Think tank avalia que volume recorde de empreendimentos cadastrados na EPE não reflete a capacidade real de implantação no curto prazo e defende que hidrelétricas, resposta da demanda e sinais econômicos complementem os sistemas de armazenamento
O cadastramento de 296,8 GW em projetos para o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade voltado exclusivamente a sistemas de armazenamento por baterias (BESS) consolidou o interesse do mercado por uma das tecnologias consideradas estratégicas para a transição energética brasileira. No entanto, o elevado número de empreendimentos inscritos não representa, necessariamente, a capacidade efetiva de implantação desses ativos no país.
A avaliação é do Instituto E+ Transição Energética, que alerta para o risco de uma percepção excessivamente otimista sobre a maturidade do mercado brasileiro de armazenamento. Para a entidade, embora o certame represente um marco regulatório importante para ampliar a flexibilidade operacional do Sistema Interligado Nacional (SIN) e facilitar a inserção crescente de fontes renováveis intermitentes, a maior parte dos projetos enfrenta obstáculos técnicos, econômicos e industriais que devem limitar sua viabilidade.
Segundo o think tank, o volume de inscrições divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) evidencia o interesse dos investidores, mas também deverá passar por um processo rigoroso de seleção durante as etapas de habilitação técnica e competição comercial, reduzindo significativamente a quantidade de projetos que chegarão à fase de contratação.
Cadeia global ainda limita expansão dos sistemas BESS
Na avaliação do Instituto E+, a expansão dos sistemas de armazenamento depende de uma cadeia global que ainda enfrenta restrições relevantes. Entre os principais desafios estão a oferta limitada de baterias, a concentração da produção em poucos mercados internacionais, o custo elevado dos equipamentos e os investimentos necessários para integração das plantas ao sistema elétrico.
Ao analisar o cenário, a diretora-executiva do Instituto E+, Rosana Santos, afirma que o número de projetos cadastrados não deve ser interpretado como sinônimo de viabilidade: “Considerando os custos e a restrita oferta internacional de baterias, a imensa maioria dos cadastrados não é técnica nem comercialmente viável.”
Para a entidade, a diferença entre o volume registrado na fase de cadastramento e o número de empreendimentos efetivamente contratados tende a ser expressiva, refletindo as exigências regulatórias, financeiras e operacionais que caracterizam projetos dessa natureza.
Flexibilidade do sistema exige mais do que baterias
Embora reconheça o papel estratégico dos sistemas BESS para aumentar a segurança operativa do setor elétrico, o Instituto E+ defende que o planejamento da expansão não seja concentrado exclusivamente nessa tecnologia. A entidade argumenta que o país dispõe de um conjunto de instrumentos capazes de ampliar a flexibilidade do SIN com diferentes níveis de custo, prazo de implantação e benefícios sistêmicos.
Entre as alternativas apontadas estão o fortalecimento dos mecanismos de resposta da demanda, permitindo maior participação dos consumidores na gestão do sistema; a modernização dos serviços ancilares; o aperfeiçoamento da sinalização locacional e horária dos preços da energia; e uma operação mais eficiente das usinas hidrelétricas existentes, aproveitando sua capacidade de modulação da geração.
O instituto também destaca a necessidade de maior integração entre o planejamento da expansão elétrica e a operação em tempo real do sistema, reduzindo ineficiências e aumentando a capacidade de resposta diante do crescimento das fontes renováveis variáveis.
Ao tratar da estratégia para garantir potência e flexibilidade ao sistema, Rosana Santos reforça que o armazenamento deve integrar um conjunto mais amplo de soluções: “O país conta com um cardápio de opções para ampliar a flexibilidade. Evidentemente que as baterias devem fazer parte desse conjunto, mas não podem ser a única alternativa como a quantidade de projetos inscritos pode nos levar a crer.”
Modelo regulatório recebe avaliação positiva
Apesar das ressalvas sobre o volume de projetos cadastrados, o Instituto E+ considera que o desenho regulatório do primeiro leilão específico para baterias representa um avanço para o setor elétrico brasileiro. Na visão da entidade, os contratos de longo prazo oferecem maior previsibilidade para investidores, favorecendo a atração de capital privado em um segmento ainda intensivo em investimentos.
Outro aspecto considerado positivo é a adoção de mecanismos de remuneração associados aos benefícios que os empreendimentos proporcionam ao sistema elétrico, além da diferenciação entre produtos com exigência de conteúdo local e aqueles sujeitos à concorrência internacional.
Segundo o instituto, essa estrutura busca equilibrar o estímulo ao desenvolvimento da indústria nacional de armazenamento com a manutenção da competitividade econômica dos projetos.
Armazenamento será peça importante da transição energética
O debate sobre os sistemas BESS ganhou protagonismo à medida que a matriz elétrica brasileira amplia a participação de fontes renováveis como solar e eólica, cuja geração depende das condições climáticas. Nesse contexto, as baterias são consideradas fundamentais para armazenar excedentes de energia, reduzir oscilações na geração, prestar serviços ancilares e contribuir para a confiabilidade da operação do SIN.
Para o Instituto E+, entretanto, o sucesso dessa transição dependerá da construção de um ambiente regulatório que valorize diferentes soluções de flexibilidade, evitando a concentração em uma única tecnologia e preservando a eficiência econômica da expansão do sistema elétrico brasileiro.



