Relatório do PNUMA aponta que ultrapassagem temporária de 1,5°C elevará perdas econômicas e exigirá investimentos adicionais em descarbonização e adaptação de redes elétricas, cidades e ativos de infraestrutura
A ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C de aquecimento global em relação aos níveis pré-industriais poderá gerar perdas econômicas superiores a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em um cenário de elevação entre 1,5°C e 1,7°C. O alerta foi apresentado nesta quarta-feira (2), durante debate promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) sobre o novo Relatório Especial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
O chamado overshoot climático ocorre quando a temperatura média global ultrapassa temporariamente determinado limite antes de uma eventual redução posterior. A perspectiva coloca um novo componente no planejamento energético: além de acelerar a redução das emissões, governos e empresas terão de preparar ativos de infraestrutura para operar em condições climáticas mais severas.
Para o setor elétrico, a discussão envolve desde a expansão e modernização das redes até a localização e o dimensionamento de usinas, subestações e demais instalações expostas a eventos extremos. O atraso na mitigação tende a aumentar simultaneamente a necessidade de investimentos em descarbonização e os custos de adaptação.
Orçamento de carbono se aproxima do limite
O economista sênior do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor da PUC-Rio, Sergio Margulis, destacou a distância entre o volume atual de recursos destinados à descarbonização e o montante necessário para alterar a trajetória das emissões globais.
Margulis apontou que os investimentos atualmente direcionados à descarbonização correspondem a aproximadamente 2% do PIB mundial, enquanto a necessidade estimada seria de cerca de US$ 5 trilhões por ano. A postergação desses investimentos, na avaliação apresentada durante o encontro, tende a transferir custos para a adaptação a eventos climáticos extremos.
A restrição é ainda mais evidente quando observada pelo chamado orçamento global de carbono. A presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS/OMM), Thelma Krug, apresentou estimativa de aproximadamente 130 bilhões de toneladas de CO₂ restantes, a partir de 2026, para manter o aquecimento dentro do limite de 1,5°C.
Com emissões fósseis e industriais próximas de 40 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, a margem seria equivalente a aproximadamente três a quatro anos de emissões nesse ritmo. O cálculo evidencia a pressão sobre governos e empresas para acelerar a redução do uso de combustíveis fósseis e ampliar investimentos em tecnologias de baixo carbono.
Thelma Krug também destacou que o planeta já registra aproximadamente 1,37°C de elevação da temperatura média, com uma taxa de crescimento estimada em 0,26°C por década: “Os jovens de hoje vão viver um mundo em que terão que lidar com um aquecimento acima de 1,5°C, com um pico que não sabemos qual será e, depois, com um processo lento de reversão, se formos capazes de reverter.”
Adaptação passa a ser questão de infraestrutura
A possibilidade de overshoot não elimina a necessidade de limitar o aumento da temperatura. Ao contrário, acrescenta uma camada de risco ao planejamento de longo prazo, já que parte dos impactos climáticos poderá persistir mesmo depois de uma eventual estabilização ou redução das temperaturas.
Na avaliação de Margulis, as medidas de adaptação não substituem a redução das emissões. A permanência da dependência global de combustíveis fósseis mantém a pressão sobre o sistema climático e aumenta a necessidade de investimentos preventivos.
Essa dinâmica é particularmente relevante para ativos com vida útil de várias décadas. No setor elétrico, decisões tomadas hoje sobre linhas de transmissão, subestações, usinas e sistemas de distribuição precisarão considerar condições ambientais diferentes daquelas observadas no histórico utilizado tradicionalmente para o dimensionamento.
Redes elétricas entram no centro da resiliência
A mudança do regime climático pode afetar tanto a disponibilidade de recursos energéticos quanto a integridade física da infraestrutura. Ondas de calor, chuvas intensas, inundações, secas e elevação do nível do mar podem alterar as condições de operação de ativos elétricos e aumentar a frequência ou a severidade de interrupções.
Nesse cenário, o planejamento do setor tende a exigir maior integração entre políticas de mitigação e adaptação. A expansão de fontes renováveis reduz emissões, mas precisa ser acompanhada de redes capazes de suportar maior variabilidade da geração e eventos extremos.
A infraestrutura de transmissão também ganha importância. Ativos instalados em regiões costeiras ou próximos a áreas sujeitas a inundações terão de considerar horizontes mais longos de elevação do nível do mar e mudanças nas condições hidrológicas.
Modelos históricos podem perder capacidade de previsão
Krug alertou para uma limitação dos modelos tradicionais de planejamento de infraestrutura: utilizar exclusivamente o comportamento climático passado como referência para definir padrões futuros de segurança.
A alteração das condições climáticas reduz a capacidade de séries históricas representarem adequadamente os riscos que os ativos enfrentarão durante sua vida útil. Isso pode exigir mudanças em critérios de engenharia, normas construtivas, localização de instalações e parâmetros de operação.
O problema não se restringe ao setor elétrico. Saúde, agricultura, transporte e infraestrutura urbana também precisam incorporar cenários climáticos mais severos ao planejamento. Outro fator destacado pela cientista é a resposta dos oceanos. Mesmo diante de uma eventual estabilização da temperatura global, o nível dos mares continuará subindo por décadas em razão da dinâmica do sistema climático.
Para o setor energético, isso aumenta a importância da avaliação de vulnerabilidade de instalações localizadas em áreas costeiras, incluindo ativos de geração, transmissão e distribuição.
Descarbonização e adaptação terão de avançar juntas
O debate sobre overshoot desloca parte da discussão climática de uma questão exclusivamente ambiental para uma agenda de planejamento econômico e de infraestrutura. A eventual ultrapassagem de 1,5°C não significa abandonar a meta de limitar o aquecimento, mas reconhecer que decisões de investimento precisarão considerar um período de temperaturas mais elevadas.
A consequência para o setor elétrico é direta: investimentos em geração renovável e redução das emissões precisam ocorrer simultaneamente ao reforço da resiliência das redes e à adaptação dos ativos aos novos riscos climáticos.
A combinação entre descarbonização e adaptação também terá impacto sobre os orçamentos públicos e privados. Quanto maior o atraso na redução das emissões, maior tende a ser a necessidade de recursos para proteger infraestruturas e manter a continuidade dos serviços essenciais.
Ao avaliar o significado do overshoot para o compromisso climático internacional, Krug ressaltou que a ultrapassagem temporária não elimina o objetivo estabelecido pelo Acordo de Paris, mas torna mais urgente a reversão da trajetória de aquecimento: “O overshoot não coloca o Acordo de Paris em xeque. Ele alerta os países de que agora vamos ter que segurar o aumento acima de 1,5°C para poder reverter.”


