Crescimento acelerado dos data centers movidos por inteligência artificial torna a demanda por eletricidade mais volátil, impulsiona geração própria e reforça o papel da IA na operação das redes
A expansão da inteligência artificial (IA) está redesenhando um dos principais desafios do setor elétrico mundial: prever com precisão o crescimento da demanda por energia. Ao mesmo tempo em que impulsiona a construção de data centers cada vez mais intensivos em consumo elétrico, a tecnologia também desponta como uma das principais ferramentas para aumentar a eficiência operacional das redes e mitigar gargalos de infraestrutura.
Essa é a principal conclusão do relatório “IA encontra a rede elétrica: moldando o cenário energético dos data centers“, divulgado pelo Instituto de Pesquisa da Capgemini. O levantamento ouviu 612 executivos do setor elétrico e 175 operadores de data centers em 21 países da América do Norte, Europa, Ásia-Pacífico e América Latina.
O estudo indica que, nos próximos três a cinco anos, as cargas relacionadas ao treinamento e à inferência de modelos de inteligência artificial deverão representar até 60% do consumo total de eletricidade dos data centers, ante cerca de 25% atualmente. O avanço reforça a pressão sobre sistemas elétricos que já enfrentam desafios para acompanhar a velocidade da expansão digital.
Crescimento da IA torna previsão de carga mais complexa
O levantamento mostra que o principal desafio das concessionárias deixou de ser apenas atender ao crescimento do consumo. A maior dificuldade passa a ser compreender quando, onde e em qual intensidade essa demanda efetivamente se materializará.
Grande parte dessa incerteza decorre dos chamados pedidos de conexão “fantasmas” realizados por desenvolvedores de data centers. Segundo a pesquisa, 67% dos executivos das empresas de transmissão e distribuição afirmam lidar frequentemente com solicitações de acesso que acabam não sendo executadas. Em média, 19% dos projetos anunciados nunca chegam à fase operacional. Essa discrepância dificulta o planejamento da expansão das redes, aumenta o risco de investimentos superdimensionados e cria incertezas sobre a localização e o momento adequado para novos aportes em linhas de transmissão, subestações e ativos de distribuição.
O cenário preocupa o setor. Cerca de 77% dos entrevistados afirmam enfrentar dificuldades para modelar os novos padrões de consumo provocados pela inteligência artificial, enquanto 68% enxergam risco crescente de restrições localizadas no fornecimento de energia devido à velocidade de implantação dos data centers.
Outro fator de atenção é a concentração geográfica dessas instalações. Mais da metade dos executivos consultados considera que grandes polos de processamento de dados podem comprometer a estabilidade das redes locais caso a expansão da infraestrutura elétrica não acompanhe o ritmo dos investimentos digitais.
IA também desponta como ferramenta para modernizar o sistema elétrico
Embora seja responsável pelo aumento da complexidade operacional das redes, a inteligência artificial também aparece como uma das principais soluções para enfrentar esse novo cenário.
A Diretora Global de Energia e Utilities da Capgemini, Claire Gauthier, avalia que o setor elétrico precisará ampliar sua capacidade analítica para administrar uma demanda cada vez mais dinâmica: “A IA está transformando os sistemas de eletricidade muito além do crescimento da demanda. Ela expõe limitações estruturais na capacidade da rede, no planejamento e na disponibilidade de energia, ao mesmo tempo que torna a demanda mais dinâmica e difícil de prever. O desafio não é mais apenas quanta energia é necessária, mas se ela pode ser fornecida de forma confiável, onde e quando for necessária. As concessionárias de energia têm um papel fundamental como orquestradoras do sistema ao aproveitar insights habilitados por IA para equilibrar a rede e os recursos pertencentes aos clientes, acelerar a capacidade de entrega e viabilizar a próxima fase de crescimento dos data centers.”
A pesquisa revela que aproximadamente 60% das empresas de energia acreditam que aplicações baseadas em IA poderão elevar a produtividade operacional em mais de 10%, reduzindo falhas, acelerando diagnósticos e tornando mais eficiente o restabelecimento do fornecimento.
Apesar desse potencial, a adoção ainda avança lentamente. Apenas 45% das organizações utilizam ferramentas de inteligência artificial para otimização das redes elétricas, enquanto somente 16% já implementaram soluções avançadas capazes de realizar gerenciamento dinâmico de ativos, balanceamento de fluxo de potência e monitoramento em tempo real.
Geração própria ganha espaço diante das limitações da rede
O estudo também aponta uma mudança estrutural na estratégia energética dos operadores de data centers. Diante dos prazos elevados para conexão às redes públicas, cresce o investimento em sistemas de geração localizada, conhecidos como Behind-the-Meter (BTM), instalados dentro ou nas proximidades dos empreendimentos.
Hoje, 29% das empresas pesquisadas já utilizam soluções próprias de geração de energia, enquanto outras 39% pretendem adotar esse modelo nos próximos dois anos. A tendência é de aceleração. Mais de 70% dos entrevistados acreditam que a geração BTM reduzirá significativamente a dependência da rede elétrica convencional ao longo dos próximos cinco anos, e 86% consideram a capacidade de operar em modo ilhado um diferencial competitivo para garantir continuidade operacional.
Gás natural permanece como solução de transição
A pesquisa também evidencia que, apesar do avanço das fontes renováveis, ainda existem limitações técnicas para atender à demanda contínua exigida pelos data centers de inteligência artificial. Para 78% dos executivos das utilities e 73% dos operadores de data centers, fontes como solar e eólica, isoladamente, ainda não oferecem o nível de confiabilidade necessário para cargas críticas.
Embora os investimentos em armazenamento por baterias (BESS) avancem rapidamente e tecnologias como os Pequenos Reatores Modulares (SMRs) despontem como alternativas futuras, a percepção predominante é que o gás natural continuará desempenhando papel relevante durante a transição energética.
Segundo o estudo, 68% dos entrevistados enxergam o gás natural como a alternativa mais viável no curto e médio prazo para assegurar confiabilidade ao fornecimento enquanto soluções de armazenamento e outras tecnologias de base firme atingem maior maturidade técnica e econômica.
Expansão da infraestrutura exigirá planejamento integrado
O avanço da inteligência artificial amplia significativamente o desafio de conciliar crescimento da demanda, expansão da infraestrutura elétrica e metas de descarbonização.
Na avaliação de Claire Gauthier, a coordenação entre investimentos em geração, transmissão, distribuição e infraestrutura digital será decisiva para garantir a sustentabilidade desse novo ciclo tecnológico: “Tanto para as fornecedoras de energia quanto para as operadoras de data centers, o principal desafio não é mais apenas expandir a capacidade, mas fazer isso em um cenário de incerteza, restrições de tempo e crescente complexidade do sistema. O sucesso dependerá da capacidade de alinhar o investimento em infraestrutura, o suprimento de energia e operações impulsionadas por IA para gerenciar tanto a escala quanto a volatilidade da demanda, ao mesmo tempo em que se equilibra a confiabilidade, o custo e a sustentabilidade.”
As conclusões do relatório reforçam que a inteligência artificial passou a ocupar um papel duplo no setor elétrico: enquanto impulsiona uma nova onda de consumo intensivo de energia e desafia o planejamento das redes, também oferece as ferramentas capazes de tornar a operação mais inteligente, resiliente e preparada para atender a uma demanda cada vez mais dinâmica.



