ONS vê desequilíbrio entre excesso de energia durante o dia e déficit à noite

Alexandre Zucarato defende leilões anuais de térmicas para acompanhar transformação da matriz elétrica e preservar a segurança do sistema

O avanço acelerado das fontes renováveis está mudando o perfil de operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) e criando um novo desafio para o setor elétrico brasileiro: administrar a abundância de energia em determinados períodos do dia e garantir potência suficiente para atender à demanda no período noturno.

O diagnóstico foi apresentado pelo diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Alexandre Zucarato, em entrevista ao programa Alta Voltagem, da CNN Money, que vai ao ar nesta terça-feira (25). Para o executivo, a transformação da matriz elétrica exige mudanças na forma como o país planeja e contrata recursos para assegurar o atendimento da carga.

Expansão renovável altera perfil da oferta

A mudança está diretamente relacionada à rápida expansão da geração renovável, especialmente de fontes com produção variável. A entrada acelerada de novos empreendimentos ampliou a oferta de eletricidade em determinados horários, mas também aumentou a necessidade de recursos capazes de atender ao sistema quando a geração solar diminui.

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Zucarato atribui essa transformação a uma mudança estrutural no setor elétrico, impulsionada pelo avanço tecnológico, pela redução dos custos das fontes renováveis e pela expansão de projetos contratados fora dos mecanismos tradicionais de leilões regulados.

O resultado é um sistema no qual a disponibilidade de energia ao longo do dia não necessariamente coincide com os períodos de maior necessidade de potência.

Térmicas ganham espaço na estratégia de segurança

A nova dinâmica aumenta a relevância de fontes despacháveis capazes de complementar a geração renovável nos horários de maior demanda. Nesse cenário, as usinas termelétricas aparecem como uma das alternativas para garantir potência e energia quando a oferta variável não é suficiente.

Embora o país tenha registrado um recorde na contratação de capacidade termelétrica em leilão, o diretor do ONS avalia que a expansão ainda não atende integralmente às necessidades de segurança do sistema. Segundo a avaliação apresentada ao programa, o SIN permanece com déficit em relação aos critérios de segurança adotados pelo operador.

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Diante desse quadro, Zucarato defende uma mudança na periodicidade de contratação. A proposta é que o governo realize leilões anuais de usinas termelétricas, permitindo que a expansão da oferta acompanhe a evolução da demanda e a transformação da matriz elétrica.

Planejamento terá de acompanhar mudança estrutural

A avaliação do ONS ocorre em um momento em que a expansão de fontes renováveis torna mais relevante a capacidade de deslocar, armazenar ou complementar a geração. A questão passa, portanto, não apenas pela ampliação da capacidade instalada, mas pela disponibilidade dos recursos nos horários em que o sistema efetivamente necessita deles.

O período noturno concentra parte desse desafio, já que a geração solar deixa de contribuir para o atendimento da carga. A situação aumenta a importância de fontes despacháveis e de outras soluções de flexibilidade, como armazenamento e gestão da demanda, além de reforçar a necessidade de coordenação entre planejamento da expansão, contratação de capacidade e operação do SIN.

A discussão coloca a adequação temporal entre oferta e demanda como um dos pontos centrais da próxima etapa da transição energética brasileira. Para o ONS, a velocidade de entrada das renováveis exige que os mecanismos de contratação de potência acompanhem a nova configuração do sistema.

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