Gás natural é alternativa para driblar gargalo do SIN e antecipar data centers no Brasil

Eneva vê geração térmica como solução transitória para grandes cargas enquanto conexão ao SIN não avança e aposta em maior oferta de gás para reduzir custos

A geração a gás natural pode funcionar como alternativa de transição para viabilizar a entrada em operação de grandes data centers no Brasil enquanto os projetos aguardam conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN). A avaliação foi apresentada pelo gerente geral de Novos Negócios da Eneva, Rodrigo Calado, durante fórum promovido pela FGV Energia, no Rio de Janeiro.

A proposta ganha relevância diante do crescimento da demanda por infraestrutura para inteligência artificial e processamento de dados. Projetos dessa natureza podem exigir centenas de megawatts e dependem de disponibilidade firme de energia, enquanto a expansão da transmissão e os processos de conexão ao SIN demandam prazos incompatíveis, em alguns casos, com os cronogramas de implantação definidos pelos investidores.

Geração térmica como solução de implantação

Para empreendimentos com demanda na ordem de 200 MW, a geração local a gás natural poderia antecipar o início das operações enquanto a infraestrutura de transmissão necessária é construída.

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Nesse arranjo, a geração térmica funcionaria inicialmente como fonte principal de suprimento. Com a conclusão da conexão ao SIN, a usina a gás poderia assumir uma função complementar, contribuindo para compensar a variabilidade da geração renovável e operar em conjunto com sistemas de armazenamento por baterias e geração de emergência a diesel.

A estratégia permitiria separar o cronograma de implantação do data center daquele necessário para a expansão da rede elétrica. Na prática, o empreendimento poderia começar a operar antes da disponibilidade definitiva da conexão ao sistema de transmissão, desde que existam condições técnicas e regulatórias para a geração local.

Demanda de data centers pressiona infraestrutura

O avanço da inteligência artificial elevou a escala e a velocidade de implantação dos centros de processamento de dados. Diferentemente de cargas convencionais, esses empreendimentos podem concentrar centenas de megawatts em uma única instalação e exigir elevada disponibilidade de energia.

O desafio não se restringe à geração. A conexão depende de capacidade de transmissão, subestações, equipamentos e infraestrutura de telecomunicações compatíveis com a escala dos projetos. Nesse cenário, a disponibilidade de geração próxima à carga pode reduzir a dependência imediata da expansão da rede e oferecer maior previsibilidade ao cronograma de implantação.

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Gás pode ganhar espaço na complementaridade com renováveis

A utilização do gás não seria necessariamente limitada à fase anterior à conexão com o SIN. A avaliação apresentada pela Eneva considera que as térmicas podem permanecer na matriz de suprimento dos data centers como recurso de flexibilidade.

Com a ampliação da participação de fontes eólica e solar, a geração térmica despachável pode ser acionada em períodos de menor disponibilidade renovável. Baterias também podem cumprir parte dessa função, mas a combinação entre armazenamento e geração firme amplia as alternativas de atendimento a cargas de alta disponibilidade.

Para os data centers, essa característica é particularmente relevante porque interrupções no fornecimento podem comprometer operações de processamento e serviços digitais de elevada criticidade.

Oferta de gás é fator para competitividade

A disponibilidade e o preço da molécula aparecem como elementos determinantes para a viabilidade do modelo. Segundo a avaliação apresentada no evento, o aumento da oferta de gás natural, associado a iniciativas de abertura e desconcentração do mercado, pode melhorar as condições para contratos específicos destinados a grandes consumidores.

Entre os mecanismos citados está o programa Gas Release, concebido para ampliar a oferta de gás e estimular maior competição no mercado. Uma oferta mais diversificada pode permitir contratos de suprimento com características ajustadas ao perfil de consumo dos data centers, reduzindo um dos principais componentes do custo de geração térmica.

Turbinas são outro gargalo

A expansão da geração a gás, contudo, enfrenta uma restrição na cadeia global de equipamentos. A disponibilidade de turbinas a gás é limitada pela elevada demanda internacional e pela capacidade restrita de fabricação e entrega.

O gargalo pode afetar justamente os projetos que dependem de implantação acelerada, criando uma nova variável no planejamento dos data centers. Mesmo com disponibilidade de gás e área para instalação, a falta de equipamentos pode comprometer o cronograma de entrada em operação.

Assim, a estratégia exige coordenação entre o desenvolvimento da carga, contratação do combustível, aquisição dos equipamentos de geração e expansão da infraestrutura de transmissão.

Investimentos chegam a US$ 10 bilhões

A escala financeira dos projetos aumenta a pressão por previsibilidade regulatória. De acordo com Calado, as conversas com grandes investidores do setor envolvem empreendimentos que podem alcançar investimentos médios de US$ 10 bilhões.

Na avaliação apresentada pela Eneva, a primeira preocupação desses investidores é assegurar o fornecimento firme de gás. Na sequência, aparecem as garantias relacionadas à segurança jurídica para o tratamento e armazenamento de dados no Brasil e, por fim, o preço da molécula.

A ordem das prioridades evidencia que a competitividade energética é apenas um dos fatores considerados na escolha de localização dos data centers. Segurança de suprimento, ambiente regulatório e infraestrutura também influenciam diretamente as decisões de investimento.

Gás entra no debate sobre expansão dos data centers

A possibilidade de utilizar geração a gás como solução de implantação coloca o combustível no centro de uma discussão que tradicionalmente esteve concentrada em transmissão e fontes renováveis.

Para o Brasil, a alternativa pode reduzir uma das barreiras à atração de investimentos em infraestrutura digital: o intervalo entre a decisão de construir um data center e a disponibilidade de conexão elétrica em escala compatível com sua demanda.

O modelo, entretanto, dependerá da evolução simultânea da oferta de gás, da infraestrutura de transmissão, da disponibilidade de equipamentos e das regras para conexão de grandes cargas. A combinação desses fatores determinará se a geração térmica poderá efetivamente funcionar como ponte entre a implantação acelerada dos data centers e a expansão estrutural do sistema elétrico.

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