Energia útil ganha peso no planejamento do setor diante de avanço da oferta e restrições no SIN

Descoberta de hidrocarbonetos na Margem Equatorial e aumento do curtailment reforçam a necessidade de avaliar disponibilidade, localização e capacidade de entrega dos novos projetos

A expansão da infraestrutura energética brasileira começa a enfrentar um novo desafio: medir não apenas quanto de capacidade está sendo adicionada, mas quanto desse volume efetivamente se transforma em energia disponível quando e onde o sistema precisa. A descoberta de hidrocarbonetos pela Petrobras no poço Morpho, na costa do Amapá, e o avanço das restrições à geração no Sistema Interligado Nacional (SIN) expõem, em segmentos distintos, a mesma questão sobre a utilidade econômica e operacional de novos ativos.

No setor de óleo e gás, a identificação de hidrocarbonetos não significa, por si só, a existência de uma nova fonte comercial de produção. O poço Morpho está localizado a 175 quilômetros da costa de Oiapoque e entrou na fase de avaliação exploratória, que ainda exige testes de produtividade, estimativa dos volumes recuperáveis e análise da viabilidade econômica da produção.

A diferença entre descoberta e capacidade efetiva de geração de valor também é destacada pelo especialista em energia, transição energética e mudanças climáticas Eric Fernando Boeck Daza. Para ele, o resultado exploratório representa apenas o início de um processo de avaliação mais amplo: “Encontrar petróleo é apenas uma etapa. O recurso precisa atravessar uma série de testes até demonstrar que pode ser produzido de forma competitiva. A existência de hidrocarbonetos no subsolo, por si só, ainda não define o valor que aquela descoberta poderá gerar.”

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Excesso de oferta amplia restrições no SIN

No setor elétrico, a discussão aparece em outra frente: a crescente dificuldade de absorver toda a geração disponível em determinados períodos. Em 23 de agosto, nove dias após o anúncio da descoberta da Petrobras, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) voltou a acionar o Plano de Gestão de Excedentes na Rede de Distribuição.

A medida ocorreu em um domingo, período caracterizado por menor demanda, para reduzir riscos operacionais nas redes das distribuidoras e preservar o equilíbrio do SIN. O movimento evidencia o descompasso entre a expansão acelerada da geração renovável e o perfil horário do consumo.

O Brasil encerrou 2025 com 86,8% de participação de fontes renováveis na matriz elétrica. Eólica e solar responderam juntas por 26,4% da geração, enquanto a geração distribuída alcançou 7% do total. O crescimento dessas fontes, entretanto, elevou a necessidade de flexibilidade operacional, sobretudo durante as horas de maior produção solar e menor demanda.

As projeções do ONS indicam concentração das restrições operacionais entre 9h e 16h. Em cenários críticos, especialmente aos domingos e feriados, os vertimentos podem alcançar cerca de 50 GW.

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Para Daza, o cenário altera a forma como a expansão da oferta precisa ser avaliada. “Se a geração continuar crescendo mais rapidamente que o consumo nesses horários, o sistema poderá se aproximar de um efeito de soma zero. Novas fontes passam a deslocar energia que já poderia ser produzida, sem entregar um ganho líquido equivalente. A discussão deixa de ser apenas quantos megawatts foram instalados e passa a incluir quando e onde essa energia estará disponível.”

Flexibilidade passa a ser atributo estratégico

A resposta ao excesso de oferta passa pela criação de novas cargas e pelo aumento da capacidade de deslocar energia no tempo. Data centers, projetos de hidrogênio de baixa emissão e indústrias eletrointensivas podem contribuir para absorver parte desse excedente, mas o impacto dependerá da compatibilidade entre seus perfis de consumo e os períodos de maior disponibilidade de geração.

Ao mesmo tempo, o setor elétrico amplia a discussão sobre sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), resposta da demanda e mecanismos capazes de incorporar sinais locacionais e temporais aos investimentos. A realização do ciclo de leilões de reserva de capacidade voltado a baterias reforça a busca por recursos capazes de oferecer flexibilidade ao sistema.

O novo paradigma também afeta a avaliação econômica dos projetos de infraestrutura. A capacidade nominal continua relevante, mas passa a dividir espaço com atributos como disponibilidade, localização, capacidade de conexão, perfil de produção e contribuição para a segurança e eficiência do sistema.

Na avaliação de Daza, essa mudança não significa reduzir a expansão energética, mas aumentar sua efetividade. “O Brasil não precisa produzir menos energia. Precisa fazer com que a expansão produza mais resultado. Barris descobertos e megawatts instalados continuarão sendo indicadores importantes, mas já não contam toda a história. O valor está na capacidade de transformar recursos e infraestrutura em energia útil, competitiva e disponível quando o país realmente necessita.”

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