Copel defende usinas reversíveis como alternativa de menor custo para flexibilidade do sistema elétrico

Diogo Mac Cord aponta perda de reserva operativa com avanço das fontes intermitentes e questiona viabilidade econômica de baterias em aplicações de grande escala

A expansão das fontes renováveis não despacháveis no Sistema Interligado Nacional (SIN) aumenta a necessidade de recursos capazes de fornecer potência, armazenamento e flexibilidade operativa. Nesse cenário, a Copel defende as Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs) como alternativa para aplicações de grande escala e avalia que o custo dos sistemas de armazenamento por baterias (BESS) precisa ser analisado em função do serviço efetivamente prestado ao sistema.

A avaliação foi apresentada pelo vice-presidente de Estratégia, Novos Negócios e Transformação Digital da Copel, Diogo Mac Cord, durante a terceira edição do Minuto Mega Talks, realizada nesta quinta-feira (20), em São Paulo. O debate abordou armazenamento de energia, serviços ancilares, novas demandas de consumo e segurança operativa.

Renováveis ampliam demanda por flexibilidade

A mudança na composição da matriz elétrica altera as necessidades de operação do SIN. A maior participação de fontes eólica e solar, cuja geração depende das condições meteorológicas, reduz a previsibilidade de parte da oferta e aumenta a importância de recursos capazes de responder às variações de carga e geração.

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Mac Cord relacionou essa transformação à redução da reserva de potência disponível no modelo tradicional de operação do sistema: “O modelo brasileiro foi estruturado historicamente sobre a complementaridade entre hidrelétricas e térmicas, mas a expansão das fontes não despacháveis alterou essa dinâmica. O crescimento dessas fontes reduziu parte da reserva de potência disponível no sistema e tornou mais evidente a necessidade de mecanismos de flexibilidade.”

A necessidade de novos atributos operativos coloca armazenamento e serviços ancilares no centro das discussões sobre a evolução do desenho do mercado elétrico. Para a Copel, a expansão desses recursos deve estar associada a mecanismos de contratação capazes de remunerar adequadamente os serviços prestados ao sistema.

Copel questiona sinais de preço

Outro ponto levantado durante o evento foi a capacidade do modelo de formação de preços de representar as condições efetivas de operação do sistema. Na avaliação apresentada pela companhia, a presença crescente de fontes intermitentes amplia a distância entre determinados sinais econômicos e as necessidades físicas da rede.

Mac Cord criticou a atual metodologia de formação de preços e sua capacidade de refletir a nova configuração da matriz: “Temos um preço que não reflete o mercado. É o resultado de um modelo matemático que não considera o volume de fontes intermitentes presente no sistema.”

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A discussão sobre preços está diretamente relacionada à expansão dos investimentos em ativos de flexibilidade. Para a Copel, o desenho regulatório precisa permitir que diferentes tecnologias concorram em condições equivalentes, com a remuneração vinculada ao valor que cada solução entrega ao sistema.

Nesse contexto, Mac Cord apontou a possibilidade de utilização de mecanismos de oferta e leilões para viabilizar projetos de usinas reversíveis: “A solução da reversível se enquadra muito bem no preço por oferta e no modelo de leilão, porque minimiza custos.”

UHRs ganham espaço na discussão sobre armazenamento

As usinas hidrelétricas reversíveis utilizam energia para bombear água a um reservatório superior e, posteriormente, geram eletricidade quando há necessidade de potência. O modelo permite deslocar energia entre períodos e oferecer capacidade de resposta ao sistema.

A tecnologia vem sendo discutida como alternativa para armazenamento de longa duração, especialmente em aplicações centralizadas que exigem grandes volumes de energia. Mac Cord destacou a diferença de escala entre as tecnologias quando aplicadas à rede de transmissão: “No segmento centralizado, a reversível acumula volumes muito maiores de energia.”

A comparação apresentada pela Copel não elimina o papel dos BESS, mas coloca em discussão a adequação de cada tecnologia ao serviço requerido. Baterias podem atender necessidades específicas de resposta rápida e armazenamento de curta duração, enquanto projetos hidráulicos reversíveis podem ser estruturados para volumes maiores e períodos mais prolongados.

Curtailment exige avaliação econômica

O avanço da geração renovável também trouxe para o debate o curtailment, situação em que a produção potencial de uma usina é limitada por restrições operativas, de transmissão, excesso de oferta ou outras condições do sistema.

A utilização de baterias para absorver parte dessa energia pode reduzir cortes de geração, mas a Copel defende que a contratação desse serviço seja precedida por uma avaliação econômica que considere o custo total para o sistema. Mac Cord resumiu a questão ao defender que a política pública identifique primeiro a necessidade que será atendida: “Precisamos entender exatamente qual é o problema e quanto custa a solução.”

A companhia apresentou ainda uma estimativa própria sobre a relação entre o investimento necessário em baterias e o valor do curtailment que poderia ser evitado. A projeção foi expressa pelo executivo durante o evento: “Para cada bilhão de reais de curtailment que a bateria vai reduzir, ela vai custar entre cinco e seis bilhões de reais para o sistema.”

A afirmação representa uma avaliação apresentada pela Copel e não uma estimativa oficial de órgãos reguladores ou operadores do setor. A comparação, portanto, depende das premissas utilizadas para dimensionar tanto o custo dos sistemas de armazenamento quanto o valor econômico da energia que deixaria de ser cortada.

Copel aguarda regras para investir em reversíveis

A Copel mantém estudos de engenharia para projetos de usinas hidrelétricas reversíveis e aguarda a definição das políticas públicas relacionadas à contratação e à remuneração de potência.

A discussão regulatória ganhou relevância com a necessidade de definir como atributos como capacidade, flexibilidade e serviços ancilares serão valorados no mercado brasileiro. A definição desses mecanismos será determinante para estabelecer a viabilidade econômica dos diferentes projetos de armazenamento.

Mac Cord afirmou que a companhia já trabalha na preparação técnica dos empreendimentos, mas condiciona a implementação dos investimentos à evolução do marco regulatório: “Estamos evoluindo com os projetos técnicos e aguardando as definições de política pública para implementar esses investimentos.”

A discussão coloca as UHRs e os BESS dentro de uma agenda mais ampla de modernização do setor elétrico, na qual armazenamento, potência e flexibilidade passam a ganhar relevância à medida que a matriz brasileira incorpora maior volume de geração renovável variável.

Para o mercado, o desafio será estruturar mecanismos de contratação que identifiquem o serviço necessário ao SIN e permitam que diferentes tecnologias sejam avaliadas a partir de seus custos e atributos técnicos. Esse desenho será fundamental para orientar os próximos investimentos em armazenamento e flexibilidade no sistema elétrico brasileiro.

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