Gargalo de conexão para data centers no SIN exige expansão na transmissão e BESS, avalia CEO da Quadrante

Pedro Moniz aponta que mais de 26 GW em solicitações de acesso pressionam o sistema elétrico e defende coordenação entre leilões e prazos da infraestrutura digital

De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), os pedidos de conexão à rede básica para novos data centers já somam mais de 26 GW no Brasil. O avanço da Inteligência Artificial e a recente aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) impulsionam essa demanda, mas trazem à tona um desafio de engenharia: a incompatibilidade entre o lead time das obras de transmissão e a velocidade de implantação da infraestrutura digital.

Em entrevista exclusiva ao Cenário Energia, o CEO da Quadrante no Brasil e no Chile, Pedro Moniz, analisa os principais gargalos de rede para a conexão de cargas de grande porte ao Sistema Interligado Nacional (SIN). O executivo aborda a viabilidade técnica de tecnologias de armazenamento por baterias (BESS), os desafios térmicos e hídricos do resfriamento de servidores de alta densidade e a necessidade de reforços estruturais na transmissão para evitar que a infraestrutura elétrica se torne um gargalo para a atração de capital global.

1) Conexão ao SIN e prazo de implantação (Sistema Interligado Nacional)
O REDATA pode acelerar a chegada de novos data centers ao Brasil, mas a implantação dessas cargas pode ocorrer em ritmo diferente da expansão da infraestrutura elétrica. Do ponto de vista da engenharia, quais são hoje os principais gargalos para conectar data centers de grande porte ao SIN e como compatibilizar o prazo de implantação dos empreendimentos com o lead time de transmissão, subtransmissão e distribuição?

PEDRO: Em projetos de grande porte, a conexão elétrica é tratada como uma frente de desenvolvimento tão importante quanto a obra civil, a aquisição dos equipamentos de TI ou a conectividade. A potência de TI está intimamente ligada a potência elétrica disponível, que acaba por ser um fator limitante ao tamanho do empreendimento.

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Se estima que existem mais de 26 GW de pedidos para processo de conexão à rede básica de Data Centers somente no Brasil. O principal gargalo é o sistema de transmissão e sua capacidade de atender essa demanda. Por isso, a análise não pode se limitar à pergunta “há energia disponível na região?”. É preciso entender se existe capacidade efetiva no ponto de conexão, se a rede tem margem para absorver uma carga dessa dimensão, quais reforços serão necessários e em que prazo serão entregues.

A empresa de Pesquisa Energética (EPE), nos Estudos do Plano Decenal de Expansão de Energia 2026 cita que os data centers responderam por aproximadamente 1,5% do consumo mundial de eletricidade em 2024 e que isso impacta em uma necessidade de investimentos em geração e principalmente transmissão. O Ministério de Minas e Energia (MME), em conjunto com a EPE e Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), tem papel essencial para “destravar” os projetos, através dos leilões de transmissão, contemplando reforços e ampliações no sistema elétrico para possibilitar a conexão dos Data Centers.

Com isso, é necessário um investimento a nível nacional para possibilitar que o sistema tenha maior disponibilidade de conexão, ou criar políticas de incentivo para que o empreendedor faça o investimento no sistema elétrico e não tenha que aguardar, às vezes, por anos para concretizar seu empreendimento.

2) Eficiência energética e consumo de água
A expansão de cargas de IA aumenta a densidade térmica dos data centers e coloca pressão sobre os sistemas de refrigeração. Quais tecnologias de resfriamento apresentam hoje maior potencial para reduzir o PUE sem elevar o consumo hídrico, especialmente em regiões brasileiras sujeitas a estresse hídrico? Há um nível de PUE e WUE que já possa ser considerado referência para novos projetos?

PEDRO: Por elevar a densidade térmica dos data centers, a inteligência artificial mudou a forma como os sistemas de refrigeração são projetados. Em cargas de maior densidade, especialmente com uso intensivo de GPUs, soluções baseadas exclusivamente em ar tendem a se tornar menos eficientes ou demandar uma infraestrutura muito maior.

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Por isso, tecnologias como refrigeração líquida direta ao chip, sistemas de circuito fechado e soluções híbridas vêm ganhando espaço. Elas permitem lidar melhor com cargas térmicas mais elevadas e, dependendo da arquitetura adotada, podem reduzir tanto o consumo de energia quanto a necessidade de água.

O cuidado é não olhar apenas para o PUE. Um empreendimento pode ser eficiente do ponto de vista energético, mas utilizar um volume de água que não faz sentido para a realidade da região. Em áreas com estresse hídrico, essa variável precisa ter o mesmo peso que a disponibilidade elétrica.

Não existe um indicador único que sirva para todos os projetos. PUE e WUE dependem do clima, da tecnologia de refrigeração, da densidade da carga e da disponibilidade de água local. O mais importante é que os novos projetos sejam desenhados a partir dessas condições, combinando eficiência energética, menor dependência de água potável e possibilidade de expansão futura.

