Combate a fraudes recupera 10 bilhões de litros de combustíveis para o mercado formal

Operações contra sonegação, adulteração e infiltração do crime organizado ampliam arrecadação e pressionam por reforço da ANP e avanço da monofasia do ICMS sobre o etanol

Cerca de 10 bilhões de litros de combustíveis foram retirados do mercado ilegal e direcionados à cadeia formal de abastecimento no Brasil a partir da atuação integrada entre forças de segurança, órgãos de fiscalização, fiscos estaduais e empresas do setor. A estimativa foi apresentada pelo presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), Emerson Kapaz, durante debate sobre a chamada “economia do crime”, realizado nesta quinta-feira (27).

O volume recuperado evidencia a dimensão econômica das fraudes no setor de combustíveis, que, na avaliação dos participantes do encontro, deixaram de se concentrar em irregularidades pontuais na revenda e passaram a envolver estruturas organizadas de sonegação, adulteração, lavagem de dinheiro e manipulação logística.

O debate reuniu o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, e o diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima. A discussão teve como pano de fundo a transformação das organizações criminosas e sua crescente capacidade de explorar vulnerabilidades regulatórias, tributárias e operacionais da cadeia de downstream.

- Advertisement -

Carbono Oculto amplia pressão sobre estruturas criminosas

Prestes a completar um ano, a Operação Carbono Oculto passou a ser apontada pelo ICL como um marco na estratégia de combate à atuação criminosa no mercado de combustíveis. A ofensiva envolveu aproximadamente 1,5 mil agentes e mais de 320 mandados de busca e apreensão, com participação de Receita Federal, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Ministérios Públicos, Ministério da Justiça, secretarias estaduais e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A operação também deu origem a desdobramentos como Tanque, Quasar e Poço de Lobato. A estratégia passou a combinar repressão policial, fiscalização tributária e acompanhamento da cadeia de comercialização, buscando atingir não apenas os pontos de venda, mas também as estruturas financeiras e logísticas utilizadas para sustentar as fraudes.

O efeito sobre a arrecadação já aparece em alguns mercados estaduais. No Rio de Janeiro, o recolhimento de impostos sobre combustíveis aumentou 77% no segundo trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. A elevação foi associada ao combate à evasão fiscal e à transferência de volumes comercializados irregularmente para a rede formal.

A dimensão do problema levou o ICL a defender uma mudança na forma de compreender a fraude no setor. Emerson Kapaz destacou que a revenda representa apenas a etapa mais visível de uma estrutura que pode envolver diferentes elos da cadeia: “O posto é a ponta do iceberg.”

- Advertisement -

A avaliação reforça a necessidade de ampliar a fiscalização para distribuidoras, transportadoras, fornecedores e mecanismos tecnológicos empregados na comercialização. Entre as práticas identificadas no ambiente de combate às fraudes estão esquemas de engenharia financeira e logística e manipulações que podem ocorrer diretamente nos equipamentos de abastecimento.

Setor cobra reforço regulatório da ANP

A recuperação de volumes para o mercado formal também elevou a pressão por mudanças na estrutura regulatória. Para o ICL, o avanço das operações de segurança precisa ser acompanhado de instrumentos permanentes de fiscalização e compartilhamento de informações entre as diferentes instituições envolvidas.

Entre as propostas em discussão no Congresso Nacional está o PL 109, que prevê ampliar o intercâmbio de dados operacionais entre a ANP e as Secretarias de Fazenda estaduais. A integração é considerada relevante para cruzar informações de comercialização, movimentação de produtos e recolhimento de tributos.

Outro texto citado é o PL 399, que busca endurecer as sanções administrativas aplicadas pela agência reguladora. Já o PL 1.482 trata da tipificação e do agravamento de penas para crimes relacionados a furto, roubo, receptação e descaminho de combustíveis e lubrificantes em diferentes modais de transporte.

O debate também colocou em evidência a capacidade operacional da ANP. O país possui mais de 46 mil postos revendedores ativos, além de uma cadeia que envolve produtores, importadores, distribuidores, transportadores e revendedores. Para o setor, a dimensão desse mercado exige maior disponibilidade de recursos humanos, orçamento e tecnologia para fiscalização.

