Operação autorizada por Ibama, ANA e ONS segue até 30 de novembro e busca preservar navegabilidade, fauna aquática e previsibilidade para o planejamento do SIN
A Norte Energia iniciou no domingo (16) a redução gradual da vazão destinada ao reservatório intermediário da Usina Hidrelétrica Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. A medida, adotada de forma excepcional para enfrentar possíveis efeitos do fenômeno El Niño na região Norte, reduzirá a vazão de 300 m³/s para 100 m³/s até 30 de novembro.
A operação está prevista na Agenda Estratégica Eletroenergética 2026, aprovada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), e atende a ofício do Ministério de Minas e Energia (MME) encaminhado à Norte Energia. A medida foi autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A redução não altera a vazão destinada à Volta Grande do Xingu, segundo a Norte Energia.
Operação busca preservar condições do Xingu
A mudança temporária no regime de vazão tem objetivos que combinam aspectos eletroenergéticos, ambientais e sociais. No sistema elétrico, a operação busca ampliar a previsibilidade disponível ao ONS para o planejamento e a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) durante o período de vigência da medida.
No trecho associado ao reservatório principal, a alteração também pretende contribuir para a manutenção das condições de navegabilidade. A medida é considerada relevante para o deslocamento de comunidades indígenas e ribeirinhas que utilizam o rio como via de transporte.
A operação também está relacionada ao funcionamento do Sistema de Transposição de Peixes de Belo Monte, utilizado por espécies migratórias durante o período reprodutivo. A manutenção das condições necessárias ao deslocamento da ictiofauna busca favorecer o ciclo de piracema.
Monitoramento será mantido até novembro
Durante a vigência da operação excepcional, a Norte Energia deverá acompanhar diferentes indicadores ambientais e operacionais. Entre os parâmetros monitorados estão a qualidade da água, as condições dos igarapés, a navegação e a movimentação dos peixes.
Os resultados serão repassados aos órgãos reguladores responsáveis pelo acompanhamento da operação. O monitoramento permitirá avaliar os efeitos da redução de vazão sobre as condições ambientais e de uso do rio ao longo do período.
A medida foi estabelecida com prazo definido até 30 de novembro, o que delimita o caráter temporário da alteração no regime operacional.
Belo Monte tem papel na segurança do SIN
A hidrelétrica possui capacidade instalada de 11.233,1 MW e está entre as maiores usinas do mundo. Desde o início de sua operação comercial, em maio de 2016, até o primeiro semestre de 2026, Belo Monte acumulou geração de 264,9 milhões de MWh, conforme dados apresentados pela Norte Energia.
A empresa estima que esse volume seria suficiente para atender à demanda elétrica brasileira por cerca de cinco meses, considerando o consumo nacional no período de referência. A usina responde, em média, por aproximadamente 5% da demanda de eletricidade do país. Sua relevância para o SIN está associada também à capacidade de modular a geração de acordo com as condições hidrológicas e operativas do sistema.
A Norte Energia classifica Belo Monte como uma espécie de “bateria natural” do sistema, em referência ao papel da hidrelétrica na disponibilidade de energia em períodos de maior demanda e na composição da reserva eletroenergética nacional.
El Niño adiciona incerteza ao planejamento hidrológico
A adoção da medida ocorre em um cenário no qual o comportamento climático pode alterar as condições hidrológicas da região Norte. O El Niño está associado a mudanças nos padrões de precipitação e temperatura em diferentes regiões do país, o que pode afetar a disponibilidade hídrica e a operação de empreendimentos hidrelétricos.
Para o planejamento do SIN, alterações nas condições de vazão de grandes usinas precisam ser consideradas em conjunto com as projeções de carga, disponibilidade das demais fontes e condições dos reservatórios. No caso de Belo Monte, a operação excepcional busca antecipar-se aos possíveis efeitos sobre o regime hídrico e estabelecer maior previsibilidade para a gestão da usina durante o período crítico.
A redução da vazão do reservatório intermediário, portanto, combina uma medida temporária de gestão hídrica com objetivos de segurança operacional, navegação e preservação ambiental, mantendo o acompanhamento dos órgãos responsáveis até o encerramento previsto para novembro.



