Por Thiago Lopes, diretor de Canais da Schneider Electric para o Brasil
No ecossistema de grandes obras industriais e de infraestrutura de energia, poucas decisões custam tão caro quanto a gestão da incerteza. Tradicionalmente, a elaboração de plantas do setor elétrico conviveu com a impossibilidade de prever, com exatidão total, o comportamento operacional no momento em que os equipamentos entram em carga. Para proteger a infraestrutura contra falhas e oscilações térmicas, a engenharia consagrou o uso de margens de segurança conservadoras. Essa conduta traz um custo silencioso ao caixa das empresas: a redundância excessiva de componentes e o gasto desnecessário de CapEx.
Esse ralo financeiro tornou-se insustentável. O setor elétrico brasileiro atravessa um momento marcante de crescimento. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a potência instalada no país deve registrar um acréscimo de 9.142 MW este ano – alta de 23,4% em relação a 2025. Em paralelo, dados da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE) indicam que novas demandas intensivas, a exemplo dos data centers, exigirão 321 MW médios adicionais na carga nacional no mesmo período. Com esse ritmo acelerado, a prioridade é a alocação cirúrgica do capital.
A raiz da ineficiência está na discrepância entre o projeto teórico no papel e o comportamento dinâmico da rede no dia a dia. Quando um painel, subestação e transformador são especificados, recebem parâmetros conceituais distantes da rotina real de operação. Sem o suporte do monitoramento inteligente, as equipes trabalham assumindo que os equipamentos atingiram sua capacidade máxima, embora frequentemente haja uma folga substancial. Sem comprovação numérica, a expansão de uma fábrica costuma provocar a compra imediata de novas peças – uma conduta pautada no receio, e não na física do arranjo.
O avanço da simulação computacional altera esse cenário. O estudo Digital Twin Market, da Grand View Research, aponta que o mercado global de gêmeos digitais já soma US$ 49,5 bilhões e movimentará mais de US$ 328 bilhões até 2033, impulsionado, sobretudo, por energia, manufatura e utilidades públicas. Já levantamentos da consultoria McKinsey mostram que a integração dessas réplicas virtuais a dados de telemetria em tempo real reduz despesas operacionais (OpEx) em até 20% e otimiza o uso do CapEx entre 15% e 25%, justamente por cortar a compra desnecessária de patrimônio.
O vetor dessa mudança é a verificação dinâmica da malha elétrica. Conectada diretamente à instrumentação local e às plataformas de automação (SCADA e IoT), a ferramenta processa continuamente medições reais (como tensão, corrente, temperatura dos enrolamentos, distorção harmônica e perfil de carga) e as confronta instantaneamente com o modelo teórico inicial.
Essa reconciliação de dados em tempo real desfaz o “efeito caixa-preta” das unidades de produção. A plataforma estabelece o estado efetivo do circuito e imita casos de estresse sem expor o maquinário real a riscos. A administração colhe esse resultado em duas frentes diretas:
- Diferimento de aportes (CapEx Deferral): grandes complexos industriais e data centers vêm adotando o conceito de Dynamic Thermal Rating (Classificação Térmica Dinâmica). Ao monitorar a dissipação de calor e a demanda efetiva no modelo digital, os gestores comprovam que transformadores e painéis possuem até 20% de capacidade ociosa segura para absorver o aumento de carga. A aquisição de uma nova subestação é postergada por anos, preservando a liquidez da companhia.
- Aportes de alta exatidão em ampliações: quando a alocação de recursos em nova infraestrutura passa a ser inevitável, o cálculo técnico abandona os coeficientes genéricos de normatização. O novo projeto é estruturado com base no registro real calibrado por software, eliminando a “gordura” orçamentária e restringindo a compra ao estritamente necessário.
Em escala global, concessionárias e linhas de transmissão que aplicam essa tecnologia relatam ganhos expressivos na durabilidade do patrimônio. Ao alinhar a realidade do campo ao reprodutor virtual, identifica-se tanto o subaproveitamento de recursos quanto gargalos invisíveis de qualidade de energia capazes de causar paradas não planejadas.
A gestão baseada em inteligência analítica eleva a engenharia a uma posição estratégica perante a alta liderança. A verificação da estrutura elétrica ultrapassa a fronteira do comissionamento presencial na entrega do projeto, consolidando-se como uma disciplina contínua sustentada por dados.


