Com registro de ocorrências no Sudeste e Nordeste, demanda por ensaios dinâmicos em laboratórios do Cepel aponta para o fortalecimento do controle de qualidade e da governança de ativos em usinas estratégicas.
A resiliência infraestrutural das instalações de geração de energia elétrica, com destaque para empreendimentos hidrelétricos, nucleares e termelétricos, passa por uma avaliação cada vez mais rigorosa de suas estruturas contra falhas em cascata induzidas por vibrações e impactos mecânicos. Embora o Brasil apresente baixo risco para sismos de grande magnitude, o monitoramento contínuo da atividade telúrica e a necessidade de mitigação de riscos operacionais vêm ampliando a busca por testes em mesas vibratórias e simuladores de tremores para a certificação de equipamentos de alta complexidade.
Mapeamentos da Rede Sismográfica Brasileira e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) registram a ocorrência contínua de abalos de baixa e média intensidade no território nacional em 2026, com eventos computados no Sudeste, a exemplo de cinco tremores reportados em Saquarema (RJ), e no Nordeste, onde foram contabilizadas 19 ocorrências no período, além de episódios pontuais em outras regiões. O cenário reforça a urgência de assegurar a integridade estrutural e funcional de componentes elétricos e mecânicos responsáveis pela continuidade do suprimento do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Ensaios dinâmicos e a mitigação de falhas sistêmicas
Para mitigar os riscos de paralisação ou colapso estrutural diante de esforços mecânicos severos, o setor elétrico recorre a testes dinâmicos de alta precisão executados em ambiente laboratorial controlado. O processo consiste na aplicação de vibrações por meio de excitadores eletrodinâmicos (electrodynamic shakers), que transmitem diretamente às amostras a energia mecânica equivalente aos vetores de aceleração de um abalo sísmico.
No Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), os ensaios são conduzidos pelo Laboratório de Mecatrônica e Dinâmica de Estruturas, que possui infraestrutura capacitada para submeter estruturas e componentes de pequeno, médio e grande porte, com massa de até 1.200 kg, a solicitações dinâmicas extremas. Para obter a certificação de conformidade técnica, o ativo deve manter seu padrão nominal de desempenho e preservar a integridade estrutural antes, durante e após a simulação.
A adoção dessas metodologias de qualificação atende a exigências regulatórias e normativas nacionais e internacionais, posicionando a segurança estrutural como pilar de sustentabilidade e governança de ativos. Ao analisar a incorporação desses testes ao planejamento estratégico das geradoras, o diretor de Negócios do Cepel, Rodrigo Regis, destaca a dimensão preventiva do processo: “A segurança sísmica precisa ser tratada como parte de uma agenda mais ampla de resiliência do setor elétrico. Mesmo em um país com baixa incidência de grandes terremotos, instalações estratégicas devem estar preparadas para cenários extremos, porque a continuidade do fornecimento de energia depende da capacidade de antecipar riscos, qualificar ativos críticos e tomar decisões com base em evidências técnicas.”
Integridade operacional sob cenários estressados
A simulação de estresse mecânico em equipamentos eletromecânicos, sistemas de controle e painéis de proteção visa barrar a propagação de panes em usinas que desempenham papel fundamental na estabilidade da matriz elétrica. O rigor na aplicação dos parâmetros de teste busca garantir que os sistemas de emergência e interrupção permaneçam operacionais mesmo sob variações severas do solo.
Ao detalhar a responsabilidade técnica envolvida na validação de ativos destinados a infraestruturas de alta relevância, o pesquisador do Cepel, Carlos Frederico Trotta Matt, reforça a relevância da certificação sísmica para a segurança contínua das plantas de geração: “Esse tipo de ensaio é importante para garantir que a usina continue protegendo pessoas e operação mesmo diante do cenário mais adverso possível. Cada equipamento que passa pelo laboratório carrega essa responsabilidade, e é isso que torna o trabalho tão criterioso do início ao fim. Não se trata apenas de cumprir uma exigência regulatória, mas de assegurar que, em um momento crítico, tudo funcione exatamente como deveria. É esse compromisso que orienta cada etapa do nosso trabalho no laboratório.”
A evolução dos padrões de conformidade e a maior rigorosidade na contratação de seguros e financiamentos para grandes obras de infraestrutura tendem a impulsionar a procura por diagnósticos e qualificações laboratoriais especializadas no país.


