Ministério contesta retirada do projeto do leilão de transmissão e defende início dos fluxos de energia antes da conclusão da conversora estimada em R$ 2,4 bilhões
O Ministério de Minas e Energia (MME) solicitou à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a revisão do cronograma de implantação da interligação elétrica entre Brasil e Bolívia. A proposta é permitir a entrada em operação por etapas do projeto, de modo que a conexão internacional possa começar a operar antes da conclusão de todo o complexo de transmissão previsto.
A iniciativa ocorre após a Aneel retirar do leilão de transmissão previsto para outubro o sublote destinado à interligação com a Bolívia. O principal ponto de incerteza está na implantação da estação conversora, estimada em cerca de R$ 2,4 bilhões nos estudos de expansão do sistema.
O MME pretende preservar o avanço das negociações bilaterais enquanto o Congresso Nacional analisa a ratificação do acordo firmado entre os dois países. A alternativa defendida pelo ministério prevê aproveitar estruturas que possam ser disponibilizadas em uma primeira fase, sem vincular o início da operação à conclusão integral do empreendimento.
Conversora concentra entraves do projeto
A estação conversora representa o principal componente ainda sujeito a reavaliação dentro do projeto. A Aneel apontou, entre os motivos para retirar o sublote do certame, a insuficiência de informações técnicas sobre a rede elétrica boliviana e a falta de sincronismo entre os cronogramas de implantação previstos para os dois lados da fronteira.
O empreendimento também envolve a implantação de infraestrutura de transmissão em alta tensão, com destaque para o tronco de 500 kV. A necessidade de compatibilizar os sistemas brasileiro e boliviano torna o planejamento da conexão dependente de requisitos técnicos e regulatórios de ambos os países.
Diante das incertezas, o MME solicitou à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) uma nova avaliação sobre as possibilidades de antecipação da operação.
Exportação pode aliviar curtailment no Centro-Oeste
Os estudos apresentados ao ministério indicaram a possibilidade de iniciar a exportação de energia do Sistema Interligado Nacional (SIN) para a Bolívia antes da energização completa do tronco de 500 kV.
A alternativa ganha relevância diante das restrições de escoamento enfrentadas por regiões com elevada concentração de geração, especialmente no Centro-Oeste. A exportação poderia criar uma demanda adicional para parte dessa energia, contribuindo para reduzir o vertimento de geração renovável que não consegue ser transportada integralmente até os centros de carga, fenômeno conhecido como curtailment.
A conexão também poderia ampliar a capacidade de atendimento à ponta de carga regional. Dessa forma, o benefício apontado pelo MME não está restrito à criação de um novo mercado externo para a eletricidade brasileira, mas também à utilização mais eficiente de recursos de geração já disponíveis no SIN.
O estudo, entretanto, não indica uma necessidade imediata de suprimento que torne obrigatória a entrada em operação da interligação. O ganho defendido pelo ministério está relacionado principalmente à eficiência operacional, à redução de restrições de geração e ao melhor aproveitamento da infraestrutura existente.
Projeto depende de coordenação entre os dois países
A evolução do empreendimento também está condicionada à convergência dos cronogramas de infraestrutura dos dois lados da fronteira. A Bolívia teria ajustado seu planejamento para acompanhar o calendário brasileiro e trabalha com a possibilidade de incluir os trechos correspondentes no primeiro leilão de transmissão de 2027.
A estratégia reduz o risco de que uma eventual implantação antecipada de estruturas no Brasil fique sem correspondência do lado boliviano. Ainda assim, a execução permanece vinculada às definições regulatórias, técnicas e contratuais que precisam ser harmonizadas entre os dois países.
O acordo bilateral aprovado entre Brasil e Bolívia ainda depende de ratificação pelo Congresso Nacional. Essa etapa é necessária para consolidar o marco jurídico que dará suporte à operação comercial da interligação.



