Biogás e biometano ganham escala e ampliam papel na segurança energética e na descarbonização

13º Fórum do Biogás reúne mais de 1,2 mil participantes em São Paulo e coloca regulação, infraestrutura, mercado de gás e mobilidade no centro da agenda do setor

O mercado brasileiro de biogás e biometano avança de uma agenda de potencial para uma etapa marcada por projetos, investimentos e definição de instrumentos regulatórios. Esse movimento ficou evidente no primeiro dia do 13º Fórum do Biogás, que reuniu mais de 1,2 mil participantes entre representantes do governo, empresas, investidores e especialistas.

Promovido pela Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), o evento concentrou os debates nos efeitos da expansão do biometano sobre a segurança energética, diversificação da matriz, descarbonização, mercado de gás natural e mobilidade urbana.

A programação também evidenciou um dos principais desafios para a consolidação da cadeia: transformar o crescimento da produção em oferta efetivamente conectada aos mercados consumidores, com infraestrutura adequada, previsibilidade regulatória e instrumentos capazes de estimular novos investimentos.

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“A presença expressiva de participantes já no primeiro dia mostra que o biogás e o biometano deixaram de ser apenas um potencial e passaram a ocupar um espaço estratégico nas discussões sobre segurança energética, descarbonização e competitividade. O Fórum do Biogás cumpre justamente esse papel: reunir os diferentes agentes da cadeia para que os avanços regulatórios, tecnológicos e de mercado possam ser convertidos em projetos, investimentos e escala para o setor”, afirma Josiani Napolitano, presidente-executiva da ABiogás.

Biometano entra na agenda de segurança energética

A abertura técnica do evento colocou a diversificação da matriz energética no centro das discussões. A plenária “Biogás e biometano: diversificando a matriz e fortalecendo a segurança energética” avaliou o papel dos combustíveis renováveis na redução da exposição a fontes fósseis e importadas.

O debate reuniu representantes da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), do governo de São Paulo e da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), evidenciando a conexão do biogás com diferentes setores da economia.

Além da produção de energia, o biogás apresenta uma particularidade estratégica: sua matéria-prima está associada a resíduos agroindustriais, urbanos e de outras atividades produtivas. O aproveitamento energético desses materiais permite combinar gestão de resíduos, geração de combustível renovável e redução de emissões em uma mesma cadeia.

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Regulamentação do biometano ganha peso

No período da tarde, o debate avançou sobre a implementação do novo ambiente regulatório. O painel “Mandato do biometano na Lei Combustível do Futuro” reuniu representantes do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Ministério de Minas e Energia (MME), Solví e Gás Verde para discutir os efeitos das novas regras sobre produtores, distribuidores e consumidores.

A regulamentação passa a ser um dos principais vetores para a expansão do mercado, especialmente à medida que mecanismos de descarbonização criam demanda adicional pelo combustível renovável. Outro ponto crítico é a infraestrutura. O painel “Infraestrutura e logística do biometano” reuniu representantes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), Gasmig e Copa Energia para discutir alternativas de transporte, distribuição e escoamento da produção.

A questão logística é particularmente relevante porque a produção de biometano pode ocorrer de maneira descentralizada, próxima às fontes de resíduos. A expansão do mercado, portanto, depende de soluções capazes de conectar diferentes polos produtores aos consumidores, seja por redes de gás, transporte rodoviário ou outros modelos de distribuição.

Mobilidade urbana amplia demanda potencial

A utilização do biometano no transporte público também ganhou espaço no evento. Durante a programação, os participantes puderam conhecer um ônibus da Scania movido a biometano, apresentado como exemplo de aplicação do combustível na substituição de fontes fósseis.

A discussão reuniu representantes da Sinergás, Comgás, Scania, Solví e SPTrans para avaliar a integração entre gestão de resíduos, produção de biometano e mobilidade urbana.

A estratégia pode ganhar relevância em grandes centros urbanos, nos quais a geração de resíduos e a demanda por transporte são concentradas. A combinação dessas cadeias cria uma oportunidade para transformar resíduos em combustível e, simultaneamente, reduzir emissões no transporte.

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, foi homenageado durante a abertura pelas iniciativas relacionadas ao uso do biometano e à sua inserção na agenda de mobilidade da capital paulista.

CGOB será destaque no segundo dia

A agenda do fórum prossegue nesta quarta-feira (12) com foco na implementação de instrumentos regulatórios e na expansão dos mercados consumidores. Um dos principais destaques será o lançamento do Guia Prático do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), desenvolvido pela ABiogás para orientar os agentes sobre o funcionamento do certificado e sua relação com o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano.

O CGOB será também tema de um painel específico sobre regulação e operacionalização, com discussões sobre procedimentos, responsabilidades dos agentes e desafios para implementação do mecanismo. A agenda inclui ainda debates sobre economia circular, digestato, benefícios tributários, transporte de cargas, abertura do mercado de gás, descentralização da produção, pequenos projetos e desenvolvimento tecnológico.

Cadeia tecnológica amplia possibilidades

Além dos painéis institucionais, a Arena do Fórum apresentou soluções voltadas à cadeia produtiva do biogás e do biometano. Entre os temas estiveram o aproveitamento energético de aterros sanitários, processamento de biomassa, pré-tratamento, otimização da geração de biogás, aproveitamento do digestato, análise de gases e controle de emissões fugitivas.

Também foram apresentadas tecnologias para aproveitamento de CO₂ e monitoramento da qualidade do gás, além de iniciativas voltadas à articulação do setor, como o movimento Mulheres do Biogás e a plataforma CP2B, destinada à localização e ao aproveitamento de resíduos para produção de biogás e bioprodutos.

O conjunto de iniciativas mostra que a expansão do mercado não depende apenas do aumento da produção. Infraestrutura, tecnologia, regulação, certificação e criação de demanda serão determinantes para transformar o potencial de biogás e biometano em uma cadeia energética de maior escala no Brasil.

Com a consolidação dos instrumentos regulatórios e o avanço de aplicações em transporte, indústria, geração e mercado de gás, o biometano passa a disputar espaço como componente estratégico da transição energética brasileira, especialmente pela capacidade de associar redução de emissões, aproveitamento de resíduos e segurança no suprimento.

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