Cibersegurança entra na agenda estratégica do setor elétrico

Convergência entre TI e sistemas operacionais, exposição da cadeia de fornecedores e risco de paralisação elevam pressão sobre geradoras e distribuidoras

A digitalização da infraestrutura elétrica está ampliando a exposição de geradoras, distribuidoras e demais agentes do setor a ataques cibernéticos e levando o tema para além dos departamentos de tecnologia. O aumento das conexões entre sistemas corporativos e ambientes operacionais, combinado à dependência de fornecedores e à necessidade de disponibilidade contínua dos serviços, transformou a segurança da informação em uma questão de continuidade operacional e governança corporativa.

Nesse cenário, ataques de ransomware e outras modalidades de intrusão passaram a representar não apenas risco de perda ou indisponibilidade de dados, mas também uma ameaça à operação de ativos críticos. A consequência é uma mudança na forma como o risco cibernético é tratado pelas empresas: investimentos em proteção, planos de resposta, seguros e avaliação de terceiros começam a ser considerados nas decisões estratégicas dos grupos do setor elétrico.

Integração entre TI e OT amplia superfície de ataque

Um dos principais pontos de atenção está na aproximação entre os ambientes de Tecnologia da Informação (TI) e Tecnologia Operacional (OT). Redes elétricas cada vez mais digitalizadas dependem de sensores, sistemas de telemetria, automação, plataformas em nuvem e ferramentas de análise para monitorar e operar ativos em tempo real.

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Essa arquitetura reduz a possibilidade de tratar os sistemas operacionais como ambientes completamente isolados das redes corporativas. Conexões com fornecedores, estações de engenharia, acessos remotos e redes privadas virtuais podem criar caminhos adicionais para uma invasão chegar a ambientes responsáveis pelo controle de equipamentos e processos.

Para Gabriel Rimoli, diretor de Produtos & Alianças da NetSecurity, a atratividade do setor elétrico para grupos de cibercrime está diretamente relacionada à consequência de uma eventual indisponibilidade: “Energia entrou no radar global de cibercrime pela mesma razão que saúde entrou: o tempo de inatividade tem custo humano, não só financeiro. Isso pressiona a decisão de pagar.”

A dificuldade aumenta porque a maturidade de proteção não é homogênea entre os agentes. Grandes empresas passaram a reforçar suas estruturas de defesa após ataques de repercussão internacional contra sistemas elétricos, enquanto empresas menores, cooperativas e prestadores de serviço podem apresentar níveis diferentes de capacidade tecnológica e de segurança.

Cadeia de fornecedores vira ponto crítico

A exposição não se limita às redes diretamente administradas pelas concessionárias. A multiplicidade de empresas envolvidas na operação, manutenção, engenharia e suporte tecnológico cria uma cadeia extensa de acessos que precisa ser identificada e controlada.

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Na avaliação de Rimoli, o risco pode estar justamente nos fornecedores que ficam mais distantes da estrutura principal da companhia: “O elo fraco está no fornecedor de quarto nível, não na geradora. E o atacante sabe disso há anos.”

O problema é agravado quando conexões antigas ou temporárias permanecem ativas sem documentação adequada. Entre os exemplos estão estações de engenharia conectadas diretamente à internet, acessos remotos de fornecedores sem segregação suficiente e ambientes de testes expostos.

Para as empresas do setor elétrico, o desafio passa a ser conhecer não apenas os próprios ativos digitais, mas também os caminhos de acesso existentes ao longo da cadeia de fornecimento.

Compliance deixa de ser suficiente

A evolução do risco também modifica a relação entre segurança cibernética e regulação. Requisitos estabelecidos por órgãos como a ANEEL e o ONS, além das obrigações relacionadas à proteção de dados, formam parte do arcabouço que orienta a atuação dos agentes.

O cumprimento dessas exigências, porém, não elimina a necessidade de mecanismos próprios de prevenção, detecção e resposta. A diferença está na capacidade de uma empresa continuar operando ou recuperar seus sistemas diante de um incidente que ultrapasse os controles previstos.

