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Crise no Oriente Médio amplia riscos para cadeias globais e evidencia desafios para expansão do hidrogênio de baixa emissão

Crise no Oriente Médio amplia riscos para cadeias globais e evidencia desafios para expansão do hidrogênio de baixa emissão

Relatório da IEA mostra impacto sobre fertilizantes e destaca que falta de demanda contratada e insegurança regulatória freiam projetos de hidrogênio verde no mundo

A escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio voltou a colocar em evidência a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento ligadas ao hidrogênio e seus derivados. Em um momento de crescente preocupação com a segurança energética e alimentar, o mais recente Relatório Global sobre Hidrogênio, da Agência Internacional de Energia (IEA), aponta que os conflitos na região estão pressionando mercados estratégicos como os de amônia, ureia e metanol, ao mesmo tempo em que expõem as dificuldades estruturais para acelerar a adoção do hidrogênio de baixa emissão em escala comercial.

O diagnóstico reforça que, embora governos e empresas tenham ampliado suas ambições para descarbonizar a indústria pesada e diversificar suas matrizes energéticas, o desenvolvimento do setor continua condicionado a fatores como previsibilidade regulatória, contratos de longo prazo e acesso a financiamento.

Oriente Médio segue peça-chave para a segurança energética global

Responsável por aproximadamente um sexto da produção mundial de hidrogênio e reconhecido como o principal polo exportador de amônia, ureia e metanol, o Oriente Médio ocupa posição estratégica nas cadeias industriais internacionais. As interrupções logísticas provocadas pelo atual cenário geopolítico alteraram rotas comerciais e ampliaram a volatilidade dos preços dessas commodities, afetando setores como refino, indústria química e produção de fertilizantes.

O relatório destaca que o encarecimento do gás natural, somado às restrições logísticas impostas pelo conflito, provocou forte aperto na oferta global. Como reflexo desse cenário, o preço internacional da ureia dobrou entre janeiro e maio de 2026, pressionando principalmente países cuja produção agrícola depende da importação de fertilizantes.

Hidrogênio de baixa emissão ainda representa parcela reduzida do mercado

Apesar do aumento do interesse político pelo hidrogênio verde e outras rotas de baixa emissão como instrumentos para fortalecer a segurança energética e reduzir emissões de carbono, a participação dessa tecnologia permanece limitada.

Segundo a IEA, a demanda global por hidrogênio ultrapassou 100 milhões de toneladas em 2025. Entretanto, menos de 1 milhão de toneladas foi produzido por tecnologias de baixa emissão, volume equivalente a menos de 1% do mercado mundial, participação que deverá superar essa marca apenas ao longo de 2026.

Ao analisar os efeitos da crise sobre o comércio internacional e a necessidade de acelerar políticas públicas voltadas à transição energética, o diretor executivo da IEA, Fatih Birol, afirmou: “A crise atual destacou o quanto as economias ao redor do mundo dependem do comércio de produtos à base de hidrogênio – de fertilizantes a combustíveis e matérias-primas industriais – e o papel significativo do Oriente Médio nessas cadeias de suprimentos. Os países estão buscando maneiras de tornar seus sistemas energéticos mais resilientes e diversificados. O hidrogênio de baixa emissão pode desempenhar um papel importante nesses esforços ao longo do tempo, mas um apoio político mais robusto e uma implementação muito mais rápida serão necessários para que ele possa dar uma contribuição significativa em larga escala.”

Ausência de contratos reduz investimentos e adia novos empreendimentos

O estudo identifica que o principal obstáculo para a expansão do hidrogênio de baixa emissão continua sendo a dificuldade de transformar anúncios em projetos efetivamente financiados.

Mesmo com o crescimento das metas governamentais, o volume de contratos firmes de compra de longo prazo (offtake agreements) permaneceu praticamente estagnado em 2025. Apenas cerca de 20% do volume anunciado possui compromissos comerciais vinculantes, limitando a segurança necessária para decisões de investimento.

Sem garantias de demanda futura e diante do custo ainda elevado em relação aos combustíveis fósseis convencionais, diversos empreendedores têm optado por adiar ou cancelar iniciativas.

Como consequência, o pipeline global de projetos previstos para 2030 sofreu redução de aproximadamente 25%, recuando para 27 milhões de toneladas. Também houve deterioração no conjunto de empreendimentos mais maduros: aqueles que alcançaram a Decisão Final de Investimento (FID) ou estão em estágio avançado passaram de cerca de 10 milhões para pouco mais de 6 milhões de toneladas na comparação com o levantamento anterior.

China amplia liderança enquanto outras regiões enfrentam incertezas

O relatório evidencia uma forte concentração geográfica dos investimentos em eletrolisadores, tecnologia considerada essencial para a produção de hidrogênio verde.

A China respondeu por aproximadamente 75% das novas instalações registradas em 2025, elevando a capacidade mundial instalada para cerca de 4 GW. Apesar da liderança consolidada, o país apresentou sua primeira retração nas decisões de investimento para novos projetos de eletrólise, movimento que a própria agência avalia como temporário diante dos incentivos anunciados pelo governo chinês no fim do ano passado.

Na Europa, o avanço continua sustentado pelas metas de descarbonização e pelos mandatos regulatórios voltados às refinarias, embora atrasos na implementação definitiva das regras de energia renovável ainda comprometam o ritmo dos investimentos. Situação semelhante é observada na América do Norte, Índia e Japão, onde a definição de subsídios fiscais e marcos regulatórios permanece sendo um dos principais fatores de espera por parte dos investidores.

África reúne potencial competitivo, mas esbarra na falta de capital

Entre as regiões analisadas, a África aparece como uma das maiores oportunidades de desenvolvimento da indústria global do hidrogênio verde. Com elevado potencial para geração solar e eólica, o continente reúne condições naturais capazes de viabilizar uma produção competitiva da molécula. Ainda assim, sua participação permanece incipiente: atualmente, produz cerca de 6 mil toneladas de hidrogênio de baixa emissão e nenhum dos 34 projetos previstos para entrar em operação até 2030 alcançou a fase de Decisão Final de Investimento.

Para a Agência Internacional de Energia, o fortalecimento dessa cadeia produtiva poderia impulsionar a industrialização local, reduzir a dependência externa de fertilizantes e ampliar a segurança alimentar regional. Contudo, o avanço desses projetos dependerá diretamente da capacidade de atrair investimentos internacionais capazes de compensar o elevado custo de financiamento enfrentado pelos países africanos.

O relatório conclui que, embora a atual crise geopolítica tenha reforçado a importância estratégica do hidrogênio de baixa emissão para a diversificação energética mundial, a consolidação desse mercado continuará condicionada à criação de políticas públicas mais robustas, mecanismos que garantam demanda de longo prazo e maior segurança regulatória para investidores.