Tarifação dos EUA atinge 90% das exportações da indústria elétrica e Abinee cobra apoio do governo

Entidade reúne-se com ministérios, descarta retaliação comercial imediata e pede reforço no crédito e seguros de exportação para proteger a competitividade do setor

A decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos industriais brasileiros abriu um novo capítulo de incertezas para a indústria eletroeletrônica nacional. O impacto é particularmente sensível para o setor elétrico, cuja cadeia produtiva mantém forte integração com o mercado norte-americano e depende das exportações de equipamentos de alta tecnologia para sustentar parte de sua expansão.

Diante desse cenário, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) participou, na última segunda-feira (21), de uma reunião com representantes do governo federal para discutir alternativas capazes de reduzir os efeitos da medida. O encontro reuniu integrantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério da Fazenda e do Ministério das Relações Exteriores (MRE), em uma tentativa de construir uma estratégia de resposta que preserve a competitividade das empresas brasileiras sem recorrer, neste momento, a medidas de retaliação comercial.

A preocupação da entidade decorre da elevada exposição do segmento ao mercado norte-americano. Segundo a Abinee, a nova tarifa incide sobre 90,9% do valor exportado pela indústria eletroeletrônica brasileira para os Estados Unidos, destino de aproximadamente 26% das vendas internacionais do setor. Para fabricantes de transformadores, painéis elétricos, disjuntores, equipamentos para transmissão e distribuição de energia e sistemas eletrônicos industriais, a medida representa um risco direto à competitividade e ao fluxo de negócios.

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Setor elétrico pode sentir reflexos na cadeia industrial

Embora a tarifa tenha como foco produtos industriais, seus efeitos extrapolam o comércio exterior e podem repercutir em toda a cadeia do setor elétrico. Empresas fornecedoras de equipamentos para geração, transmissão, distribuição e infraestrutura energética dependem do mercado internacional tanto para ampliar escala quanto para manter investimentos em inovação e capacidade produtiva.

Nos últimos anos, a demanda norte-americana por equipamentos brasileiros foi impulsionada pelo avanço da transição energética, pela modernização das redes elétricas e pelos investimentos em infraestrutura crítica. Esse movimento contribuiu para um crescimento acumulado de aproximadamente 80% das exportações do setor aos Estados Unidos nos últimos cinco anos.

A imposição da nova tarifa, entretanto, reduz a competitividade dos produtos brasileiros justamente em um momento de expansão dos investimentos globais em eletrificação, energias renováveis, armazenamento e digitalização das redes.

Abinee defende negociação diplomática e rejeita retaliação

Durante a reunião com integrantes do governo federal, a Abinee defendeu que a prioridade seja manter abertas as negociações diplomáticas com as autoridades norte-americanas. A entidade considera que uma escalada de medidas retaliatórias poderia ampliar os impactos econômicos sobre a indústria brasileira.

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Ao analisar os efeitos da decisão dos Estados Unidos, o presidente executivo da Abinee, Humberto Barbato, ressaltou que a medida contraria o histórico recente das relações comerciais entre os dois países: “São injustificáveis as tarifas de 25% contra nossos produtos, afinal, em 2025, o setor registrou superávit comercial de US$ 2,7 bilhões em favor dos Estados Unidos. Ainda assim, os EUA continuam sendo um mercado muito importante para o nosso setor. Por isso, solicitamos que o governo brasileiro continue nas mesas de negociações e que, ao mesmo tempo, sejam tomadas medidas imediatas para assegurar que nossos produtos continuem sendo competitivos frente aos concorrentes globais.”

A manifestação reforça a estratégia da entidade de buscar soluções negociadas, ao mesmo tempo em que solicita políticas públicas capazes de compensar parte das perdas de competitividade decorrentes da nova tributação.

Normas técnicas dificultam redirecionamento das exportações

Um dos principais argumentos apresentados pela indústria é que a produção destinada aos Estados Unidos não pode ser redirecionada rapidamente para outros mercados.

Ao contrário de diversos bens manufaturados, equipamentos elétricos e eletrônicos costumam ser desenvolvidos para atender requisitos específicos de cada país. Transformadores, painéis elétricos, disjuntores, sistemas de automação e outros equipamentos seguem normas técnicas próprias, exigindo certificações e especificações compatíveis com cada mercado consumidor.

Nos Estados Unidos predominam padrões estabelecidos por entidades como a National Electrical Manufacturers Association (NEMA) e o Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), enquanto Europa e grande parte da América Latina utilizam normas da International Electrotechnical Commission (IEC). Essa diferença impõe elevados custos de adaptação, além de exigir novos processos de certificação.

Ao detalhar essa limitação durante as discussões com representantes do governo, Humberto Barbato destacou que o redirecionamento da produção não ocorre de maneira imediata: “Muitos equipamentos do setor possuem características técnicas fortemente associadas às normas, regulamentações e especificações próprias de cada mercado, o que torna difícil vender estes bens em outros países.”

Na avaliação da indústria, esse fator amplia os riscos para fabricantes brasileiros, que podem enfrentar redução de encomendas sem encontrar alternativas comerciais de curto prazo.

Crédito e seguro à exportação entram na pauta

Como resposta ao novo cenário, a Abinee apresentou um conjunto de propostas voltadas à preservação da competitividade da indústria nacional. Entre as principais demandas está a ampliação das linhas de financiamento às exportações, o fortalecimento dos mecanismos públicos de garantia, a expansão do seguro de crédito à exportação e o aumento das ações de promoção comercial em mercados considerados estratégicos.

A entidade também defende iniciativas voltadas à aceleração dos processos de homologação internacional dos equipamentos brasileiros, permitindo que fabricantes ampliem sua presença em novos destinos comerciais e reduzam a dependência do mercado norte-americano.

Para o setor elétrico, essas medidas podem desempenhar papel relevante na manutenção dos investimentos industriais, especialmente em um momento de crescimento global da demanda por equipamentos destinados à expansão das redes elétricas, eletrificação da economia, digitalização e integração de fontes renováveis.

Enquanto o governo brasileiro mantém as negociações diplomáticas com os Estados Unidos, a indústria acompanha com atenção os próximos desdobramentos da política comercial norte-americana. O resultado dessas tratativas poderá influenciar não apenas o desempenho das exportações brasileiras, mas também os investimentos futuros de uma cadeia considerada estratégica para a segurança energética e a transição energética do país.

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