Rimoli avalia que essa mudança de perspectiva torna a conformidade regulatória apenas o ponto de partida da estratégia de proteção: “Compliance virou linha de base e não o diferencial. Quem está só cumprindo o mínimo regulatório vai descobrir o resto da conta no primeiro incidente real.”

A questão ganha dimensão adicional porque ambientes corporativos e operacionais têm funções distintas. Um ataque contra sistemas administrativos pode comprometer processos financeiros, comerciais e de gestão, enquanto uma intrusão em sistemas operacionais pode afetar diretamente a capacidade de monitoramento ou controle de ativos.

Conselhos passam a discutir continuidade do negócio

A principal mudança apontada no mercado está na governança. O risco cibernético passou a ser tratado pelos níveis mais altos das empresas não apenas como uma questão de tecnologia, mas como parte da gestão de riscos do negócio.

Isso altera o tipo de pergunta que chega à administração. Em vez de avaliar somente indicadores técnicos de segurança, os executivos precisam considerar quanto tempo uma operação pode permanecer indisponível, quais processos podem ser recuperados primeiro, como os contratos serão afetados e quais recursos estarão disponíveis durante uma crise. Essa abordagem também aproxima a cibersegurança de temas como continuidade de negócios, seguros cibernéticos, gestão de terceiros, reputação e impacto financeiro.

Para Rimoli, o papel da alta administração não é dominar ferramentas técnicas, mas conhecer a capacidade de resistência da empresa diante de um ataque e definir previamente responsabilidades e procedimentos para situações críticas: “O CEO de uma geradora não precisa saber configurar um SIEM. Precisa saber quanto tempo a empresa aguenta sem o sistema de despacho, qual é o plano se um ransomware criptografar o ERP na véspera de um leilão, e quem assina o cheque do resgate, se é que vai assinar.”

A mudança leva o risco cibernético para uma esfera semelhante à de outros riscos empresariais capazes de afetar diretamente a continuidade da concessão ou a geração de receita.

Ataques passam a ser tratados como risco operacional

No setor elétrico, a consequência de um incidente pode ultrapassar o prejuízo associado à indisponibilidade de computadores ou informações. Uma interrupção prolongada pode exigir mobilização emergencial de equipes, contratação de serviços especializados, reconstrução de sistemas, medidas de contingência e comunicação com consumidores e autoridades.

A depender do alcance do incidente, também podem surgir impactos contratuais, regulatórios e reputacionais. Por isso, a discussão sobre cibersegurança passa a envolver o mesmo planejamento utilizado para outros eventos capazes de comprometer a operação de uma utility.

A tendência é que os investimentos deixem de ser avaliados exclusivamente pela quantidade de ferramentas adquiridas e passem a considerar métricas como tempo de detecção, capacidade de isolamento, recuperação dos sistemas, redundância operacional e tempo de retomada dos processos críticos.

Para empresas com ativos distribuídos geograficamente e grande quantidade de fornecedores conectados, o desafio é ainda maior. A proteção depende da capacidade de identificar vulnerabilidades em toda a arquitetura digital e estabelecer controles compatíveis com a criticidade de cada ambiente.

Resiliência digital ganha peso na estratégia das utilities

A expansão da digitalização deve manter a pressão sobre as empresas do setor elétrico. Redes inteligentes, automação, monitoramento remoto e integração de dados aumentam a eficiência operacional, mas também exigem uma arquitetura de segurança compatível com a importância dos ativos conectados.

Nesse ambiente, a cibersegurança deixa de ser apenas uma barreira contra invasões e passa a fazer parte da resiliência operacional das utilities. A capacidade de manter funções essenciais, limitar a propagação de um incidente e recuperar rapidamente sistemas críticos tende a ganhar peso nas decisões de investimento e na avaliação de riscos corporativos.

Para as concessionárias, o desafio será equilibrar a expansão da digitalização com controles capazes de preservar a operação. Em um setor no qual a indisponibilidade pode afetar simultaneamente consumidores, empresas e infraestrutura crítica, a segurança digital passa a estar diretamente ligada à capacidade de cumprir o próprio serviço concedido.

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