Kapaz defendeu uma atuação regulatória abrangente, sem distinção entre agentes conforme seu porte ou posição no mercado: “Queremos uma ANP forte, que fiscalize todos, bons ou ruins.”

O fortalecimento da agência, nesse sentido, é tratado como parte da estratégia para reduzir assimetrias de fiscalização e evitar que alterações no ambiente regulatório sejam utilizadas para criar novas oportunidades de atuação ilegal.

Fraudes tributárias migram para o etanol

A evolução das práticas de sonegação também aumentou a atenção sobre a tributação dos biocombustíveis. Com a consolidação da monofasia do ICMS para gasolina e diesel, o setor identifica uma migração de parte das irregularidades para o mercado de etanol hidratado.

O regime monofásico concentra a cobrança do imposto em uma etapa da cadeia, utilizando uma alíquota específica por unidade de produto, o modelo ad rem. Para o setor, a extensão desse mecanismo ao etanol pode reduzir espaços para evasão fiscal e simplificar o controle tributário sobre a comercialização.

A discussão ganhou relevância justamente porque o fechamento de brechas em determinados produtos pode deslocar a atividade irregular para segmentos que ainda apresentam maior vulnerabilidade tributária. A antecipação da monofasia do etanol, portanto, é defendida como medida complementar às ações de inteligência e fiscalização.

Dados e rastreabilidade ganham papel estratégico

O combate às fraudes no mercado de combustíveis passa, cada vez mais, pela capacidade de integrar informações de diferentes pontos da cadeia. Dados fiscais, registros de movimentação, informações regulatórias e elementos de logística podem ser cruzados para identificar padrões incompatíveis com a operação regular.

A estratégia também envolve ampliar a rastreabilidade dos combustíveis desde a origem até a comercialização final. O objetivo é aumentar a capacidade de identificação de desvios, adulterações e movimentações incompatíveis com os volumes declarados pelos agentes. Nesse ambiente, a tecnologia passa a exercer função semelhante à fiscalização presencial, permitindo que órgãos públicos e empresas identifiquem anomalias com maior velocidade e direcionem operações para pontos de maior risco.

A participação do consumidor é outra frente considerada relevante. Ferramentas digitais de transparência podem facilitar o acesso a informações sobre estabelecimentos e produtos e contribuir para ampliar a capacidade de identificação de irregularidades.

O resultado das operações recentes indica que o combate à ilegalidade no setor de combustíveis deixou de ser exclusivamente uma questão de fiscalização de postos. A recuperação de bilhões de litros para o mercado formal e o aumento da arrecadação em estados como o Rio de Janeiro reforçam o peso econômico da agenda.

Para sustentar esses resultados, porém, o setor defende uma combinação permanente de fiscalização regulatória, inteligência policial, integração tributária, rastreabilidade logística e modernização legislativa. A avaliação é que a capacidade de adaptação das organizações criminosas exige que os mecanismos de controle avancem na mesma velocidade, evitando que o deslocamento das fraudes entre produtos, empresas e etapas da cadeia neutralize os ganhos obtidos pelas operações de repressão.

Destaques da Semana

CCEE divulga lista de usinas elegíveis à compensação por cortes de geração

Relação reúne empreendimentos eólicos e solares que manifestaram interesse...

ANEEL adia decisão sobre caducidade da concessão da Enel SP após pedido de vista

Diretor Gentil Nogueira interrompe julgamento e aponta necessidade de...

MPTCU sugere solução consensual no TCU para impasse da Enel São Paulo

Movimentação ocorre enquanto Aneel avalia recomendar a caducidade da...

MME cobra da Aneel ponto focal para plano sobre continuidade da Enel SP

Ministério dá cinco dias para agência indicar responsável por...

CMSE encerra período seco com armazenamento de 61% no SIN, 5 pontos acima de 2025

Reservatórios fecharam setembro em condição mais favorável que no...

Artigos

Últimas Notícias