Iniciativa da Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) padroniza indicadores de risco socioambiental para facilitar concessão de crédito e investimentos em ativos de biogás e biometano.
A expansão da bioenergia no Brasil, embora tecnologicamente madura, ainda enfrenta barreiras significativas no fluxo de capital devido à complexidade na avaliação de riscos socioambientais. Para mitigar essa lacuna, a organização Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) lançou, nesta segunda-feira (4), uma ferramenta técnica composta por questionários parametrizados sob critérios ASG (Ambiental, Social e Governança) específicos para as cadeias de destinação de resíduos e bioenergia.
O instrumento surge em um momento em que o setor financeiro demanda maior comparabilidade entre ativos para a precificação de riscos climáticos. A ferramenta abrange desde a coleta e transporte de resíduos até a geração de energia a partir de biogás, incineração e compostagem, integrando taxonomias nacionais e internacionais.
Padronização de indicadores e comparabilidade
Um dos principais entraves para a alocação de recursos em projetos de biometano e usinas de biogás é a ausência de bases de dados consolidadas que permitam o benchmarking setorial. Ao apresentar a ferramenta, a Diretora Executiva e Técnica da SIS, Luciane Moessa, reforçou a necessidade de objetividade nos parâmetros de análise: “A ideia é qualificar a análise de risco socioambiental e climático. Isso possibilita avaliar se o desempenho é satisfatório, mediano ou insuficiente, com base em parâmetros objetivos, quantitativos e qualitativos.”
A executiva também ressaltou que a ferramenta funciona como um guia de melhoria contínua para as empresas que buscam financiamento, uma vez que a identificação de lacunas de sustentabilidade pode ser corrigida através de linhas de crédito específicas: “Quando o desempenho não é satisfatório, as instituições financeiras podem apoiar essas empresas, oferecendo crédito para investimentos em sustentabilidade.”
O potencial subaproveitado do biogás no Saneamento
Apesar de o Brasil gerar cerca de 88 milhões de toneladas de resíduos anualmente, apenas 3,2% dos resíduos orgânicos urbanos são convertidos em bioenergia. Atualmente, o país opera pouco mais de 1.800 usinas de biogás, das quais 19 já produzem biometano.
A infraestrutura e a regulação, no entanto, ainda superam os desafios tecnológicos. De acordo com a representante da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Maria Clara Pantelli, o setor já alcançou maturidade técnica, mas carece de conectividade e incentivos tarifários: “Os desafios já não são mais tecnológicos, pois já há maturidade tecnológica no Brasil. Ficam mais atrelados à questão de infraestrutura e regulação.”
A especialista pontuou ainda a concentração da rede de gasodutos no litoral como limitadora, embora tenha destacado o impacto positivo da Lei do Combustível do Futuro, que estabelece cotas de mistura de biometano.
Monetização de atributos ambientais e bioindústria
No setor de biocombustíveis, a integração de resíduos da cana-de-açúcar (vinhaça e bagaço) e óleos residuais na matriz energética já demonstra ganhos de liquidez. O mercado tem avançado na transformação de passivos em ativos rentáveis, impulsionado por mecanismos de certificação.
Sobre a valorização desses ativos via políticas públicas como o RenovaBio, o consultor Paulo Costa, da House of Carbon, destacou o papel da legislação na viabilidade econômica dos projetos: “Estamos falando da monetização do atributo ambiental. Aumentam precificação, liquidez e valorização.”
Pelo viés governamental, a visão é de que o Brasil deve transitar de uma economia de descarte artesanal para uma escala industrial de bioEstado. O Secretário Adjunto de Economia Verde do MDIC, Lucas Ramalho, enfatizou que o gargalo central permanece na viabilidade econômica frente ao custo do descarte em aterros: “Enquanto for mais barato mandar um resíduo para um aterro do que reincorporar esse resíduo no processo produtivo, a gente não vai avançar.”
Próximos passos e base de dados
Para o futuro, a SIS projeta a implementação de um sistema de pesos para as perguntas, gerando um rating global por empresa. O objetivo é criar parâmetros de referência que permitam ao sistema financeiro diferenciar o desempenho médio setorial da evolução individual.
Além de bioenergia e resíduos, os questionários da SIS já contemplam setores como mineração, siderurgia e construção civil, com previsão de lançamento em breve para o segmento de transportes e eletricidade.



