Produtores rurais relatam prejuízos milionários com oscilações na rede, enquanto concessionária detalha aporte de R$ 13,4 bilhões até 2030 e defende cumprimento de metas da Aneel.
A qualidade do fornecimento de energia elétrica no Paraná tornou-se o centro de um embate técnico e político na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal nesta terça-feira (5). De um lado, o setor produtivo, liderado pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), denuncia uma crise de continuidade que compromete cadeias de proteína animal e piscicultura. Do outro, a Copel Distribuição apresenta indicadores de desempenho dentro dos limites regulatórios e aponta o impacto de eventos climáticos extremos e da Geração Distribuída (GD) à revelia como desafios operacionais.
O debate, motivado por um aumento nas reclamações de interrupções tanto em áreas rurais quanto em centros urbanos como Cascavel, acendeu o alerta na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A agência reguladora informou que monitora a curva de insatisfação dos usuários e poderá intensificar as ações de fiscalização sobre a concessionária.
O Peso da Energia como Insumo no Agronegócio
Para o setor produtivo, a instabilidade da rede transcende a esfera do conforto doméstico, atingindo o coração da economia paranaense. A mecanização intensiva da suinocultura, avicultura e produção de leite exige um fornecimento ininterrupto; falhas de poucos minutos podem resultar em mortandades em larga escala e perda de insumos perecíveis.
Ao destacar o papel crítico da eletricidade na manutenção da competitividade do estado, o presidente do Sistema Faep, Ágide Meneguette, foi enfático sobre a dependência tecnológica do campo: “No meio rural, a energia elétrica é um insumo essencial. No Paraná, que se destaca mundialmente pela produção de proteína animal, a energia elétrica é a matéria-prima para a suinocultura, avicultura, produção de leite e piscicultura. Sem energia elétrica, não há produção agropecuária. Essa é a realidade que estamos vivendo no nosso estado”.
Indicadores Regulatórios vs. Percepção do Usuário
Apesar das queixas, os dados apresentados pela Copel indicam que a companhia opera dentro dos limites de DEC (Duração Equivalente de Interrupção) e FEC (Frequência Equivalente de Interrupção) estabelecidos pela Aneel. Em 2025, a empresa registrou um DEC de 7,17 horas, abaixo da meta regulatória de 8,15 horas, posicionando o Paraná com o quarto menor tempo de interrupção do país.
Entretanto, a percepção de piora no serviço foi endossada pelo senador Sergio Moro (PL-PR), que presidiu a audiência. O parlamentar pontuou que a demora no restabelecimento em áreas urbanas e o volume de queixas no interior sugerem um descolamento entre a métrica global e a experiência na ponta: “Mas a partir do ano passado e mesmo nesse ano, as reclamações cresceram significativamente. Por uma coincidência, caiu a luz em diversos bairros nesse final de semana. Em Cascavel houve uma reclamação muito incisiva também dos moradores, aqui já não é um problema rural, mas um problema urbano, da demora da reposição, da volta dessa energia”.
Desafios Operacionais: Clima e Geração Distribuída
O diretor-geral da Copel Distribuição, Marco Antônio Villela de Abreu, defendeu a resiliência da rede, citando que 2025 foi um dos anos mais severos da história em termos de eventos climáticos, incluindo tornados e tempestades que danificaram milhares de postes e torres.
Além do fator climático, a companhia apontou um gargalo técnico crescente: o avanço da Geração Distribuída sem a devida comunicação à distribuidora. Segundo a Copel, conexões de placas solares “à revelia” provocam sobretensão e sobrecarga na rede noturna, quando os motores são acionados sem o suporte da geração solar.
Sobre a estratégia da companhia para mitigar esses problemas e atender especificamente o produtor, Villela de Abreu explicou: “O Copel Agro nasceu de um alinhamento conjunto com as entidades do G7, que representam o setor produtivo paranaense. O programa foi criado para dar respostas rápidas com foco nas demandas por energia e necessidades do agro apresentadas pelos produtores rurais.”
Ciclo de Investimentos: R$ 13,4 bilhões até 2030
Para reverter o cenário de insatisfação, a Copel detalhou um plano plurianual de investimentos. Após investir R$ 10,5 bilhões no quinquênio 2021-2025, a concessionária prevê elevar o aporte para R$ 13,4 bilhões entre 2026 e 2030. O plano inclui a entrega de 50 novas subestações e a construção de 1.200 quilômetros de novas redes de alta tensão.
A prioridade declarada é conferir robustez à rede rural para suportar o aumento de carga da agroindústria. Contudo, o setor produtivo e a Comissão de Infraestrutura sinalizaram que manterão o acompanhamento rigoroso dos prazos de execução dessas obras, visando reduzir os prejuízos no campo e garantir a estabilidade do fornecimento no estado.


