Corrida por conexões supera 54 GW na primeira Temporada de Acesso e acende debate sobre critérios de alocação da infraestrutura elétrica para projetos estratégicos
A expansão simultânea da economia digital e da indústria de baixo carbono começa a impor novos desafios ao planejamento da infraestrutura elétrica brasileira. A crescente demanda por conexão de grandes cargas ao Sistema Interligado Nacional (SIN), impulsionada pela instalação de data centers voltados à inteligência artificial e por projetos de hidrogênio verde, amônia e combustíveis sustentáveis, colocou a capacidade da rede de transmissão no centro das discussões sobre competitividade industrial e transição energética.
Os números apresentados após o encerramento da primeira Temporada de Acesso evidenciam a dimensão dessa disputa. Dados consolidados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que os pedidos de conexão para data centers alcançaram 26,3 GW, enquanto os empreendimentos ligados à cadeia do hidrogênio verde e da amônia responderam por outros 27,9 GW. Juntos, os dois segmentos somam mais de 54 GW em solicitações, pressionando uma infraestrutura que já enfrenta limitações de escoamento em importantes subestações do país.
O cenário amplia o desafio regulatório para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e para os órgãos responsáveis pelo planejamento do setor, que precisarão definir critérios capazes de equilibrar eficiência econômica, segurança do sistema e desenvolvimento industrial.
Modelo de conexão pode favorecer projetos com maior capacidade financeira
Embora ambos os setores sejam considerados estratégicos para o futuro da economia brasileira, especialistas alertam que a metodologia atualmente utilizada para priorizar o acesso à rede tende a beneficiar empreendimentos com maior capacidade de absorver custos adicionais de conexão.
Na avaliação do especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas Eric Fernando Boeck Daza, o desenho regulatório vigente pode produzir resultados incompatíveis com os objetivos de política industrial do país. Ao analisar os critérios atualmente empregados para a distribuição da capacidade disponível na rede de transmissão, o especialista afirma: “A regra atual prioriza quem oferece o maior valor financeiro pela conexão. O problema é que nem sempre quem pode pagar mais é quem gera mais benefícios econômicos, industriais e sociais para o país.”
Essa diferença decorre principalmente da estrutura econômica de cada atividade. Na produção de hidrogênio verde por eletrólise, a eletricidade representa entre 50% e 70% do custo final da molécula, tornando o preço da energia um fator determinante para a viabilidade do negócio. Já os grandes data centers operam com margens significativamente superiores por megawatt-hora consumido, permitindo maior flexibilidade para absorver tarifas de uso da transmissão e custos associados à conexão.
Ao detalhar essa assimetria competitiva, Eric Fernando Boeck Daza observa: “Os data centers podem absorver custos maiores para garantir sua conexão porque seu modelo de negócios gera receitas muito elevadas por megawatt consumido. Isso cria uma vantagem competitiva natural em disputas por acesso à rede.”
Debate avança para o impacto econômico de cada projeto
A crescente concorrência por infraestrutura também impulsiona uma discussão mais ampla sobre o papel estratégico de cada empreendimento para a economia brasileira.
Enquanto os data centers fortalecem o desenvolvimento da economia digital e ampliam a capacidade nacional de processamento de dados, a cadeia do hidrogênio verde pode atuar como indutora de novos investimentos industriais ao abastecer segmentos como siderurgia de baixo carbono, produção de fertilizantes nitrogenados e indústria química sustentável.
Sob essa perspectiva, especialistas defendem que o processo de alocação da capacidade de transmissão incorpore indicadores capazes de mensurar externalidades econômicas e sociais além da capacidade financeira dos investidores.
Ao abordar esse aspecto, Eric Fernando Boeck Daza ressalta: “O Brasil precisa avaliar não apenas quem paga mais pela conexão, mas também quem agrega mais valor à economia, gera cadeias produtivas, empregos e desenvolvimento regional. O hidrogênio verde, quando utilizado para produzir aço verde, fertilizantes ou produtos químicos, tem potencial de impulsionar uma série de atividades industriais associadas.”
Critérios multidimensionais ganham força nas discussões regulatórias
Diante do elevado volume de solicitações registrado na primeira Temporada de Acesso, cresce entre especialistas a avaliação de que futuras revisões regulatórias poderão incorporar critérios adicionais para a distribuição da capacidade disponível.
Entre as alternativas discutidas estão a valorização de projetos que contem com geração própria dedicada, reduzindo impactos sobre o Sistema Interligado Nacional, o uso de sistemas de armazenamento por baterias (BESS) para suporte operacional, a escolha de regiões com maior disponibilidade de infraestrutura e indicadores relacionados à eficiência energética global dos empreendimentos.
A adoção desses parâmetros poderia contribuir para reduzir gargalos estruturais e direcionar investimentos para áreas onde exista maior capacidade de integração ao sistema elétrico.
Primeiro grande teste da política de reindustrialização verde
A disputa entre data centers e projetos de hidrogênio verde é vista por parte do mercado como um dos primeiros grandes desafios decorrentes da estratégia brasileira de atração de investimentos baseada na abundância de energia renovável.
Nos últimos anos, o país consolidou uma narrativa internacional voltada à reindustrialização sustentável, apoiada na expansão das fontes limpas e na possibilidade de desenvolver cadeias produtivas de baixo carbono. Entretanto, a limitação física da infraestrutura de transmissão passa a representar um fator crítico para a concretização desses investimentos.
Ao refletir sobre os desdobramentos econômicos das decisões que serão tomadas nos próximos ciclos de planejamento, Eric Fernando Boeck Daza conclui: “O país construiu uma narrativa consistente de que sua abundância de energia limpa seria uma vantagem competitiva para atrair novas indústrias e promover a reindustrialização sustentável. Agora estamos diante do primeiro grande teste desta estratégia. A decisão sobre quem terá acesso à rede não é apenas uma questão técnica. É uma decisão que impactará o futuro econômico e industrial do Brasil.”
À medida que a demanda por novas conexões cresce em ritmo superior à expansão da infraestrutura, o debate sobre critérios de acesso à rede tende a ganhar protagonismo na agenda regulatória do setor elétrico. O desafio será conciliar a digitalização da economia com a política de descarbonização, garantindo que a rede de transmissão acompanhe a transformação estrutural da matriz produtiva brasileira.



