do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, o sucesso dessa transição dependerá de políticas públicas integradas, previsibilidade regulatória e investimentos contínuos.
“O Brasil tem condições únicas para liderar uma transição energética eficiente e inclusiva, capaz de unir crescimento econômico e sustentabilidade. O avanço das novas tecnologias e o fortalecimento dos biocombustíveis mostram que é possível reduzir emissões e, ao mesmo tempo, ampliar oportunidades de desenvolvimento”, afirmou Luzzi.
Biocombustíveis continuam como diferencial competitivo do Brasil
Um dos pontos centrais do estudo é a constatação de que os biocombustíveis seguem como a principal vantagem comparativa brasileira. O etanol, especialmente, é apontado como vetor estratégico da transição energética. A demanda pelo produto pode crescer até 2,4 vezes até 2040, tanto pelo consumo interno quanto pela exportação para novos mercados, como os de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e de transporte marítimo.
Esses dois segmentos poderão consumir, em 2040, o equivalente a 80% da atual demanda total de etanol do ciclo Otto, registrada em 2025. Ainda assim, a oferta de etanol deverá permanecer sólida, impulsionada pela maior produtividade da cana-de-açúcar e pela expansão do etanol de milho.
A projeção da LCA Consultores indica que o etanol de milho saltará de 7,6 bilhões de litros em 2024 para cerca de 25 bilhões em 2040, reforçando a diversificação da matriz e a segurança energética nacional. Essa expansão posiciona o Brasil como fornecedor global de energia limpa e renovável, especialmente em um contexto de descarbonização do transporte aéreo e marítimo.
Biometano: o novo protagonista da descarbonização
Entre as novas fontes, o biometano surge como um dos principais vetores de descarbonização do transporte pesado e de fortalecimento da segurança energética. Produzido a partir de resíduos agroindustriais, o combustível pode substituir até 70% do consumo de diesel nesse segmento até 2040.
De acordo com o estudo, o aproveitamento do potencial estimado de 120 milhões de metros cúbicos por dia de biometano pode criar novos polos regionais de desenvolvimento, especialmente nas áreas agrícolas e sucroenergéticas.
O sócio-diretor da LCA Consultores, Fernando Camargo, destaca que essa estratégia permite otimizar investimentos e reduzir riscos. “As projeções indicam que o custo marginal de descarbonização do transporte é otimizado quando o país aproveita as rotas já consolidadas e introduz gradualmente novas tecnologias, como o biometano. Essa combinação reduz os riscos e permite uma trajetória de investimento mais estável para o setor.”
Transporte pesado e infraestrutura de recarga exigem ação imediata
O estudo mostra que o transporte pesado será um dos maiores desafios da descarbonização. Embora os caminhões a diesel ainda representem 85% da frota, alternativas como biometano e veículos elétricos a bateria (BEV) devem atingir 15% da frota até 2040. O Brasil também deve avançar na mistura de biodiesel, chegando a B20 no cenário base e B25 no cenário alternativo, em uma trajetória gradual que preserva a segurança energética.
A eletrificação, por sua vez, exigirá investimentos de cerca de R$ 25 bilhões até 2040 apenas na infraestrutura de recarga. Com uma matriz elétrica 88% renovável e uma cadeia de biocombustíveis consolidada, o país possui bases sólidas para escalar soluções de mobilidade elétrica, desde que haja previsibilidade e integração entre os diferentes agentes da transição.
Políticas públicas como alicerce da competitividade energética
O levantamento do MBCBrasil reforça um ponto que vem ganhando relevância no debate energético nacional: sem políticas públicas coordenadas, a mobilidade sustentável brasileira pode perder competitividade global. A convergência entre inovação tecnológica, infraestrutura e regulação será determinante para transformar o potencial técnico em resultados estruturantes.
O estudo recomenda, ainda, que as políticas sejam construídas com visão de longo prazo, evitando descontinuidades e assegurando o equilíbrio entre segurança energética, redução de emissões e competitividade industrial.
“É preciso iniciar agora”, conclui o relatório, um alerta claro de que o futuro da mobilidade de baixo carbono depende de decisões tomadas no presente.



