Bioeconomia: Biocombustíveis podem injetar R$ 403,2 bilhões no PIB brasileiro até 2035

Estudo do Observatório de Bioeconomia da FGV aponta retorno de R$ 62 para cada R$ 1 investido e potencial para evitar 480 mil hectares de desmatamento; expansão setor impulsiona transporte e indústria de transformação.

O Brasil está diante de uma janela de oportunidade única para consolidar a bioenergia como o pilar central de sua transição energética. Um novo estudo detalhado pelo Observatório de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgado nesta terça-feira (5), revela que a expansão dos biocombustíveis tem o potencial de adicionar R$ 403,2 bilhões à economia nacional no período entre 2030 e 2035.

O levantamento, que contou com o suporte do Instituto Equilíbrio e da Agni, analisou as tecnologias integradas ao Plano ABC+ e projeta uma oferta de 64 bilhões de litros de biocombustíveis até 2030, englobando etanol de cana, milho, segunda geração (E2G) e biodiesel. Mais do que uma meta de volume, o avanço sinaliza uma reestruturação produtiva: estima-se que o setor cresça quase 70%, gerando efeitos em cascata na indústria de transformação e no setor de transportes.

Alavancagem Financeira e Interiorização do Emprego

A eficiência econômica da cadeia de bioenergia é um dos dados mais contundentes do relatório. Para cada real aportado no setor, o retorno gerado para a economia brasileira é multiplicado de forma exponencial. No entanto, o estudo adverte que essa escalada depende de marcos regulatórios estáveis e de linhas de crédito que mitiguem riscos para o produtor.

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Ao analisar a capacidade de propagação de valor desse modelo energético, o pesquisador responsável pelo estudo, Cícero Lima, ressalta o papel da bioenergia como indutor de crescimento: “Os biocombustíveis podem gerar R$ 62 de retorno para cada R$ 1 investido, um dos resultados mais expressivos do estudo. Mais do que uma alternativa energética, a bioenergia se configura como um vetor de crescimento, com efeitos que se propagam por diferentes setores da economia.”

Além do impacto financeiro, o setor desponta como uma das principais frentes de geração de trabalho qualificado fora dos grandes centros urbanos. A projeção é de 225,5 mil novas ocupações, fortalecendo as economias locais e a agroindústria no interior do País.

Descarbonização e Eficiência no Uso do Solo

O impacto ambiental da substituição de fontes fósseis por renováveis é outro pilar da análise. A redução estimada de 27,6 Mt CO₂e (milhões de toneladas de CO₂ equivalente) reforça a competitividade do Brasil no mercado global de créditos de carbono. A tecnologia do etanol de cana-de-açúcar, especificamente, demonstra uma redução de até 90% nas emissões quando comparada à gasolina.

Um ponto crítico endereçado pelo relatório da FGV Agro é a questão do uso da terra. O aumento da produção não implica em avanço sobre biomas preservados; pelo contrário, a maior produtividade nas áreas já antropizadas pode evitar o desmatamento de 480 mil hectares, especialmente no Cerrado e na Amazônia.

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Sobre a sinergia entre produção agrícola e as metas climáticas internacionais, o CEO do Instituto Equilíbrio, Eduardo Bastos, destaca a maturidade tecnológica brasileira: “O Brasil reúne vantagens competitivas únicas em biocombustíveis, com escala, base produtiva e tecnologia já consolidadas. O avanço do setor mostra que não há contradição entre produzir e descarbonizar. Com incentivos e previsibilidade adequados, o País pode transformar esse potencial em liderança global e consolidar a bioenergia como um dos principais motores da transição energética.”

Impactos Setoriais e Perspectiva para 2030

Os dados do FGV Agro indicam que a bioenergia funciona como um catalisador industrial. Além do crescimento direto de 69,7% no próprio setor, os impactos indiretos são projetados em 8,1% para o setor de transportes e 6,4% para a indústria de transformação.

O estudo conclui que a transição energética brasileira, sustentada por tecnologias de baixo carbono, permite a expansão simultânea da produção de alimentos e energia. Esse modelo de “dupla aptidão” do campo brasileiro retira o país de um possível cenário de conflito pelo uso da terra, posicionando-o como o fornecedor de soluções de descarbonização mais eficientes e baratas do mercado global.

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