Tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros pode retirar R$ 76 bilhões da economia e amplia pressão sobre indústria exportadora

Estudo do IBEVAR-FIA Business School estima impacto de US$ 11 bilhões nas exportações, aumento da demanda por crédito e efeitos sobre crescimento, arrecadação e investimentos

A nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras inaugura um período de maior tensão comercial entre os dois países e amplia as preocupações com os reflexos sobre a atividade econômica, a indústria e a capacidade de investimento. Levantamento do IBEVAR-FIA Business School estima que as medidas poderão atingir aproximadamente US$ 11 bilhões da pauta exportadora nacional, com impacto potencial de R$ 76 bilhões sobre a economia brasileira.

As tarifas incluem uma alíquota de 25%, acrescida de uma sobretaxa de 12,5% aplicada a determinados produtos, elevando a tributação para até 37,5% em parte das exportações destinadas ao mercado norte-americano. De acordo com o estudo, o efeito econômico equivale a uma perda entre 0,5 e 0,6 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) projetado para 2026.

Em um cenário de crescimento estimado próximo de 2% para o próximo ano, o impacto representa uma redução significativa da expansão esperada da economia, afetando especialmente setores industriais com elevada dependência do mercado norte-americano.

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Indústria concentra os maiores impactos

O levantamento aponta que a nova política tarifária atinge de forma desigual os segmentos exportadores. A indústria madeireira aparece como a mais exposta, com 83% das vendas destinadas aos Estados Unidos incluídas na lista de produtos tarifados. Na sequência aparecem os setores de minerais não metálicos, com 56,3% das exportações afetadas, produtos químicos (51,8%) e alimentos (38,1%). Também figuram entre os segmentos mais vulneráveis as indústrias de calçados, têxtil, móveis e máquinas.

O estudo também destaca os efeitos para a indústria aeronáutica. Segundo as estimativas apresentadas, a Embraer poderá enfrentar um custo adicional de aproximadamente R$ 50 milhões por aeronave comercializada no mercado norte-americano, o que pode representar impacto acumulado de R$ 20 bilhões até 2030.

A avaliação do IBEVAR indica que os efeitos ultrapassam a redução das exportações, alcançando cadeias produtivas inteiras, fornecedores, arrecadação tributária e investimentos industriais.

São Paulo e Santa Catarina concentram maior exposição

A distribuição dos impactos também apresenta forte concentração regional. São Paulo responde por aproximadamente US$ 3 bilhões das exportações atingidas, equivalente a 41,6% do total estimado pelo estudo.

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Somado a Santa Catarina, o estado representa mais da metade dos efeitos econômicos da nova política tarifária. Embora o volume absoluto paulista seja superior, Santa Catarina apresenta maior dependência relativa do mercado norte-americano, com 68% de suas exportações destinadas aos Estados Unidos enquadradas nas novas tarifas.

No Nordeste, o Ceará aparece como o estado mais vulnerável em termos proporcionais. De acordo com o levantamento, 96,5% das exportações cearenses para o mercado norte-americano são provenientes da indústria, com destaque para o complexo industrial e portuário do Pecém, responsável por cerca de US$ 441 milhões em operações potencialmente afetadas.

Governo amplia crédito para empresas exportadoras

Como resposta aos efeitos esperados da medida, o governo federal ampliou o Plano Brasil Soberano, elevando para R$ 55 bilhões o volume de linhas de financiamento disponibilizadas por meio do BNDES. O pacote reúne R$ 40 bilhões da primeira etapa do programa e outros R$ 15 bilhões autorizados pela Medida Provisória nº 1.345/2026.

Segundo o estudo, a procura das empresas pelos recursos já alcança R$ 18,4 bilhões em solicitações formalizadas, movimento que levou o banco de fomento a solicitar um reforço adicional de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro Nacional para ampliar a capacidade de atendimento. Embora os recursos sejam estruturados como operações de crédito e não representem despesas diretas do governo, os pesquisadores alertam para os efeitos indiretos da desaceleração das exportações sobre a arrecadação tributária, a geração de divisas e o desempenho fiscal.

A redução da atividade econômica ocorre em um momento de aumento das despesas públicas e de um cenário de déficit primário projetado para 2026, ampliando as incertezas em relação à trajetória das contas públicas.

Cenário externo adiciona novas pressões econômicas

O estudo também chama atenção para fatores internacionais que podem ampliar a volatilidade da economia brasileira nos próximos meses.

Entre eles está a instabilidade geopolítica no Golfo Pérsico, que voltou a pressionar as cotações internacionais do petróleo. A valorização do barril beneficia parcialmente países exportadores líquidos de petróleo, como o Brasil, mas também tende a elevar a inflação e dificultar o processo de redução das taxas de juros.

Outro fator apontado é o calendário eleitoral de 2026. Historicamente, anos de eleição presidencial costumam elevar a incerteza dos mercados e ampliar discussões sobre política fiscal, elementos que influenciam diretamente o comportamento dos investidores e a percepção de risco do país. Nesse ambiente, a combinação entre menor dinamismo das exportações, aumento da demanda por crédito, pressão sobre as contas públicas e volatilidade externa pode afetar decisões de investimento e financiamento de diversos segmentos da economia.

Ao avaliar a dimensão dos impactos provocados pela nova política comercial norte-americana, o presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, Claudio Felisoni, afirma que os efeitos extrapolam a esfera das relações comerciais: “O tarifaço não é apenas uma disputa comercial entre dois países. É um evento que atravessa geografia (concentrado em poucos estados), fiscal (mais crédito emergencial, menos arrecadação), monetário (Selic represada) e diplomático (o pior momento em dois séculos de relação) ao mesmo tempo, e cada uma dessas frentes já está em movimento, mensurável, e mais cara do que a manchete de hoje sugere.”

Para o estudo, a nova rodada tarifária representa um fator adicional de pressão sobre uma economia que já enfrenta desafios relacionados ao equilíbrio fiscal, ao ambiente internacional e ao ritmo de crescimento. A capacidade de adaptação da indústria exportadora e a resposta das políticas públicas serão determinantes para mitigar os impactos sobre competitividade, emprego e investimentos nos próximos anos.

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