A lição que o Brasil já aprendeu (e esqueceu) sobre o petróleo

Por Christian Lohbauer, mestre e doutor em Ciências Políticas pela USP e professor universitário desde 1998, com longa trajetória executiva no setor empresarial e associativo e atuação em conselhos de agronegócio e relações internacionais

A mais recente escalada de tensão no Estreito de Ormuz, a hidrovia por onde escoa um quinto da produção mundial de petróleo e gás, voltou a disparar o preço do barril nos mercados globais. A cada nova crise no Oriente Médio, o mundo estremece. Os preços do petróleo sobem, as bolsas oscilam e governos correm para explicar à população por que o combustível ficou mais caro. Trata-se de um roteiro repetido à exaustão — e que o Brasil já poderia ter evoluído há décadas.

Em 1979, a Revolução Islâmica derrubou Mohammad Reza Pahlavi (ex-xá, ou rei, do Irã) e desequilibrou o mercado global de petróleo. O choque foi brutal. Mas, para o Brasil, aquele momento de crise foi também de oportunidade: em 1975, nasceu o Pró-Álcool, o maior programa de biocombustíveis da história, transformando cana-de-açúcar em combustível e em soberania energética.

Quase 50 anos depois, a história se repete. Nova crise no Irã, nova tensão no Oriente Médio, novo abalo nos preços do barril. E o Brasil, mais uma vez, assiste ao espetáculo como espectador, quando deveria ser protagonista de uma solução que já domina há muito tempo.

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O país desenvolveu, nessas décadas, um arsenal invejável: etanol de cana, etanol de milho, biodiesel, frotas flex que cobrem 80% dos veículos nacionais. Hoje, 27% da gasolina já contém etanol na mistura. Máquinas agrícolas rodam 100% a etanol. Quantos lugares no mundo podem dizer o mesmo?

Enquanto isso, a Malásia (grande produtora de óleo de palma) aumentou a mistura de biocombustível em seus derivados, reduzindo a dependência do petróleo importado. Simples, lógico e soberano.

No Brasil, o caminho oposto: interferência política nos preços da Petrobras, controle artificial da gasolina para conter inflação e uma narrativa que esconde do consumidor o verdadeiro potencial do que já temos. O etanol muitas vezes perde competitividade na bomba não por mérito técnico, mas por distorção de política pública.

Importamos cerca de 30% do diesel que consumimos. Essa dependência é uma vulnerabilidade estratégica num país que produz biocombustíveis de classe mundial. A lição de 1979 está escrita. Falta apenas a coragem política de aplicá-la.

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