A tendência é que a refrigeração deixe de ser tratada apenas como um sistema de apoio e passe a ser uma decisão central de engenharia, porque ela afeta diretamente consumo de energia, uso de água, custo operacional e viabilidade da localização.

3) BESS, UPS e sistemas de backup
Data centers exigem níveis elevados de disponibilidade e sistemas de backup capazes de responder rapidamente a falhas no fornecimento. Qual é hoje o papel dos BESS e das tecnologias de UPS nessa arquitetura? Em quais condições baterias podem complementar ou substituir geradores a diesel, considerando autonomia, tempo de resposta, segurança operacional e custo?

PEDRO: Os sistemas de UPS seguem sendo indispensáveis porque são responsáveis pela resposta imediata a falhas ou distúrbios no fornecimento. Eles garantem a continuidade da operação nos primeiros instantes de uma interrupção e protegem equipamentos sensíveis contra oscilações de tensão e qualidade de energia.

Os BESS ampliam essa arquitetura. Além da resposta rápida, podem armazenar energia, apoiar a gestão de picos de demanda, melhorar a flexibilidade da operação e, em alguns casos, reduzir a exposição a restrições da rede. Em um cenário de maior participação de fontes renováveis, o armazenamento também passa a ter um papel importante para compatibilizar geração variável e demanda contínua.

Mas baterias e geradores não são soluções equivalentes em todos os casos. Para interrupções curtas, transição entre fontes e suporte à qualidade de energia, o BESS pode ter uma função muito relevante. Já para longas autonomias ou situações extremas de contingência, a substituição integral da geração de backup depende de uma análise detalhada de custo, espaço, segurança, autonomia e nível de disponibilidade exigido pelo cliente.

A tendência é a adoção de arquiteturas híbridas, combinando UPS, baterias, geração de longa duração e sistemas de gestão de energia. A solução ideal depende da confiabilidade da rede local e do nível de criticidade da operação.

A Quadrante acompanha projetos ligados a BESS justamente porque o armazenamento deixa de ser apenas um recurso de contingência. Ele passa a ser uma ferramenta para aumentar a resiliência, dar mais flexibilidade ao sistema elétrico e aproveitar melhor a energia renovável disponível.

4) Engenharia, equipamentos e cadeia de suprimentos
Os data centers voltados a cargas de IA exigem maior densidade elétrica e térmica, além de requisitos específicos de infraestrutura. Quais são hoje os principais gargalos de engenharia, equipamentos e cadeia de suprimentos para acelerar a implantação desses empreendimentos no Brasil e no Chile? Há componentes ou sistemas cujo prazo de fornecimento já seja crítico?

PEDRO: Os desafios não estão apenas nos servidores e nos chips. Os data centers voltados a cargas de inteligência artificial demandam uma infraestrutura elétrica e térmica muito mais robusta: transformadores, subestações, equipamentos de média e alta tensão, UPS, sistemas de armazenamento, refrigeração especializada, automação e controle.

O principal risco é que alguns desses itens se tornem críticos para o cronograma. Equipamentos como transformadores, painéis elétricos de maior capacidade, sistemas de UPS e soluções de refrigeração líquida podem ter prazos de fornecimento longos, principalmente quando exigem especificações customizadas ou dependem de importação.

No Brasil e no Chile, também entram na equação fatores logísticos, disponibilidade de fornecedores, homologação de equipamentos, mão de obra especializada, legislação e a necessidade de adaptar soluções globais às condições locais de rede e operação.

Por isso, o ponto mais importante é antecipar as decisões de engenharia. Em projetos dessa complexidade, a definição da arquitetura elétrica e térmica precisa acontecer cedo. Quanto mais tarde essas escolhas são feitas, maior a chance de equipamentos críticos passarem a determinar o prazo da implantação.

O desafio não é apenas acelerar a construção. É reduzir incertezas antes de iniciar a obra, para evitar revisões, retrabalho e decisões de compra tomadas sob pressão.

5) Localização: carga ou geração?
Do ponto de vista energético e de infraestrutura, quais critérios deveriam orientar a localização dos novos data centers no Brasil? É mais eficiente aproximar os empreendimentos dos grandes centros de consumo digital ou das regiões com maior disponibilidade de geração renovável? Quais são os principais trade-offs entre disponibilidade de energia, transmissão, latência, água e infraestrutura?

PEDRO: A disponibilidade de energia renovável é um fator importante, mas, para a maioria dos data centers, a localização deve priorizar a proximidade com os principais centros de consumo digital. Data centers existem para processar, armazenar e distribuir dados, e a distância em relação aos usuários, às empresas e aos pontos de conectividade impacta diretamente latência, qualidade do serviço e resiliência da operação.

O caminho mais eficiente, portanto, não é escolher entre carga ou geração, mas garantir que a infraestrutura elétrica conecte bem esses dois pontos. O Brasil tem uma grande expansão de energia solar e eólica, especialmente no Nordeste, enquanto os principais centros de consumo digital estão concentrados no Sudeste. Para que essa energia renovável possa sustentar a expansão dos data centers em regiões como São Paulo, é fundamental ampliar e reforçar a rede de transmissão que leva essa geração até os centros de carga.

