CNI: Com energia afetando 67% das fábricas, indústria usa IoT para estancar desperdício

Enquanto o ambiente livre reduz o preço da tarifa, a inteligência de dados transforma o consumo de energia no chão de fábrica em indicador de produtividade.

A busca por produtividade no setor fabril brasileiro passa por uma mudança de conceito. Embora a velocidade e o volume das linhas de montagem continuem no centro das métricas operacionais, a quantidade de Megawatt-hora (MWh) consumida por unidade produzida consolidou-se como variável crítica para a preservação do resultado financeiro das companhias.

A dimensão desse impacto foi mapeada na Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em 5 de agosto de 2026. O levantamento com mais de 1,4 mil empresas apontou que 67% das indústrias registraram reflexos do aumento do custo da energia elétrica em seus custos de produção. Para 83% dos executivos consultados, a conta de luz é determinante para a competitividade, enquanto 79% destacam a eletricidade como o principal insumo energético da atividade industrial.

A pressão tarifária ocorre em ambiente de expansão do consumo. O Balanço Energético Nacional (BEN 2026), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), aponta que o consumo final de energia na indústria brasileira cresceu 1% em 2025, inserido em um avanço global de 2,7% no consumo de eletricidade no país.

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Gargalos da gestão focada exclusivamente na tarifa

A principal resposta do setor produtivo tem sido concentrada no ambiente de contratação de energia. Dados da CNI mostram que 41% das indústrias migraram para o Mercado Livre de Energia a partir de 2024, e 73% das empresas que optaram pela migração reportaram redução de custos tarifários. Em contrapartida, os investimentos em autogeração e ações de eficiência energética no processo fabril foram citados por apenas 13% das pesquisadas.

Embora o ambiente livre reduza o preço do MWh contratado, ele não elimina desperdícios físicos no processo produtivo. A aplicação de sensores com Internet das Coisas (IoT) e a integração entre dados de telemetria e sistemas de produção permitem monitorar a intensidade energética por equipamento, turno, linha ou lote fabril.

A rastreabilidade contínua expõe falhas operacionais que ficam ocultas no faturamento mensal, como equipamentos operando em vazio, picos desnecessários de demanda, motores trabalhando fora da curva ideal de rendimento e vazamentos em sistemas de ar comprimido.

Impacto direto no resultado e potencial da digitalização

A implementação de uma gestão energética estruturada traz reflexos diretos na rentabilidade. Relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a adoção contínua de rotinas de eficiência gera economias de 5% a 11% na indústria pesada e de 10% a 18% na indústria leve nos primeiros anos. Em setores eletrointensivos e de margens comprimidas, como siderurgia, cimento e papel e celulose, uma redução de 10% nos custos elétricos produz impacto no lucro equivalente a um aumento de 4% a 16% nas vendas totais.

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O avanço da inteligência artificial e da digitalização tende a amplificar esses ganhos. Estudos da IEA projetam que a aplicação de ferramentas de IA para otimização de processos pode reduzir em cerca de 8% o consumo de energia da indústria leve até 2035.

Ao tratar da transição da energia como conta financeira para indicador de desempenho fabril, o diretor comercial e sócio da SOLVERSYS, Marcel Farto, detalha a mudança na medição dos processos: “A empresa normalmente sabe quanto pagou de energia no mês. O próximo nível é saber quanto de energia foi necessário para produzir cada tonelada, peça ou lote e identificar quando esse indicador sai do padrão. Quando dados de produção, equipamentos e consumo estão conectados, o desperdício deixa de aparecer apenas na conta e passa a ser localizado dentro do processo.”

Em um cenário de custos pressionados, a métrica de MWh por unidade produzida afirma-se como indicador primário para a competitividade da indústria nacional. 

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