Por Eric Fernando Boeck Daza, Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas
A indústria mundial está decidindo onde se instalará nas próximas décadas. O Brasil pode terminar essa negociação apenas com exceções tarifárias ou com novas plantas industriais em operação.
Durante o século do petróleo, a energia viajava até a indústria. Bastava um navio. As fábricas ficavam onde sempre estiveram, perto do capital e do consumo, e a molécula chegava de qualquer lugar. A energia renovável não se move com a mesma facilidade: vento, sol e água são consumidos onde estão ou saem como parte de produtos. Quando a fonte deixa de viajar, quem passa a viajar é a fábrica. Essa inversão logística explica mais do movimento industrial dos últimos anos do que qualquer comunicado de cúpula.
Esse movimento está em curso, e as três maiores economias já estão bem posicionadas, porém de formas distintas. A China dominou a manufatura: já refina, por exemplo, cerca de 90% das terras raras do mundo e concentra a maior parte da produção de baterias e painéis. Os Estados Unidos ancoraram sua estratégia no capital: transformaram o acesso ao seu mercado em compromissos de investimento, e o acordo com o Japão, de 550 bilhões de dólares em troca de uma alíquota menor, demonstrou o preço da entrada. A Europa ficou com a demanda: o mecanismo de carbono na fronteira, em regime definitivo desde janeiro, criou o primeiro mercado de grande escala que paga mais pelo produto limpo, e uma preferência garantida por regulação vale tanto quanto um subsídio. Manufatura, capital e demanda já têm donos.
A quarta posição é a energia, e ainda está em disputa. As outras três dependem dela: a manufatura chinesa, a reindustrialização americana e o mercado limpo europeu precisam de energia renovável firme, em volume e a um custo que nenhum dos três consegue oferecer internamente. Na União Europeia, a energia para a indústria eletrointensiva custa, em média, mais que o dobro da americana, e é essa conta, mais do que qualquer meta climática, que está expulsando a produção do continente. Ao mesmo tempo, a energia americana e a chinesa, embora tenham preços mais competitivos, ainda não são tão renováveis quanto a brasileira. Quem ocupar essa posição não vende um insumo. Vende o critério de localização da indústria que os outros três blocos já contrataram por lei.
Mas a posição não se ocupa com geografia. Ocupa-se com contrato. Uma planta industrial é uma aposta de trinta anos, e ninguém aposta por esse prazo com base em potencial teórico ou tarifas temporárias. Os projetos de baixa emissão que saíram do papel nos últimos anos, na Suécia, no Golfo e na Ásia, têm formatos e donos diferentes e uma única coisa em comum: o pacote completo de contratos fechados e condições reais de produção. O Brasil pode ter tudo isso e oferecer ainda mais do que essas economias: matriz elétrica mais de 90% renovável, margem de expansão que nenhuma economia avançada alcança, a maior base de bioenergia do mundo, minerais da transição, base industrial instalada e um mercado interno que muitos países jamais terão. Falta transformar tudo isso em oportunidade comercial. A energia, aqui, é tratada como assunto doméstico, numa disputa permanente sobre encargos e rateio de custos, e a vantagem que aparece na estatística de geração morre antes do portão da fábrica, onde o preço entregue deixa de ser competitivo. Enquanto essa vantagem não estiver escrita num contrato de vinte anos que uma planta nova possa assinar, ela não entrará em nenhuma decisão de investimento.
A sobretaxa americana de 25%, em vigor desde 22 de julho, é um lembrete da posição que o Brasil ocupa hoje aos olhos de quem está repartindo as outras. A lista de isenções poupou café, carne, petróleo e ferro-gusa — o que a economia americana precisa comprar — e taxou o que concorre com a produção do país. É o tratamento que se dá a um fornecedor de insumos, e o verdadeiro incômodo deveria ser esse, não a alíquota. Contestar a medida é correto e já foi feito. Só que nenhum contencioso muda a categoria em que o país foi colocado. Isso se muda com oferta qualificada e competitiva.
É isso que a rodada de negociação em curso permite, se a régua mudar. Um país que quer a quarta posição não se senta à mesa pedindo a devolução do mercado de junho. Senta-se oferecendo o que os três blocos procuram e não encontram: cadeias escolhidas, terreno, energia contratada e financiamento, em troca de capital, tecnologia e contratos de compra. O Brasil já tem os instrumentos para montar essa oferta, dispersos entre o crédito aprovado, a demanda criada pela própria regulação e a contratação de energia que pode ser estruturada para grandes cargas novas. Precisamos cuidar do curto prazo, sem dúvida, mas também planejar para o longo: exceção tarifária recupera a exportação deste ano; planta contratada define a produção de 2040.
O século do petróleo deu renda a quem tinha poços e deixou a indústria onde sempre esteve. O da energia renovável inverteu o movimento, e a indústria saiu à procura da fonte. Três posições foram tomadas em uma década por quem entendeu cedo o que estava sendo repartido. A quarta exige duas coisas: energia limpa em escala, que o Brasil tem de sobra, e um ambiente que convença os investidores de que somos capazes de receber bilhões em investimentos. A primeira é herança. A segunda é escolha — e é a única das duas que ainda está em aberto.



