Brasil registra 2ª queda seguida no consumo de energia; setor rural desaba 6,4%

Classe residencial e setor rural puxam retração no país; em contrapartida, mercado livre avança 2,4% e já responde por quase 45% da demanda total.

O mercado de energia elétrica brasileiro encerrou o mês de março com sinais de desaceleração. De acordo com os dados da mais recente Resenha Mensal, o consumo nacional somou 48.886 GWh, o que representa uma queda de 2,3% na comparação com março de 2025. Este resultado marca o segundo recuo mensal consecutivo, acendendo um alerta sobre o ritmo de demanda em setores-chave da economia.

A retração foi disseminada por todas as classes de consumo. O setor residencial, sensível a variações climáticas e tarifárias, registrou queda de 2,6%, enquanto o segmento industrial recuou 1,3%. O comércio apresentou uma estabilidade negativa com queda de 0,4%. No entanto, o impacto mais severo foi observado na categoria “outros consumos”, fortemente influenciada pelo desempenho do setor rural, que amargou uma redução de 6,4% no período.

Disparidades regionais marcam o desempenho do SIN

O comportamento do consumo no Sistema Interligado Nacional (SIN) não foi uniforme, evidenciando realidades econômicas distintas entre os subsistemas. O Norte manteve uma trajetória de forte expansão, com alta de 9,0%, impulsionado tanto pela base industrial quanto pela expansão da rede. O Nordeste (+0,4%) e o Centro-Oeste (+0,2%) apresentaram crescimentos marginais.

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Em sentido oposto, o Sudeste, principal polo de carga do país, registrou uma contração expressiva de 5,5%, fator determinante para o resultado negativo do consolidado nacional. O Sul também seguiu a tendência de queda, com recuo de 1,7%. No acumulado dos últimos 12 meses, o Brasil registra 566.242 GWh consumidos, mantendo-se em patamar de estabilidade em relação ao ciclo anterior.

Migração para o ACL e a resiliência do Mercado Livre

Apesar da queda no consumo global, o Ambiente de Contratação Livre (ACL) continua a ganhar terreno sobre o mercado regulado. Em março de 2026, o consumo no mercado livre atingiu 21.887 GWh, um avanço de 2,4% ante o ano passado. O número de consumidores livres deu um salto de 23,6%, reflexo direto do processo de abertura do mercado para o Grupo A.

Atualmente, o mercado livre já responde por 44,8% do consumo total de eletricidade no Brasil. Mais uma vez, o Norte liderou essa transição, com expansão de 12,5% no consumo livre e um aumento de 37,4% na base de clientes dessa modalidade.

Desafios do Mercado Regulado e Perspectivas de Migração

Enquanto o ACL cresce, o mercado cativo das distribuidoras (ACR) enfrenta uma retração acentuada. Com 26.999 GWh consumidos, o segmento viu sua demanda cair 5,8% em março. Embora o número de consumidores regulados tenha crescido 1,7%, o volume faturado é diretamente impactado pela migração de grandes e médios consumidores para o ambiente livre.

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Desde a vigência da Portaria MME 50/2022, que permitiu a migração de todos os consumidores de alta tensão, o movimento tem sido robusto: foram 26 mil migrações em 2024 e 19 mil em 2025. O cenário para o restante do ano permanece dinâmico, conforme indicam as projeções regulatórias: “Segundo o relatório de migração para o ACL da ANEEL, referente a março de 2026, estima-se que quase 10 mil consumidores migrem para o mercado livre em 2026.”

Este fluxo contínuo de saída do mercado regulado para o livre deve seguir redefinindo a estrutura de receitas das distribuidoras e a dinâmica de preços no curto e médio prazo.

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