Levantamento da SolarPower Europe aponta que dificuldades com conexão à rede, gargalos de importação e falta de armazenamento desaceleraram o ritmo do mercado nacional.
O mercado fotovoltaico brasileiro enfrentou um ano de acomodação e perda de tração no cenário internacional. De acordo com o mais recente relatório global da SolarPower Europe, desenvolvido com a colaboração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Brasil caiu da quarta para a quinta posição no ranking dos maiores mercados de energia solar do mundo.
O recuo na classificação reflete uma desaceleração no ritmo de expansão em solo nacional. Ao longo do último ano, o país adicionou 14,5 GWp (gigawatts-pico) de capacidade solar à sua malha. O volume representa uma retração de 23% quando comparado aos 18,9 GWp que haviam sido instalados no ciclo anterior. Com esse desempenho mais tímido, o mercado brasileiro acabou superado pela Alemanha, passando a figurar na quinta colocação global, atrás também de potências consolidadas como China, Índia e Estados Unidos.
Gargalos regulatórios e macroeconômicos travam investimentos
A perda de fôlego do setor não decorre de um único fator, mas sim de uma combinação de barreiras estruturais, operacionais e financeiras que elevaram o risco para os investidores. Análises institucionais da Absolar indicam que a retração está diretamente ligada a fatores como cortes de geração renovável sem ressarcimento aos empreendedores, o chamado curtailment, além de severas dificuldades de conexão de novos sistemas à rede de distribuição e transmissão elétrica.
No ambiente macroeconômico, o cenário também se mostrou desafiador. O setor fotovoltaico precisou navegar em um cenário de juros elevados e forte valorização do dólar frente ao real, o que encareceu o financiamento de grandes projetos. Para agravar a situação das cadeias de suprimento, o aumento recente nas tarifas de importação de equipamentos fotovoltaicos elevou o custo de Capex dos projetos, impactando a viabilidade de novas usinas de geração distribuída e centralizada.
Apesar da clara desaceleração nas adições de capacidade, a tecnologia fotovoltaica mantém um papel crucial e estratégico no parque gerador do país. A fonte solar segue firme como a segunda maior força da matriz elétrica brasileira, somando atualmente 70 GWac em operação e respondendo por uma fatia expressiva de 26,2% de toda a capacidade instalada do território nacional.
Armazenamento e leilões despontam como caminhos para a retomada
O diagnóstico para destravar os gargalos de escoamento e devolver o dinamismo ao mercado passa, obrigatoriamente, por uma revisão na infraestrutura e nas políticas setoriais. Diagnósticos da associação representativa apontam que a falta de investimentos em armazenamento e a urgência por modernização da rede têm limitado severamente a capacidade de expansão contínua das fontes renováveis no Brasil.
Para reverter esse quadro e pavimentar uma agenda de retomada do crescimento sustentável, a entidade defende um conjunto de medidas estruturantes de curto e médio prazo. Entre as prioridades apontadas pelo setor estão a realização de leilões anuais específicos para sistemas de armazenamento de energia, a redução da pesada carga tributária que hoje incide sobre as baterias e avanços regulatórios profundos desenhados para ampliar a flexibilidade sistêmica do setor elétrico brasileiro.



