Levantamento internacional estima redução de até 75% nas emissões frente ao diesel e identifica no Brasil potencial para ampliar produção e exportar tecnologia
O biometano pode assumir papel relevante na descarbonização do transporte pesado e de longa distância, especialmente em aplicações nas quais a eletrificação enfrenta limitações relacionadas à autonomia, peso das baterias e infraestrutura de recarga. Essa é uma das conclusões do estudo internacional Biomethane for Transport Decarbonization, encomendado pelo Instituto MBCBrasil e elaborado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e Instituto Mauá de Tecnologia.
O levantamento reúne evidências técnicas e econômicas de mercados das Américas, Europa, Ásia e África e avalia o uso do combustível produzido a partir de resíduos orgânicos, como vinhaça, dejetos animais, resíduos urbanos e esgoto.
Além da redução das emissões no transporte, o estudo identifica uma oportunidade específica para o Brasil: utilizar a disponibilidade de matéria-prima e a experiência industrial já acumulada para ampliar a produção doméstica e desenvolver uma cadeia exportadora de equipamentos, engenharia e tecnologias associadas ao biometano.
Mercado global entra em fase de expansão
O biometano já é produzido em cerca de 40 países e utilizado no transporte em quase 30 mercados. O estudo estima que o potencial sustentável global de biogás e biometano chega a aproximadamente 1 trilhão de metros cúbicos por ano, equivalente a cerca de 25% da demanda mundial de gás natural.
A expansão já aparece nas políticas energéticas de grandes mercados. Na União Europeia, o plano REPowerEU estabeleceu uma meta de produção de 35 bilhões de metros cúbicos anuais de biometano até 2030, acompanhada de estimativa de investimentos de € 37 bilhões. Nos Estados Unidos, o levantamento contabiliza 470 projetos de gás natural renovável (RNG). Na Índia, mais de 7,7 milhões de veículos movidos a gás estão em circulação.
Para Gláucia Mendes Souza, professora da USP, líder da IEA Bioenergy Task 39 e uma das autoras do trabalho, a principal conclusão da análise é que o biometano já dispõe de maturidade suficiente para aplicações comerciais em diferentes mercados. Ela destaca que, para o Brasil, a oportunidade não se limita à produção do combustível e inclui a exportação de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas.
Potencial brasileiro está concentrado nos resíduos
O Brasil reúne uma das maiores disponibilidades de matérias-primas para produção de biometano. Apenas no setor sucroenergético, o potencial estimado pelo estudo chega a 41,4 bilhões de metros cúbicos por ano, dos quais menos de 2% seriam atualmente aproveitados.
A dimensão dessa oportunidade está relacionada à escala da produção agrícola. Na safra 2024/25, o país processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, gerando, conforme as estimativas utilizadas no levantamento, aproximadamente 380 bilhões de litros de vinhaça.
O aproveitamento desse resíduo já ocorre em projetos comerciais. A Cocal, por exemplo, opera desde 2020 uma unidade em Narandiba (SP) com produção de cerca de 50 mil Nm³/dia de biometano a partir de vinhaça e torta de filtro. A empresa também possui uma segunda planta em Paraguaçu Paulista (SP), com produção estimada entre 30 mil e 40 mil Nm³/dia.
O estudo cita ainda projetos de biometano associados a usinas da Raízen, São Martinho e Adecoagro, além de iniciativas baseadas em resíduos de aterros sanitários.
Biometano pode reduzir emissões e custo operacional
No transporte pesado, o principal ganho apontado pelo estudo está na combinação entre redução de emissões e possibilidade de utilização da infraestrutura de veículos movidos a gás. A substituição do diesel por biometano pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 45% a 75% no ciclo poço-à-roda, de acordo com as referências reunidas pelos pesquisadores.