A transmissão é o elo que permite aproveitar a vocação renovável de determinadas regiões sem deslocar necessariamente toda a infraestrutura digital para longe de onde os dados são utilizados. Ao chegar aos grandes centros, essa energia precisa encontrar também redes de subtransmissão e distribuição preparadas, subestações adequadas e capacidade de conexão compatível com cargas cada vez maiores.

Isso não significa que regiões com excedente de geração não possam receber data centers. Elas podem ser adequadas para determinados perfis de operação, especialmente cargas menos sensíveis à latência ou projetos desenhados para aproveitar energia que enfrenta restrições de escoamento. Mas, para o mercado em geral, a prioridade deve ser aproximar os data centers dos usuários e investir na infraestrutura de transmissão e rede necessária para levar até eles energia renovável, confiável e competitiva.

6) Qualidade de energia e estabilidade da rede
Data centers são cargas altamente sensíveis a interrupções, variações de tensão e outros distúrbios elétricos. Quais requisitos de qualidade e confiabilidade da rede precisam ser considerados desde a fase de projeto e conexão? A expansão dessas cargas pode exigir investimentos específicos em subestações, sistemas de proteção ou reforços de rede?

PEDRO: Data centers são infraestruturas extremamente sensíveis à qualidade da energia. Não se trata apenas de evitar apagões. Afundamentos de tensão, variações de frequência, harmônicos, falhas de proteção e interrupções de curta duração podem afetar equipamentos e comprometer operações críticas.

Por isso, desde a fase de projeto, é necessário avaliar a qualidade da energia no ponto de conexão e definir uma arquitetura elétrica compatível com o nível de disponibilidade exigido. Isso envolve redundância de alimentadores, seletividade de proteção, sistemas de aterramento, coordenação entre UPS e geração de backup, além de automação e monitoramento da operação.

Dependendo da dimensão do empreendimento e das características da rede local, a conexão pode exigir subestação dedicada, novos alimentadores, reforços de distribuição ou transmissão, equipamentos de proteção e controle e estudos específicos de curto-circuito, estabilidade e qualidade de energia.

A concentração de vários data centers em uma mesma região também demanda atenção. Quando grandes cargas se conectam a uma rede que não foi originalmente planejada para esse perfil de consumo, é necessário avaliar não só a capacidade disponível, mas o comportamento elétrico do sistema como um todo.

“A confiabilidade precisa ser incorporada ao projeto desde o início. Ela não pode ser tratada apenas como uma solução de backup adicionada no final da obra”.

7) REDATA e capacidade de infraestrutura
O REDATA cria um incentivo econômico para a implantação de data centers no país. Na avaliação da Quadrante, a infraestrutura elétrica brasileira está preparada para absorver o aumento de demanda que pode resultar desse estímulo? Quais investimentos em geração, transmissão, distribuição e armazenamento seriam necessários para evitar que a disponibilidade de energia se torne um limitador para novos projetos?

PEDRO: O REDATA pode ajudar a acelerar investimentos em infraestrutura digital no Brasil, mas o principal desafio será garantir que a expansão dos data centers seja acompanhada pela expansão da infraestrutura elétrica.
O país tem uma vantagem relevante: uma matriz com participação expressiva de fontes renováveis e forte potencial de geração solar e eólica. Mas isso não significa que a energia esteja disponível, com confiabilidade, em todos os pontos onde os empreendimentos pretendem se instalar.

Hoje, há regiões com grande oferta de energia renovável e, ao mesmo tempo, restrições para escoamento dessa geração. Em outras, há concentração de demanda digital, mas a expansão da rede pode não acompanhar a velocidade desejada pelos projetos. A solução precisa considerar cada território: disponibilidade de geração, capacidade de transmissão, condições da distribuição, conectividade e viabilidade de implantação.

Será necessário investir em subestações, linhas de transmissão, reforços de distribuição, sistemas de proteção e controle e, em determinados casos, armazenamento de energia. O BESS pode ter um papel importante ao dar mais flexibilidade à rede e ajudar a aproveitar melhor a geração renovável nos momentos em que há restrições de escoamento.

A Quadrante atua em projetos de subestações, linhas de transmissão e soluções de armazenamento, e a leitura é que o desafio do Brasil não é falta de potencial energético. O desafio é coordenar geração, rede e consumo de forma mais eficiente.

O REDATA pode acelerar a demanda, mas a competitividade do país dependerá da capacidade de fazer a infraestrutura física acompanhar esse movimento. Para atrair e manter investimentos, será fundamental entregar energia confiável, conexão no prazo e condições operacionais compatíveis com a escala que os novos data centers exigem.

“Pela experiência que temos em outros países, o Brasil reúne condições muito competitivas para liderar essa agenda: energia renovável, escala de mercado e demanda digital. O país tem tudo para ser um polo de infraestrutura digital do futuro; o passo decisivo é fazer a expansão da rede acompanhar a velocidade dos investimentos”.

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