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Guerra no Oriente Médio redefine disputa energética global e fortalece cadeias da transição energética

Guerra no Oriente Médio redefine disputa energética global e fortalece cadeias da transição energética

Escalada entre EUA, Israel e Irã amplia pressão sobre petróleo e gás, enquanto países com domínio industrial em renováveis ganham influência geopolítica

A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã está acelerando uma transformação estrutural no equilíbrio energético global. Em meio à volatilidade dos preços do petróleo e às incertezas sobre o abastecimento internacional, especialistas avaliam que o centro do poder energético mundial começa a migrar das cadeias fósseis para o domínio industrial das tecnologias da transição energética.

A avaliação é de Eric Daza, CEO da Meridian Climate & Energy Advisory, consultoria especializada em descarbonização e energias renováveis. Para o executivo, o atual cenário geopolítico expõe não apenas a fragilidade histórica da dependência fóssil, mas também inaugura uma nova lógica de influência internacional baseada em capacidade industrial, eletrificação e controle tecnológico.

Petróleo segue estratégico, mas cadeias limpas ampliam influência global

O avanço das tensões no Oriente Médio recolocou o petróleo no centro das atenções dos mercados internacionais, especialmente diante do risco de interrupções logísticas e aumento dos custos energéticos globais. No entanto, para Daza, a disputa deixou de ser exclusivamente sobre reservas fósseis. “Durante décadas, o poder energético foi medido em barris, refinarias e rotas marítimas. Agora, começa a ser medido também em baterias, painéis solares, redes elétricas, equipamentos e capacidade industrial”, afirma.

A leitura reflete uma mudança estrutural observada nos principais mercados globais. Países que consolidaram cadeias produtivas ligadas à transição energética, especialmente China, Estados Unidos e União Europeia, passaram a disputar protagonismo não apenas no fornecimento de energia, mas também na fabricação de equipamentos estratégicos para eletrificação e descarbonização.

China amplia protagonismo na transição energética

Na avaliação do especialista, a China ocupa hoje posição central nessa reorganização geopolítica. Embora o país permaneça fortemente dependente das importações de petróleo e gás natural do Oriente Médio, Pequim construiu nas últimas duas décadas uma estrutura de mitigação baseada em eletrificação da economia, expansão renovável e fortalecimento industrial. O movimento permitiu ao país ampliar seu domínio sobre cadeias estratégicas ligadas à energia solar, baterias, inversores, redes elétricas e manufatura limpa.

Daza destaca que apenas em março de 2026 a China exportou 68 GW em equipamentos solares, volume equivalente à capacidade instalada total da Espanha. Para o executivo, o impacto dessas exportações transcende o fornecimento físico de equipamentos e cria relações duradouras de dependência tecnológica. “Cada contêiner de painéis, baterias ou inversores exportado hoje carrega padrões técnicos, software, manutenção, financiamento e dependências que podem durar décadas”, analisa.

Transição energética entra no centro da geopolítica

A consolidação das cadeias industriais limpas passou a ocupar posição estratégica na disputa global por influência econômica e energética. Segundo Daza, tecnologias da transição energética começam a assumir papel semelhante ao exercido historicamente pelo sistema financeiro internacional. “Cadeias industriais limpas podem se tornar, no plano físico, algo próximo do que o dólar representou no sistema financeiro: uma fonte de dependência, influência e poder geopolítico”, afirma.

A análise ganha relevância em um momento em que governos e empresas ampliam investimentos em segurança energética, relocalização industrial e fortalecimento de cadeias produtivas domésticas para reduzir vulnerabilidades externas.

Além da pressão sobre combustíveis fósseis, o conflito no Oriente Médio reforça preocupações relacionadas ao acesso a minerais críticos, equipamentos de geração renovável e infraestrutura de transmissão elétrica.

Brasil enfrenta desafio de evitar nova dependência energética

No caso brasileiro, o especialista avalia que o país corre o risco de substituir a dependência fóssil por uma nova dependência tecnológica vinculada à transição energética.

Atualmente, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes consumidos internamente e aproximadamente um quarto do diesel utilizado no país, fatores que elevam a vulnerabilidade da economia nacional às oscilações geopolíticas internacionais. “O Brasil não pode trocar dependência fóssil por dependência limpa”, alerta Daza.

Apesar disso, o executivo avalia que o país reúne vantagens competitivas relevantes para assumir papel estratégico no novo cenário energético global, incluindo matriz elétrica predominantemente renovável, disponibilidade de minerais críticos e potencial agroindustrial.

O principal gargalo, na avaliação do especialista, está na ausência de uma política industrial robusta voltada à segurança energética, agregação de valor tecnológico e fortalecimento da indústria nacional da transição energética.

Petróleo pode financiar expansão industrial da transição energética

A análise também aponta que a renda gerada pelo petróleo pode exercer papel relevante no financiamento da própria transição energética brasileira, desde que direcionada para expansão industrial, inovação tecnológica e infraestrutura.

Daza defende que o debate energético brasileiro avance além da arrecadação de curto prazo e passe a incorporar estratégias de fortalecimento produtivo nacional. “A matriz limpa só se transforma em poder econômico quando gera indústria, tecnologia, infraestrutura e empregos”, concluiu.

A discussão ganha peso em um momento de expansão dos investimentos globais em descarbonização, eletrificação e segurança energética, temas que vêm redefinindo não apenas o mercado de energia, mas também a dinâmica geopolítica internacional.