Abertura do mercado e modernização da rede exigem aporte de até R$ 35 bilhões em medição inteligente

Projeções da Envol Energy Consulting apontam necessidade de instalar 70 milhões de medidores nos próximos 10 anos; custo unitário e política industrial estão no centro do debate regulatório.

A transição para um setor elétrico digital e centrado no consumidor no Brasil enfrenta um gargalo físico e financeiro: a infraestrutura de medição. Com o cronograma de abertura do mercado livre para a baixa tensão avançando, impulsionado pela Lei 15.269/2025, a substituição do parque de medidores analógicos por equipamentos inteligentes tornou-se uma corrida contra o tempo. Estimativas da Envol Energy Consulting indicam que o país precisará instalar entre 60 e 70 milhões de medidores inteligentes em um horizonte de 8 a 10 anos.

O desafio financeiro é proporcional à escala. Considerando o custo atual dos equipamentos entre R$ 400 e R$ 500, o investimento apenas na aquisição dos aparelhos pode variar entre R$ 25 bilhões e R$ 35 bilhões. Esse montante não inclui custos de instalação, integração de sistemas e infraestrutura de comunicação (AMI), o que deve elevar significativamente o Capex das distribuidoras.

O papel estruturante na valoração da energia

Para além da simples leitura remota, o medidor inteligente é o hardware que viabiliza a resposta da demanda e a tarifação horária, elementos essenciais para um sistema que caminha para a descentralização.

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O CEO da Envol, Alexandre Viana, ressalta que a tecnologia é o alicerce para evitar ineficiências econômicas no novo modelo: “O medidor inteligente é central para a transição energética. Se a energia não for corretamente valorada ao longo do dia, haverá distorções na forma como ela é consumida e remunerada.”

A urgência técnica é reforçada pelo calendário legislativo. Com a previsão de que consumidores residenciais possam acessar o Ambiente de Contratação Livre (ACL) em 36 meses, a capacidade de medir a injeção de excedentes de geração distribuída e o consumo em intervalos de 15 minutos ou uma hora passa a ser uma exigência operacional.

Mercado endereçado e o gap tecnológico

Atualmente, o Brasil possui uma penetração de medição inteligente estagnada entre 5% e 6%, um contraste acentuado com mercados maduros. Enquanto o Reino Unido e os Estados Unidos operam na faixa de 70%, o Japão já alcança a cobertura total. Com base no Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2025 da EPE, que aponta 94 milhões de unidades consumidoras no país, o potencial de expansão é massivo.

Ao analisar o mercado potencial e os desafios de Capex, o sócio e diretor de Estudos de Mercado da Envol, Gustavo Franceschini, detalha o cenário de investimentos necessários: “Excluindo baixa renda e outras situações específicas, o mercado endereçado está entre 60 e 70 milhões de consumidores. Considerando que a penetração de medidores inteligentes ainda está na faixa de 5% a 6% no Brasil, estamos falando de um investimento da ordem de R$ 25 a R$ 35 bilhões, considerando apenas o custo dos equipamentos.”

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Franceschini observa ainda que a tecnologia demanda um ciclo de atualização contínuo, assemelhando-se a outros ativos digitais. Segundo o executivo, esses equipamentos evoluem continuamente e podem demandar substituições periódicas para incorporar novas funcionalidades de monitoramento e controle.

Política Industrial e Consulta Pública na ANEEL

O custo unitário dos medidores é um dos principais entraves à universalização. Hoje, o Brasil depende fortemente de componentes importados, o que sujeita o setor à volatilidade cambial. Nesse contexto, a criação de uma cadeia produtiva local surge como alternativa para reduzir custos via ganho de escala.

Defendendo uma visão estratégica para o setor manufatureiro nacional, Alexandre Viana propõe uma discussão sobre incentivos à fabricação interna: “Deveríamos discutir uma política industrial para o medidor eletrônico ou, ao menos, reduzir a dependência da importação desses equipamentos.”

O tema já ocupa a agenda regulatória. Em janeiro de 2026, a ANEEL abriu a Consulta Pública nº 001/2026, buscando subsídios para a modernização da medição na baixa tensão. A iniciativa baseia-se em estudos realizados em parceria com a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), que visam empoderar o consumidor e otimizar a gestão de Recursos Energéticos Distribuídos (DERs).

Para a Envol, a digitalização não é opcional, mas o trilho por onde passará o crescimento do setor. Gustavo Franceschini conclui a análise reforçando a importância da infraestrutura de dados: “Os medidores inteligentes serão a base para um sistema elétrico mais digital, descentralizado e eficiente. Sem essa infraestrutura de dados, a abertura do mercado e a integração de novas tecnologias simplesmente não acontecem na escala que o Brasil precisa.”

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