Impulsionado por leilões de capacidade do MME e pelo novo marco regulatório da Aneel, segmento de baterias e reversíveis deixa de ser nicho para virar pilar de segurança no SIN.
O mercado brasileiro de armazenamento de energia começa a avançar de forma consistente após anos de discussões regulatórias e projetos-piloto pontuais. Impulsionado pela crescente participação das fontes renováveis intermitentes na matriz elétrica e pela necessidade de garantir flexibilidade operativa ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o segmento poderá atrair mais de R$ 57 bilhões em investimentos ao longo da próxima década.
A estimativa consta no relatório “Sistemas de Armazenamento: Desafios, oportunidades e perspectivas para o Setor Elétrico Brasileiro”, elaborado pela Deloitte. O estudo projeta um ciclo relevante de expansão entre 2026 e 2035, apoiado pela evolução regulatória, pela realização dos primeiros leilões dedicados à contratação de potência proveniente de baterias e pelo aumento da demanda por soluções capazes de equilibrar a operação de um sistema cada vez mais renovável.
O movimento ocorre em um momento decisivo para o planejamento energético. A expansão acelerada da geração solar e eólica vem ampliando a necessidade de recursos capazes de armazenar energia nos períodos de excedente e disponibilizá-la nos momentos de pico de carga ou menor produção das fontes variáveis.
Leilões marcam início de uma nova fase para o setor
O principal gatilho de curto prazo para o desenvolvimento desse mercado foi a publicação, pelo Ministério de Minas e Energia (MME), das diretrizes para os primeiros certames voltados à contratação de sistemas de armazenamento em baterias eletroquímicas (BESS). Os leilões previstos para dezembro de 2026 deverão contratar disponibilidade de potência em megawatts (MW), criando uma fonte de receita previsível para os investidores e estabelecendo um sinal econômico claro para a atração de capital privado.
A expectativa é que essa estrutura permita ao Brasil seguir uma trajetória de consolidação semelhante à de mercados maduros. O diretor de Strategy & Transactions dos setores de Power & Utilities da Deloitte, Jovanio Santos, analisa as implicações operacionais e econômicas desse novo vetor de modernização da rede: “Os sistemas de armazenamento conferem flexibilidade, confiabilidade e resiliência ao sistema, atributos cada vez mais demandados diante do crescimento do pico de carga, da geração distribuída e da variabilidade das renováveis. Também oferecem maior previsibilidade de receita aos investidores e viabilizam uma integração mais eficiente de fontes como solar e eólica, podendo ampliar a participação de energia limpa na matriz e reduzir a exposição a volatilidades de preço.”
Essa avaliação ganha relevância em um cenário em que a complexidade da operação do sistema é desafiada simultaneamente pelo crescimento da carga atrelada à eletrificação da economia, à expansão da micro e minigeração e à proliferação de novos data centers.
Brasil busca reduzir distância em relação aos mercados internacionais
Embora o armazenamento em larga escala esteja em fase inicial no mercado doméstico, o panorama internacional demonstra a velocidade com que a tecnologia vem se consolidando na transição energética global. Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) mostram que a capacidade global de armazenamento por baterias saltou de aproximadamente 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023, ano em que foram adicionados cerca de 40 GW de capacidade, mais que o dobro do registrado no período anterior.
China, Estados Unidos e Europa concentram cerca de 90% das novas instalações globais. Nesses locais, o crescimento foi impulsionado por políticas públicas específicas, mercados de capacidade estruturados e mecanismos claros de remuneração para serviços prestados à rede elétrica, referências que serviram de base para a construção do modelo regulatório brasileiro.
Regulamentação cria bases para novos modelos de negócio
Outro marco recente decisivo para o segmento foi a publicação da regulamentação dos sistemas de armazenamento pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A norma estabelece diretrizes para outorgas, modelos de exploração, acesso à rede, tratamento tarifário e o chamado empilhamento de receitas (revenue stacking), mecanismo que permite que um mesmo ativo seja remunerado por múltiplos serviços prestados ao sistema.
O regulamento também reconhece formalmente a atuação dessas estruturas na prestação de serviços ancilares, essenciais para o controle de frequência e estabilidade da operação elétrica. A medida é apontada como a chave para contornar os antigos problemas de viabilidade econômica que travavam os projetos no país, uma vez que o setor sofria com a falta de mecanismos adequados de remuneração além da simples arbitragem de preços de energia no mercado de curto prazo.
Empresas precisam se posicionar desde já
O estudo da Deloitte alerta que a janela de oportunidade aberta pela combinação entre regulação e leilões exigirá preparação e planejamento antecipados por parte dos agentes interessados em liderar esse ciclo de expansão.
A definição tecnológica e a diversificação de portfólio surgem como escolhas estratégicas centrais. Diante das demandas específicas da próxima década, Jovanio Santos pondera sobre as competências internas que as empresas precisam desenvolver imediatamente para capturar valor nesse ecossistema: “As organizações que pretendem capturar valor nesse mercado precisam começar desde já a estruturar seus portfólios de projetos e definir suas apostas tecnológicas, seja em sistemas de armazenamento por baterias (BESS), usinas hidrelétricas reversíveis ou soluções híbridas. Também é importante desenvolver modelos de negócio capazes de combinar diferentes fontes de receita, incluindo pagamento por capacidade, arbitragem de energia e serviços ancilares, além de estabelecer parcerias estratégicas, garantir acesso a financiamento e investir em digitalização e inteligência operacional.”
De tendência a necessidade do sistema elétrico
Mais do que uma nova fronteira de investimentos, o armazenamento desponta como o instrumento regulatório e técnico definitivo para sustentar a integridade da matriz elétrica brasileira.
À medida que a participação de fontes intermitentes cresce, as baterias e as hidrelétricas reversíveis passam a assumir um papel conceitual semelhante ao que os grandes reservatórios de acumulação desempenharam historicamente no país: o de conferir estabilidade estrutural e equilibrar a curva de carga em um ambiente operativo de alta complexidade.