Em projetos que utilizam resíduos cuja decomposição liberaria metano para a atmosfera, a captura do gás acrescenta um benefício climático. Considerando também os créditos associados à redução dessas emissões fugitivas, determinadas configurações podem apresentar balanço líquido negativo de emissões, chegando a até -246% em relação ao diesel, conforme o estudo. O impacto também se estende à qualidade do ar. O levantamento aponta redução de até dez vezes nas emissões de material particulado e fuligem em comparação com combustíveis fósseis líquidos.
A competitividade econômica aparece como outro fator de adoção. Em simulações de Custo Total de Propriedade (TCO) para frotas pesadas no Brasil, o custo por quilômetro com biometano variou de 30% abaixo a 25% acima do diesel, dependendo das condições consideradas. Em uma das referências analisadas, o TCO ficou em US$ 1,73/km para GNC/biometano, ante US$ 1,87/km para o diesel e US$ 1,59/km para o GNL.
Modelo de negócio vai além da venda do gás
A rentabilidade dos projetos não depende necessariamente apenas da comercialização do biometano. O estudo identifica receitas complementares associadas ao tratamento de resíduos, à venda do digestato como biofertilizante e à comercialização de créditos de carbono.
Em mercados mais maduros, essas atividades podem representar entre 20% e 60% da receita total de uma planta, segundo o levantamento. Esse modelo altera a lógica econômica dos empreendimentos, que passam a combinar produção de combustível, tratamento de resíduos e aproveitamento de subprodutos. Na prática, a unidade se aproxima de uma biorrefinaria, com diferentes fontes de receita a partir de uma mesma matéria-prima.
Para o Brasil, essa característica é particularmente relevante porque amplia o universo de projetos potenciais para além do setor sucroenergético, incluindo saneamento, resíduos urbanos, agropecuária e outras atividades com elevada disponibilidade de matéria orgânica.
Tecnologia brasileira pode virar mercado de exportação
O desenvolvimento dessa cadeia também criou competências industriais que podem ser aproveitadas em outros mercados. O estudo destaca soluções brasileiras em biodigestão, purificação do gás, monitoramento de processos, transporte de biometano liquefeito e integração com a produção de fertilizantes de baixo carbono.
A experiência acumulada no processamento de resíduos como vinhaça e torta de filtro pode favorecer empresas brasileiras interessadas em fornecer equipamentos e serviços para países da América Latina, Ásia e África que possuem grande produção agrícola, mas ainda apresentam baixa infraestrutura de aproveitamento energético de resíduos.
Essa possibilidade desloca parte da discussão sobre o biometano de uma perspectiva exclusivamente energética para uma agenda industrial, na qual o país pode capturar valor também por meio da venda de tecnologia e serviços.
Regulação brasileira começa a estruturar mercado
O avanço da cadeia ocorre em paralelo à implementação do marco regulatório criado pela Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024). A legislação instituiu o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano e criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB).
Em 2026, a ANP regulamentou procedimentos relacionados à emissão e rastreabilidade do CGOB, enquanto o CNPE estabeleceu a meta inicial de redução de emissões do mercado de gás natural por meio do uso de biometano. O ambiente regulatório acrescenta uma referência de demanda para o combustível justamente no momento em que projetos de produção começam a ganhar escala comercial.
Para José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil, o estudo demonstra que o biometano já possui condições de aplicação em diferentes mercados e pode contribuir para acelerar investimentos e políticas públicas. No caso brasileiro, ele avalia que o avanço internacional abre espaço para o país atuar não apenas como fornecedor de energia renovável, mas também como exportador de tecnologia e soluções voltadas à transição energética.
O desafio passa, portanto, pela transformação do potencial de matéria-prima em capacidade instalada, pela expansão da infraestrutura de distribuição e abastecimento e pela consolidação de mercados consumidores. Com a combinação de recursos disponíveis, experiência industrial e um marco regulatório em implementação, o biometano ganha espaço como uma das rotas para reduzir a dependência do diesel no transporte pesado e agregar valor energético aos resíduos produzidos no país.



