Distribuidoras projetam R$ 258 bilhões em investimentos e aceleram digitalização das redes

Expansão até 2030 amplia demanda por inteligência artificial, manutenção preditiva e mobilidade de campo para elevar resiliência e reduzir tempos de interrupção

As distribuidoras de energia elétrica devem investir aproximadamente R$ 258 bilhões entre 2026 e 2030 na expansão, modernização e renovação de suas redes, segundo projeções da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Ao mesmo tempo, o parque gerador brasileiro deve incorporar 9,1 GW de capacidade em 2026, majoritariamente a partir de fontes renováveis.

A combinação entre expansão da infraestrutura, maior participação de fontes intermitentes e aumento da exposição da rede a eventos climáticos extremos amplia a complexidade da operação. Nesse cenário, tecnologias digitais deixam de ser apenas ferramentas de modernização e passam a integrar a gestão de ativos, a manutenção e a resposta a ocorrências.

A tendência é de maior utilização de sensores, sistemas de supervisão, inteligência artificial, análise de dados e dispositivos móveis conectados aos centros de operação. O objetivo é antecipar falhas, direcionar equipes com maior precisão e reduzir o tempo necessário para recompor o fornecimento.

- Advertisement -

IA avança na manutenção de ativos

A digitalização modifica principalmente a forma como as concessionárias monitoram equipamentos e identificam sinais de degradação. Dados coletados continuamente em redes e subestações podem alimentar modelos analíticos capazes de reconhecer padrões associados a falhas e apoiar decisões de manutenção antes da ocorrência de interrupções.

A estratégia é especialmente relevante diante da convivência entre redes inteligentes e ativos legados. A necessidade de integrar equipamentos com diferentes níveis de automação exige sistemas capazes de consolidar informações operacionais e transformá-las em indicadores para as equipes responsáveis pela manutenção.

A manutenção preditiva também pode contribuir para ampliar a vida útil dos ativos e reduzir intervenções emergenciais. Em vez de depender exclusivamente de cronogramas fixos ou da resposta a defeitos já identificados, as distribuidoras passam a utilizar o comportamento operacional dos equipamentos como elemento para definir prioridades.

Conectividade reduz distância entre COD e campo

A disponibilidade dessas informações precisa chegar às equipes responsáveis pela execução das atividades. A comunicação entre o Centro de Operação da Distribuição (COD) e os técnicos de campo passa a ser um componente relevante da estratégia de continuidade do serviço.

- Advertisement -

O desafio aumenta em áreas sujeitas a poeira, variações de temperatura, chuva e outras condições adversas. Nesse ambiente, dispositivos móveis de alta resistência, conhecidos como rugged devices, são utilizados para disponibilizar ordens de serviço, diagramas, informações de ativos e diagnósticos diretamente aos profissionais em campo.

A integração entre dados operacionais e mobilidade pode reduzir etapas de comunicação, evitar deslocamentos desnecessários e acelerar a identificação da causa de uma ocorrência. O efeito esperado é uma resposta mais rápida das equipes e, consequentemente, redução dos indicadores de duração das interrupções, como o DEC.

O Diretor Global do Setor Automotivo da Getac, Russell Younghusband, avalia que a conectividade passou a ter impacto direto sobre a capacidade de resposta das empresas: “A transformação digital está redefinindo a forma como as empresas de energia gerenciam seus ativos e executam suas operações em campo. Hoje, a vantagem competitiva está na capacidade de conectar pessoas, equipamentos e informações para acelerar a tomada de decisões e reduzir os tempos de resposta diante de qualquer incidente.”

Eventos climáticos pressionam operação

A necessidade de digitalização também está relacionada à maior exposição das redes de distribuição a eventos meteorológicos severos. Chuvas intensas, ventos fortes e outros fenômenos podem provocar ocorrências simultâneas em diferentes pontos da rede, exigindo coordenação rápida das equipes e priorização dos atendimentos.

Nesse cenário, ferramentas de geolocalização permitem acompanhar a posição das equipes e relacioná-la às ocorrências registradas. Quando combinados com informações históricas e modelos preditivos, esses dados podem auxiliar na identificação de áreas com maior probabilidade de falhas e na definição antecipada de recursos.

A capacidade de reconfigurar a rede e mobilizar equipes rapidamente ganha importância à medida que aumenta a quantidade de ativos distribuídos e a complexidade da operação. A digitalização, nesse caso, atua tanto na prevenção quanto na recomposição do fornecimento.

Formação profissional vira gargalo

A evolução tecnológica, entretanto, cria uma demanda adicional por qualificação. A incorporação de plataformas analíticas, sensores e sistemas móveis exige profissionais capazes de interpretar dados operacionais e utilizá-los em conjunto com procedimentos técnicos e normas de segurança.

O desafio não está apenas na contratação de novos especialistas. As distribuidoras também precisam requalificar equipes que já atuam na manutenção e operação da rede para incorporar ferramentas digitais à rotina.

Essa mudança aumenta a importância da integração entre conhecimento técnico tradicional e competências relacionadas a dados, automação e sistemas digitais. A eficiência das novas ferramentas depende, em última instância, da capacidade das equipes de transformar as informações disponíveis em decisões operacionais.

Younghusband destaca que a expansão da infraestrutura digital precisa ocorrer de forma integrada à atuação das equipes: “À medida que as operações se tornam mais distribuídas e orientadas por dados, é fundamental garantir que a informação correta chegue às pessoas certas no momento em que precisam tomar decisões. A mobilidade robusta conecta ativos, pessoas e sistemas, permitindo operações mais eficientes, seguras e resilientes.”

Digitalização passa a influenciar capex e opex

O volume projetado de investimentos até 2030 coloca as distribuidoras diante de uma mudança estrutural na gestão dos ativos. A expansão física das redes passa a exigir, simultaneamente, maior capacidade de monitoramento, automação e processamento de informações.

Nesse contexto, a infraestrutura digital deixa de ser um componente isolado dos programas de inovação e passa a integrar a estratégia de capex e opex das concessionárias. Sistemas de monitoramento, conectividade, automação e manutenção preditiva podem influenciar tanto os investimentos necessários para expansão quanto os custos associados à operação e manutenção.

A tendência também acompanha a transformação da matriz elétrica. O crescimento das fontes renováveis adiciona variabilidade à operação e aumenta a necessidade de coordenação entre geração, transmissão, distribuição e consumo.

Para as distribuidoras, o desafio será combinar expansão física, automação e capacidade analítica sem perder de vista indicadores de qualidade, segurança e continuidade do fornecimento. Nesse processo, a digitalização tende a assumir papel central na gestão de ativos e na resposta a eventos.

O ciclo de investimentos previsto até 2030, portanto, não representa apenas aumento da quantidade de infraestrutura instalada. Ele também exige uma evolução da capacidade das concessionárias de monitorar, prever, decidir e atuar em tempo real sobre suas redes.

Destaques da Semana

Artigos

Últimas Notícias