Com preços abaixo de R$ 900 mil/MW.ano, leilão evidencia busca por receita fixa e reforça papel de usinas a óleo na garantia de potência do sistema
O resultado do 3º Leilão de Reserva de Capacidade de Potência (LRCAP) confirma uma inflexão relevante no comportamento dos agentes do setor elétrico em 2026. Marcado por deságios agressivos e forte predominância de usinas térmicas a óleo, o certame expõe tanto a necessidade imediata de segurança de potência quanto a crescente aversão ao risco no mercado livre de energia.
Conduzido pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o leilão terminou com preços significativamente abaixo dos tetos estabelecidos, refletindo uma competição intensa entre geradores em busca de contratos com receita previsível.
Deságios agressivos marcam rodadas 2026 e 2027
As rodadas com início de suprimento em 2026 e 2027 foram emblemáticas da nova dinâmica de mercado. Para entrega em agosto de 2026, o preço foi fixado em R$ 899,6 mil/MW.ano, representando um deságio de 43,7% frente ao teto de R$ 1,6 milhão.
Já o produto 2027 encerrou ainda mais competitivo, com preço de R$ 860,8 mil/MW.ano, reforçando a disposição dos agentes em reduzir margens para assegurar contratos de longo prazo em um ambiente de elevada incerteza.
O movimento reflete uma mudança clara de estratégia: em vez de exposição ao mercado spot ou contratos bilaterais, geradores passaram a priorizar receitas fixas garantidas, mesmo com retorno mais comprimido.
Segurança de potência e papel das térmicas
O desenho do leilão teve como foco principal a garantia de potência no curto prazo para o Sistema Interligado Nacional (SIN). A contratação concentrou-se em usinas térmicas existentes movidas a óleo diesel e óleo combustível, ativos com custo variável elevado, mas alta confiabilidade operacional.
A escolha revela o pragmatismo do planejador diante do avanço das fontes renováveis intermitentes, cuja variabilidade exige recursos despacháveis capazes de responder rapidamente a oscilações na geração.
A curta duração dos contratos, até julho de 2029 (produto 2026) e julho de 2030 (produto 2027), reforça o caráter transitório da solução. A expectativa é que, nesse intervalo, novas tecnologias como armazenamento em larga escala e projetos estruturantes de geração avancem para substituir esse papel.
Fuga do risco e crise de liquidez no mercado livre
O comportamento observado no leilão está diretamente ligado ao contexto atual do mercado livre de energia, marcado por baixa liquidez, volatilidade do PLD e dificuldades de precificação.
A agressividade nos lances, com sessões relativamente curtas e forte competição, indica que os agentes estão dispostos a sacrificar rentabilidade em troca de previsibilidade. O LRCAP passa, assim, a funcionar como uma espécie de “porto seguro” em um ambiente de incerteza crescente.
Essa dinâmica reforça a leitura de que o setor atravessa um momento de reprecificação de riscos, no qual a segurança contratual volta a ganhar protagonismo frente à exposição ao mercado.
Resultado consolidado: concentração em óleo e liderança da Petrobras
Ao final das três rodadas, o 3º LRCAP contratou 501 MW de potência disponível, a partir de projetos que somam 737 MW de capacidade instalada. O preço médio ficou em R$ 831,2 mil/MW.ano, com deságio expressivo de 50,14% e economia estimada em R$ 1,8 bilhão.
A composição da matriz contratada evidencia a predominância de fontes fósseis: 76% da potência é proveniente de usinas a óleo diesel, 20% a biodiesel e uma parcela residual a óleo combustível.
Nesse cenário, a Petrobras se destacou como principal vendedora, respondendo por 66% da potência contratada, com 332,5 MW comercializados por meio de dois empreendimentos. Também participaram do certame a UTE Xavantes, com 100,8 MW, e a Companhia Energética de Petrolina, com 68 MW.
Produto 2030 e contratos mais longos
A rodada voltada para entrega em 2030 trouxe uma configuração distinta, com contratos de maior duração, entre 2030 e 2040, e foco em usinas movidas a biodiesel.
O preço corrente foi fixado em R$ 787,2 mil/MW.ano, mantendo o padrão de competitividade observado nas demais rodadas. O resultado final consolidado do certame ainda aguarda divulgação completa pelas autoridades.
Impactos tarifários e próximos passos
Com o encerramento do leilão, a atenção do mercado se desloca para o cálculo do impacto tarifário. Os custos associados à contratação serão incorporados ao Encargo de Energia de Reserva (EER), rateado entre os consumidores nos próximos ciclos.
A definição da quantidade total homologada e do custo final será determinante para avaliar o equilíbrio entre segurança de suprimento e modicidade tarifária, um dos principais dilemas regulatórios do setor.
Entre o curto prazo e a transição energética
O 3º LRCAP escancara uma contradição central do setor elétrico brasileiro: enquanto avança na expansão de fontes renováveis, o sistema ainda depende fortemente de térmicas fósseis para garantir confiabilidade no curto prazo.
O leilão reforça a necessidade de acelerar soluções estruturais, como armazenamento, resposta da demanda e modernização dos modelos de operação e precificação. Sem esses avanços, o risco é prolongar a dependência de fontes mais caras e intensivas em carbono, pressionando custos e desafiando metas de descarbonização.



