IRENA: energia renovável com baterias já supera fósseis em custo e impulsiona Bahia como polo estratégico de geração firme

Relatório da agência internacional aponta que sistemas híbridos com solar, eólica e armazenamento conseguem entregar energia 24/7 a preços inferiores aos de novas térmicas a gás e carvão; Bahia desponta como um dos mercados mais competitivos do mundo para projetos de energia firme limpa.

A combinação entre geração renovável e armazenamento em baterias deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar uma solução economicamente competitiva no setor elétrico global. Um novo relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) conclui que sistemas híbridos compostos por usinas solares, parques eólicos e baterias já conseguem fornecer energia contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, com custos inferiores aos de novas usinas movidas a combustíveis fósseis.

O estudo reposiciona mercados com alta disponibilidade de recursos renováveis, como o Brasil, no centro da nova geopolítica energética. Entre os destaques aparece a Bahia, apontada como uma das regiões mais eficientes para implementação de sistemas híbridos devido à complementaridade entre a geração solar durante o dia e a produção eólica no período noturno.

Na prática, a análise da IRENA reforça uma mudança estrutural no planejamento energético mundial: o armazenamento passa a desempenhar papel central na confiabilidade do sistema elétrico, reduzindo a dependência de usinas térmicas e ampliando a competitividade das renováveis em aplicações que exigem fornecimento ininterrupto.

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Energia firme renovável entra em nova fase de competitividade

De acordo com o relatório, o custo nivelado da eletricidade firme produzida por sistemas solares com baterias já varia entre US$ 54 e US$ 82 por MWh em regiões com elevada incidência solar e bons corredores de vento. Em comparação, novas usinas a carvão na China operam entre US$ 70 e US$ 85 por MWh, enquanto projetos a gás natural ultrapassam US$ 100 por MWh em diversos mercados internacionais.

A viabilidade econômica desse modelo foi acelerada pela forte redução dos custos tecnológicos ao longo da última década. Desde 2010, os custos de instalação da energia solar fotovoltaica recuaram 87%, enquanto a energia eólica onshore caiu 55%. No armazenamento em baterias, a redução atingiu 93%, tornando os sistemas BESS (Battery Energy Storage Systems) peça-chave para a expansão da geração renovável firme.

Além da competitividade econômica, os projetos híbridos apresentam outra vantagem relevante para o setor elétrico: o prazo de implantação. Segundo a agência, grande parte dessas plantas pode entrar em operação entre um e dois anos após a obtenção das licenças e conexão à rede, prazo significativamente inferior ao observado em novas térmicas a gás.

Bahia ganha protagonismo na corrida global por energia 24/7

O relatório coloca o Brasil entre os mercados mais competitivos para geração renovável firme baseada em sistemas híbridos. No caso da energia eólica com armazenamento, os custos estimados atualmente variam entre US$ 88 e US$ 94 por MWh no país, com projeção de queda para uma faixa entre US$ 49 e US$ 75 por MWh até 2030.

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Dentro desse cenário, a Bahia aparece como um dos territórios mais estratégicos do mundo para expansão da infraestrutura energética limpa. O estado reúne dois fatores considerados decisivos para a eficiência desses sistemas: alta irradiação solar e ventos consistentes em horários complementares.

Essa característica reduz a necessidade de armazenamento excessivo, otimiza o uso das baterias e melhora o fator de capacidade dos projetos. O resultado é uma estrutura energética mais previsível e economicamente competitiva para atender grandes consumidores industriais e eletrointensivos.

O avanço da infraestrutura híbrida também fortalece a posição do Nordeste brasileiro em segmentos emergentes, como hidrogênio verde, data centers de inteligência artificial e indústrias de difícil descarbonização, cuja viabilidade depende de energia firme e preços previsíveis de longo prazo.

Segurança energética entra no centro da transição

O relatório da IRENA também reforça que a discussão sobre renováveis deixou de ser apenas ambiental e passou a integrar a agenda global de segurança energética. A volatilidade geopolítica dos mercados de petróleo e gás, somada às restrições logísticas internacionais, vem acelerando o interesse de governos e investidores em sistemas energéticos mais resilientes.

Ao avaliar o novo cenário energético global, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, afirmou: “A pior crise energética em décadas expôs o verdadeiro custo da dependência dos combustíveis fósseis. Mas agora existe um novo caminho. A energia renovável é cada vez mais a opção mais acessível, confiável e segura. Vamos acelerar a transição, investir em infraestrutura energética e fortalecer a cooperação internacional para finalmente levar energia limpa e produzida localmente a pessoas em todo o mundo.”

Na mesma linha, o diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera, destacou que a confiabilidade das fontes renováveis já deixou de ser um obstáculo técnico: “O antigo argumento de que as energias renováveis carecem de confiabilidade já não se sustenta. Hoje, as energias renováveis podem fornecer energia confiável, 24 horas por dia. Como os mercados de petróleo e gás permanecem expostos a choques geopolíticos, incluindo as constantes interrupções no Estreito de Ormuz, devemos proteger nossas economias com sistemas de energias renováveis resilientes. A economia de todo o sistema energético mudou: a revolução das baterias reduziu os custos e acelerou os avanços no armazenamento de energia. A vantagem das energias renováveis não é apenas econômica, mas também estratégica, fortalecendo a resiliência, a estabilidade e a segurança energética em tempos de crise.”

Data centers e hidrogênio verde ampliam demanda por energia firme

O avanço dos sistemas híbridos também responde diretamente à nova dinâmica de consumo global de energia. Setores como inteligência artificial, computação em nuvem e produção de hidrogênio verde exigem fornecimento contínuo, previsível e com baixa intensidade de carbono.

Nesse contexto, a energia renovável firme passa a ser vista como infraestrutura crítica para atração de investimentos industriais de alto valor agregado. A Bahia, que já concentra projetos de geração renovável em larga escala, tende a ampliar sua relevância como plataforma exportadora de energia limpa e vetor de industrialização verde.

A expectativa da IRENA é que os custos dos sistemas híbridos recuem mais 30% até 2030 e cerca de 40% até 2035. Nos mercados mais eficientes, a energia renovável firme poderá operar abaixo de US$ 50 por MWh na próxima década, consolidando uma nova lógica de competitividade no setor elétrico global.

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