Financiamento da Cadeia Fóssil no Brasil Atribui US$ 45,4 Bilhões a Bancos e Fundos de Pensão

Levantamento do Instituto Internacional Arayara mapeia exposição do BNDES, Previ e Itaú no setor de óleo, gás e carvão. Eneva e Petrobras lideram captações voltadas à expansão térmica e novas fronteiras exploratórias.

O descompasso entre as metas de transição energética corporativas e a alocação real de recursos no mercado de capitais brasileiro ganhou novos indicadores quantitativos. Um estudo setorial publicado pelo Instituto Internacional Arayara revelou que o sistema financeiro nacional mantém uma exposição consolidada de US$ 45,4 bilhões em ativos direcionados à cadeia de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral).

O diagnóstico, estruturado a partir dos dados globais da plataforma Investing in Climate Chaos 2026 (desenvolvida pela Urgewald), detalha que o montante injetado por investidores institucionais e bancos comerciais operando no país está distribuído em US$ 40 bilhões na subscrição e detenção de ações e US$ 5,4 bilhões na emissão de títulos de dívida (bonds e debêntures).

Concentração de Capital e o Top 10 dos Financiadores

A distribuição do balanço financeiro evidencia uma alta concentração de custeio em poucas e tradicionais instituições do mercado nacional. Juntos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Previ (caixa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil) e o Itaú Unibanco respondem por US$ 21,5 bilhões do volume mapeado, patamar correspondente a quase metade de todo o suporte financeiro brasileiro identificado no fluxo da indústria fóssil.

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Abaixo, os dados consolidados pelo levantamento expõem as dez maiores carteiras de investimento em ativos de alta emissão no país:

PosiçãoInstituição Financeira / InvestidorExposição Total (US$)
BNDES – Brazilian Development Bank9,14 bilhões
Caixa de Previdência dos Funcionários do BB (Previ)7,01 bilhões
Itaú Unibanco5,30 bilhões
BTG Pactual4,75 bilhões
Banco do Brasil3,14 bilhões
Banco Clássico3,019 bilhões
Bradesco2,21 bilhões
Caixa Econômica Federal1,92 bilhões
Safra Group873,4 milhões
10ºDynamo Administração de Recursos770,1 milhões

Demanda por Financiamento Corporativo: Vale e Petrobras no Topo

Do lado tomador dos recursos, o ecossistema corporativo local captou cerca de US$ 125 bilhões de fontes domésticas e internacionais para viabilizar operações estruturadas em 12 grandes corporações do segmento energético e de mineração pesada. A mineradora Vale lidera a atração de capital com uma exposição financeira associada de US$ 45,8 bilhões, secundada de perto pela estatal Petrobras, com US$ 44,4 bilhões captados junto à base global de investidores.

No desdobramento setorial focado em energia e infraestrutura de óleo e gás, outras operadoras aparecem com posições de destaque no mercado de dívida e participações societárias: AXIA Energia (US$ 14,7 bilhões), Eneva (US$ 8 bilhões), Prio (US$ 4,7 bilhões), Cosan (US$ 3,6 bilhões), Ultrapar (US$ 2,2 bilhões) e Brava Energia (US$ 1,3 bilhão).

O Papel da Térmica a Gás na Expansão do Setor Elétrico

O documento técnico confere especial atenção à dinâmica de expansão da matriz termoelétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN) por meio de investimentos na região Norte. A Eneva desponta no cenário de geração termelétrica a partir de sua estratégia de verticalização com ativos de produção e conversão de gás e carvão.

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A operadora consolidou posição de destaque na infraestrutura de potência ao assegurar contratos de fornecimento firme no ambiente de contratação regulada, viabilizando o complexo integrado de gás natural no cluster de Azulão, no estado do Amazonas, que engloba novas plantas termoelétricas e redes de escoamento por gasodutos.

A engenharia financeira que dá suporte ao avanço dessas térmicas envolve uma estrutura compartilhada de grandes players do mercado financeiro. O BTG Pactual encabeça a alocação de crédito e ações na Eneva com US$ 2,09 bilhões, seguido por fundos como Partners Alpha Investments (US$ 1,83 bilhão), Dynamo (US$ 767,8 milhões) e Rossmore Private Capital (US$ 761,7 milhões). O arranjo societário e de debêntures engloba ainda gestoras globais e nacionais de peso, incluindo GQG Partners, Itaú Unibanco, Atmos Capital, BlackRock, Vanguard e Banco do Brasil.

Fronteira de Óleo na Margem Equatorial e a Corresponsabilidade Financeira

O direcionamento dos aportes bancários também baliza as frentes de exploração de hidrocarbonetos na Margem Equatorial brasileira, onde a Petrobras conduz campanhas de licenciamento e perfuração na bacia da Foz do Amazonas. O suporte de capital nacional para a estatal do petróleo é liderado pelo BNDES, detentor de US$ 6,9 bilhões em exposição no ativo. O bloco de financiadores é complementado pelas carteiras do Banco Clássico (US$ 1,86 bilhão), Itaú Unibanco (US$ 1,36 bilhão), Caixa Econômica Federal (US$ 710,6 milhões), Banco do Brasil (US$ 668,1 milhões) e Bradesco (US$ 444,5 milhões).

Ao analisar a dinâmica de alocação de risco e as implicações socioambientais das carteiras de crédito, o coordenador de Geotecnologias e Meio Ambiente do Instituto Internacional Arayara e responsável pela consolidação dos dados, Alisson Capelli, aponta para a diluição da responsabilidade da pegada de carbono entre operadores de campo e provedores de liquidez: “Os dados mostram que a responsabilidade pela expansão fóssil não é apenas de empresas como Petrobras e Eneva. Bancos, fundos e investidores que financiam esses projetos também são corresponsáveis pelos impactos ambientais, climáticos e sociais gerados por essa expansão. Sem esse apoio financeiro, muitos desses empreendimentos simplesmente não sairiam do papel.”

A publicação do relatório traz à tona a necessidade de revisão de critérios de taxonomia verde e compliance climático no mercado interno, em um momento em que a governança do setor elétrico debate a flexibilidade e a segurança de suprimento da base térmica em face da penetração das fontes renováveis intermitentes.

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