Emissões até agosto já ultrapassam todo o volume de 2025; expansão das renováveis, mercado livre e demanda corporativa impulsionam certificados de energia renovável
O mercado brasileiro de Certificados Internacionais de Energia Renovável (I-RECs) superou, em agosto, todo o volume registrado durante 2025. Dados do Instituto Totum mostram que foram emitidos 69,46 milhões de certificados até 20 de agosto de 2026, ante 64,74 milhões no ano passado. O resultado representa avanço de 7,3%, embora 2026 ainda não tenha chegado ao fim.
A expansão ganhou escala nos últimos anos. Entre 2020 e 2026, o volume anual de I-RECs emitidos no Brasil aumentou mais de 17 vezes, consolidando o país entre os mercados relevantes de certificação de atributos ambientais associados à energia elétrica. Cada I-REC corresponde a 1 MWh de energia elétrica gerada a partir de fonte renovável. O certificado permite comprovar, de forma rastreável, o atributo renovável da eletricidade e é utilizado por empresas em estratégias de descarbonização, inventários de emissões de gases de efeito estufa e compromissos ambientais.
Demanda corporativa sustenta avanço
A expansão ocorre em meio ao aumento das exigências para que empresas comprovem a origem da eletricidade consumida. Além das metas próprias de redução de emissões, companhias estão submetidas a demandas de investidores e de cadeias globais de suprimentos, que incorporam critérios ambientais às relações comerciais.
Para Fernando Lopes, diretor-geral do Instituto Totum, a mudança no ambiente corporativo é um dos principais fatores por trás do avanço dos certificados: “O crescimento dos I-RECs acompanha uma transformação do ambiente corporativo. Cada vez mais empresas precisam comprovar a origem renovável da energia que consomem, seja para atender metas próprias de descarbonização, exigências de investidores ou demandas das cadeias globais de suprimentos. Os certificados se consolidaram como uma ferramenta essencial nesse processo.”
A abertura gradual do mercado livre de energia também amplia o universo de consumidores que podem associar seu consumo a atributos ambientais certificados.
Geração renovável amplia oferta
O crescimento do mercado de I-RECs ocorre em paralelo à expansão da geração renovável no Brasil. O aumento da capacidade instalada de fontes como solar, eólica, hidrelétrica e biomassa amplia o potencial de emissão dos certificados.
A trajetória das emissões demonstra a mudança de escala do mercado:
| Ano | Emissões de I-RECs |
|---|---|
| 2020 | 4.032.294 |
| 2021 | 9.212.692 |
| 2022 | 21.869.274 |
| 2023 | 37.826.964 |
| 2024 | 50.877.316 |
| 2025 | 64.744.840 |
| 2026* | 69.463.821 |
O volume registrado em pouco mais de sete meses de 2026 já supera em 4,72 milhões de certificados o resultado de todo o ano anterior. A evolução reforça a associação entre o crescimento da geração renovável e a expansão do mercado de atributos ambientais.
Rastreabilidade ganha peso
Além do aumento no número de certificados, o mercado passa por uma etapa de maior exigência sobre a origem e a utilização dos atributos ambientais. Consumidores, investidores e reguladores demandam informações mais detalhadas para verificar a procedência da energia certificada e a consistência das declarações ambientais feitas pelas empresas.
As discussões internacionais sobre critérios geográficos e horários para utilização dos certificados podem elevar ainda mais o nível de rastreabilidade exigido dos participantes.
Lopes avalia que essa evolução abre espaço para uma participação maior do Brasil no mercado internacional de atributos ambientais: “O mercado caminha para um nível cada vez maior de rastreabilidade. As discussões internacionais sobre critérios geográficos e horários para utilização dos certificados indicam uma evolução natural do setor. O Brasil reúne condições muito favoráveis para continuar ampliando sua participação nesse mercado, tanto pela diversidade da matriz elétrica quanto pela crescente demanda corporativa por atributos ambientais confiáveis.”
Curtailment e transmissão entram no radar
O avanço dos I-RECs ocorre em paralelo a desafios estruturais do sistema elétrico brasileiro. Entre os principais pontos de atenção estão os efeitos do curtailment sobre a geração renovável, a necessidade de expansão da infraestrutura de transmissão e a evolução das regras internacionais para contabilização das emissões de Escopo 2.
O aumento das restrições à geração de usinas renováveis reforça a importância de investimentos em transmissão e de uma operação capaz de absorver o crescimento da oferta, especialmente diante da expansão acelerada de fontes variáveis.
Já a evolução das metodologias de Escopo 2 pode alterar os critérios utilizados pelas empresas para demonstrar a redução das emissões associadas ao consumo de eletricidade. Nesse ambiente, a qualidade da informação e a rastreabilidade dos atributos ambientais tendem a ganhar importância proporcionalmente maior ao crescimento do mercado.
A combinação entre expansão renovável, abertura do mercado livre e pressão por descarbonização sustenta a perspectiva de continuidade dos I-RECs no Brasil. O próximo estágio, porém, será marcado não apenas pelo aumento do volume de certificados, mas também por exigências mais rigorosas de transparência, rastreabilidade e comprovação dos atributos ambientais associados ao consumo de eletricidade.



