Por Pedro Al Shara, CEO da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente
Existe uma transformação silenciosa acontecendo na economia. Enquanto o debate público se concentra na inteligência artificial, na indústria 4.0 e na mobilidade elétrica, um elemento ganha protagonismo de forma discreta: a infraestrutura energética. Afinal, toda inovação depende, antes de qualquer coisa, de um fornecimento de energia capaz de acompanhar a velocidade dessa mudança. É nesse contexto que surge uma questão estratégica para o Brasil: estamos preparados para uma economia cada vez mais eletrificada?
A resposta passa longe de ser simples. O país vive um momento de expansão acelerada de tecnologias que dependem diretamente de energia elétrica. Data centers impulsionados pela inteligência artificial, veículos elétricos, automação industrial, edifícios inteligentes e sistemas conectados ampliam diariamente a demanda por um fornecimento estável e de alta qualidade. A eletrificação da economia já está em curso e o desafio é garantir que a infraestrutura energética evolua no mesmo ritmo.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda mundial por eletricidade cresceu 3,3% em 2025, impulsionada principalmente pela digitalização, pela expansão dos data centers e pela eletrificação dos transportes e da indústria. O movimento demonstra que a energia elétrica deixa de apenas acompanhar o crescimento econômico e assume um papel central para sustentá-lo.
Esse fenômeno não acontece apenas em mercados altamente desenvolvidos. No Brasil, ele ganha características próprias. A expansão da inteligência artificial, o avanço da digitalização dos serviços, a modernização da indústria e o crescimento da mobilidade elétrica criam por aqui também uma nova realidade: além da sustentação do crescimento econômico, a energia e a forma como a gerenciamos se tornam um diferencial competitivo, determinando a sobrevivência de empresas e a continuidade dos negócios.
No entanto, o país reúne vantagens que poucos mercados possuem. A matriz elétrica brasileira é uma das mais renováveis do mundo e oferece condições favoráveis para atrair investimentos em infraestrutura digital, indústrias e tecnologia. Não por acaso, cresce o interesse internacional na instalação de novos data centers e empreendimentos que consomem muita energia, os chamados energointensivos. Porém, antes de transformar potencial energético em liderança de mercado, será necessário fortalecer nossa infraestrutura de transmissão, distribuição, e fornecimento de energia, enquanto empresas e a sociedade em geral passem a adotar modelos mais inteligentes de gestão energética.
Resiliência Operacional
Soluções como microredes, sistemas de armazenamento por baterias (BESS), autoprodução de energia e a migração para o Mercado Livre de Energia deixam de ser iniciativas voltadas apenas à redução de custos e passam a compor uma estratégia mais ampla de resiliência operacional, previsibilidade financeira e autonomia energética. Em outras palavras, descentralizar a gestão da energia tende a ser tão importante quanto ampliar sua oferta.
Esse talvez seja o ponto mais sensível da discussão. Quando falamos em eletrificação da economia, é comum concentrarmos o debate na produção energética, mas gerar mais eletricidade não resolve o problema. Essa mudança de mentalidade pode inclusive alterar a forma como as empresas tomam decisões de investimentos. Se antes a energia era tratada predominantemente como um custo operacional, agora ela influencia as estratégias de expansão, inovação e continuidade dos negócios dentro das organizações. Investir em inteligência artificial, automação ou conectividade, por exemplo, sem considerar a robustez da infraestrutura elétrica significa construir operações cada vez mais sofisticadas sobre uma base frágil que pode não acompanhar essa evolução, comprometendo todo o desempenho de um complexo ecossistema econômico.
Essa preocupação tende a crescer. Segundo o Gartner, a demanda mundial de energia para data centers deverá aumentar 27% em 2026, atingindo 132 gigawatts (GW), frente aos 104 GW registrados em 2025. Até 2030, a expectativa é que esse consumo alcance 290 GW, impulsionado principalmente pela expansão da inteligência artificial e da computação em larga escala. O dado evidencia que o desafio mudou e vai além de produzir mais energia, será cada vez mais necessário consumi-la de forma mais inteligente, armazená-la quando possível e gerenciá-la de maneira estratégica. Para as empresas, isso significa transformar um potencial fator de risco em uma oportunidade para aumentar eficiência, previsibilidade e resiliência operacional.
Curiosamente, a própria tecnologia que aumenta essa demanda também ajuda a enfrentá-la. A inteligência artificial já começa a ser utilizada para otimizar o consumo, prever picos de carga, integrar diferentes fontes de geração, gerenciar sistemas de armazenamento e reduzir desperdícios em tempo real. Ou seja, em um cenário de crescente eletrificação, a gestão inteligente da energia assume o protagonismo e se consolida como uma vantagem competitiva.
A questão agora não se concentra mais em discutir se os países irão consumir ou não mais energia, esse debate ficou lá trás, hoje não faz mais sentido. A discussão ganhou novas perspectivas e deve se concentrar na forma como as nações irão administrar esse consumo para planejar seus investimentos. Porque, no fim das contas, o futuro da economia não será definido apenas por quem desenvolver as melhores tecnologias, mas por quem garantir as condições para que elas nunca deixem de funcionar.



