Paraná defende neutralidade tecnológica no leilão de armazenamento e propõe inclusão de hidrelétricas reversíveis no LRCap

Estado solicita ao MME revisão das regras do leilão de reserva de capacidade para permitir competição entre baterias (BESS) e usinas reversíveis, ampliando as alternativas para garantir flexibilidade e confiabilidade ao Sistema Interligado Nacional

O debate sobre o futuro do armazenamento de energia no Brasil ganhou um novo capítulo com a manifestação oficial do Governo do Paraná em defesa da neutralidade tecnológica no Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCap), previsto para dezembro de 2026. Em ofício encaminhado ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o Estado solicita que o certame deixe de contemplar exclusivamente sistemas de armazenamento em baterias (Battery Energy Storage Systems – BESS) e passe a admitir também usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs) e outras tecnologias capazes de atender aos requisitos operacionais do Sistema Interligado Nacional (SIN).

A iniciativa ocorre em um momento decisivo para a consolidação da política de armazenamento de energia no país. Com a rápida expansão da geração eólica e solar, cresce a necessidade de soluções que assegurem flexibilidade operacional, capacidade de resposta às oscilações da oferta e da demanda e prestação de serviços ancilares essenciais à estabilidade do sistema elétrico.

Na avaliação do governo paranaense, restringir a competição a uma única tecnologia pode limitar o potencial do leilão justamente quando o setor elétrico busca diversificar suas alternativas para garantir segurança energética e eficiência econômica.

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Debate sobre o desenho do LRCap ganha novo foco

O LRCap de armazenamento será o primeiro leilão brasileiro dedicado exclusivamente à contratação de capacidade de estocagem de energia. A regulamentação publicada pelo Ministério de Minas e Energia estabelece, até o momento, que apenas projetos baseados em baterias poderão participar da disputa.

O Paraná, entretanto, sustenta que o modelo deveria seguir o princípio da neutralidade tecnológica, permitindo que diferentes soluções concorram em igualdade de condições, desde que atendam aos requisitos técnicos definidos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Ao justificar a proposta encaminhada ao Ministério de Minas e Energia, o superintendente Sandro Vieira afirma que ampliar a concorrência pode resultar em ganhos para o próprio sistema elétrico: “A neutralidade tecnológica promoverá igualdade de condições entre diferentes soluções, abrindo caminho para alternativas mais eficientes sob os aspectos técnico, econômico e ambiental.”

A discussão acompanha uma tendência observada em diversos mercados internacionais, onde diferentes tecnologias de armazenamento passaram a desempenhar funções complementares na operação dos sistemas elétricos.

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Hidrelétricas reversíveis ganham espaço no debate sobre armazenamento

No documento enviado ao governo federal, o Paraná destaca que as usinas hidrelétricas reversíveis possuem características distintas das baterias e podem desempenhar papel estratégico na integração das fontes renováveis.

Enquanto os sistemas BESS apresentam elevada capacidade de resposta instantânea e são amplamente utilizados para aplicações de curta duração, as hidrelétricas reversíveis conseguem armazenar grandes volumes de energia por períodos mais longos, oferecendo maior flexibilidade operacional em cenários de elevada penetração de fontes intermitentes.

Além da capacidade de armazenamento de longa duração, o Estado ressalta que essas usinas contribuem para serviços ancilares como controle de frequência, reserva girante, suporte de tensão e estabilidade da rede elétrica. Outro argumento apresentado é a longa vida útil desses empreendimentos, que pode ultrapassar um século, reduzindo a dependência de reposição de equipamentos e da cadeia internacional de minerais críticos utilizada na fabricação de baterias.

Ao abordar a complementaridade entre as diferentes soluções de armazenamento, Sandro Vieira destaca que elas atendem necessidades distintas da operação do sistema: “As baterias apresentam elevado desempenho em aplicações de curta duração, enquanto as usinas reversíveis são especialmente indicadas para armazenamento de longa duração e para a prestação de serviços sistêmicos essenciais que dificilmente podem ser substituídos por outras tecnologias.”

Paraná aposta em vantagens competitivas para projetos reversíveis

O governo estadual também argumenta que o Paraná reúne condições favoráveis para receber projetos de hidrelétricas reversíveis. Entre os fatores apontados estão a existência de reservatórios já implantados, a robusta infraestrutura de transmissão instalada no estado e uma cadeia produtiva consolidada ligada ao setor hidrelétrico, o que poderia reduzir riscos de implantação e acelerar o desenvolvimento desses empreendimentos.

Na visão do Estado, essas características posicionam o Paraná como um dos principais candidatos para abrigar projetos de armazenamento de grande porte capazes de apoiar a expansão das energias renováveis no Brasil.

Cronograma das tecnologias pode influenciar desenho do leilão

Um dos principais desafios da proposta está relacionado aos diferentes prazos de implantação das tecnologias. Projetos baseados em baterias costumam ser construídos em poucos meses, característica que favorece sua utilização em leilões voltados ao atendimento de necessidades operacionais de curto prazo.

Já as usinas hidrelétricas reversíveis demandam obras civis mais complexas, processos de licenciamento ambiental e cronogramas significativamente mais longos até a entrada em operação. Essa diferença poderá exigir do Ministério de Minas e Energia a criação de produtos específicos dentro do LRCap, contemplando soluções com diferentes horizontes de implantação e perfis operacionais.

Armazenamento torna-se prioridade para a expansão do SIN

A discussão sobre o desenho do leilão ocorre em um momento de transformação estrutural do setor elétrico brasileiro. O crescimento acelerado das fontes solar e eólica aumenta a necessidade de ativos capazes de armazenar energia, deslocar geração entre diferentes períodos do dia e oferecer potência firme durante momentos de maior demanda ou menor disponibilidade de recursos renováveis.

Nesse contexto, o armazenamento passa a desempenhar papel estratégico não apenas para garantir a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional, mas também para reduzir custos operacionais, minimizar o despacho de usinas térmicas e ampliar a eficiência da matriz elétrica.

A decisão do Ministério de Minas e Energia sobre o pedido apresentado pelo Paraná poderá definir o alcance tecnológico do primeiro leilão brasileiro dedicado ao armazenamento de energia e estabelecer as bases para a evolução desse mercado nos próximos anos.

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