Pacto permite enriquecimento de urânio com tecnologia norte-americana sem exigir protocolo ampliado de inspeções da AIEA; iniciativa abre oportunidades bilionárias para a indústria nuclear dos EUA e reacende debate sobre proliferação nuclear
Os Estados Unidos e a Arábia Saudita deram um passo decisivo para consolidar uma parceria de longo prazo na área de energia nuclear civil. Após anos de negociações iniciadas ainda no primeiro mandato do presidente Donald Trump e retomadas durante a administração de Joe Biden, Washington e Riad firmaram um acordo que autoriza o reino saudita a desenvolver seu programa nuclear utilizando tecnologia norte-americana, incluindo a possibilidade de enriquecer urânio e construir reatores no país.
A iniciativa representa um dos movimentos mais relevantes da política energética internacional dos últimos anos por combinar interesses econômicos, segurança energética e estratégia geopolítica. Ao mesmo tempo em que cria oportunidades de dezenas de bilhões de dólares para a indústria nuclear dos Estados Unidos, o acordo desperta preocupações entre especialistas em não proliferação nuclear devido às condições diferenciadas concedidas ao governo saudita.
O pacto, conhecido como Acordo 123, foi assinado pelo secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, e pelo ministro saudita da Energia, príncipe Abdulaziz bin Salman. O documento ainda será submetido à análise do Congresso norte-americano, que terá prazo de 90 dias legislativos para avaliar a proposta.
Flexibilização das exigências amplia debate sobre segurança nuclear
O principal ponto de atenção do acordo está relacionado ao modelo de fiscalização internacional. Diferentemente das exigências defendidas anteriormente pelos Estados Unidos em negociações com outros países, o novo entendimento não condiciona a Arábia Saudita à assinatura do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
O mecanismo amplia significativamente os poderes de fiscalização da agência, permitindo inspeções sem aviso prévio em instalações não declaradas. Na prática, o país continuará submetido às salvaguardas tradicionais da AIEA, adotadas desde a ampliação de seu programa nuclear, mas sem aderir ao instrumento considerado o padrão mais rigoroso de verificação internacional.
A decisão representa uma mudança relevante na postura norte-americana sobre programas nucleares civis e reacendeu críticas de organizações dedicadas ao controle da proliferação de armas nucleares.
Enriquecimento de urânio amplia preocupações internacionais
Outro aspecto que concentra atenção internacional é a autorização para que a Arábia Saudita desenvolva atividades de enriquecimento de urânio e de reprocessamento de combustível nuclear. Embora essas tecnologias sejam utilizadas em programas civis de geração de eletricidade, ambas também podem servir como etapas fundamentais para a produção de material destinado à fabricação de armamentos nucleares.
O tema ganha maior relevância diante do histórico de declarações do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que afirmou em diversas ocasiões que o reino desenvolveria capacidade nuclear militar caso o Irã obtenha uma arma atômica. O cenário difere, por exemplo, do acordo firmado entre Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos em 2009, quando Abu Dhabi aceitou abrir mão permanentemente tanto do enriquecimento quanto do reprocessamento de combustível nuclear.
Expansão da geração nuclear impulsiona negócios bilionários
Sob o ponto de vista econômico, o acordo fortalece a estratégia dos Estados Unidos de recuperar protagonismo no mercado global de tecnologia nuclear. A expectativa é que o entendimento viabilize um programa de construção de reatores AP1000 ao longo das próximas décadas, em contratos estimados em dezenas de bilhões de dólares.
A principal beneficiária será a Westinghouse, empresa controlada conjuntamente pela canadense Cameco e pela Brookfield Asset Management, responsável pelo fornecimento da tecnologia dos reatores. Além da construção das usinas, o projeto deve envolver contratos de engenharia, fornecimento de equipamentos, manutenção, treinamento de operadores e serviços especializados ao longo de aproximadamente 30 anos.
Competição global por influência energética
O acordo também possui forte componente estratégico diante da crescente disputa entre Estados Unidos, China e Rússia pelo mercado internacional de infraestrutura energética. Nos últimos anos, autoridades sauditas vinham sinalizando que poderiam recorrer a fornecedores chineses ou russos caso Washington mantivesse exigências consideradas excessivamente rígidas para o programa nuclear do país.
Ao flexibilizar parte das condições anteriormente defendidas, os Estados Unidos preservam sua influência sobre um dos maiores produtores mundiais de petróleo e ampliam sua presença em um mercado estratégico para a indústria nuclear. Ao mesmo tempo, o governo norte-americano sustenta que o acordo continua respeitando os mecanismos de controle previstos na legislação dos Estados Unidos para cooperação internacional em energia atômica.
Congresso e especialistas ainda devem travar debate
Apesar do avanço diplomático, o acordo ainda enfrentará uma etapa importante no Congresso norte-americano. Parlamentares poderão analisar se as salvaguardas previstas são suficientes para garantir que o programa permaneça exclusivamente voltado à geração de energia elétrica.
Entre os críticos está Kelsey Davenport, diretora de política de não proliferação da Associação de Controle de Armas, que defendeu uma revisão da proposta: “Pedimos que os congressistas de ambos os partidos reconheçam os perigos e atuem para rejeitar ou modificar o acordo nuclear de Trump com a Arábia Saudita, impedindo o avanço da proliferação nuclear no Oriente Médio.”
Caso o Congresso não reúna votos suficientes para bloquear a iniciativa dentro do prazo previsto, o acordo entrará em vigor, consolidando uma nova etapa da cooperação energética entre Washington e Riad e potencialmente redefinindo tanto o mercado global de tecnologia nuclear quanto o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio.



