Período seco aumenta a volatilidade do preço da energia às vésperas da abertura da baixa tensão ao ACL. Especialistas alertam que gestão de risco e estratégia de contratação serão determinantes para evitar perdas financeiras
O início do segundo semestre marca tradicionalmente o período de maior atenção para o mercado brasileiro de energia elétrica. Com a redução das afluências nas principais bacias hidrográficas do Sistema Interligado Nacional (SIN), cresce a probabilidade de elevação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), indicador que baliza as liquidações do mercado de curto prazo e influencia diretamente os consumidores expostos ao Ambiente de Contratação Livre (ACL).
Em 2026, esse cenário ganha uma dimensão adicional. A abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão, prevista para agosto, ampliará significativamente o universo de pequenas empresas aptas a migrar para o ACL justamente em um momento de maior volatilidade hidrológica e de preços.
Para especialistas do setor, a combinação entre estiagem, expansão do mercado livre e aumento da participação de consumidores com pouca experiência na dinâmica do ACL transforma a gestão de risco em um dos principais fatores para o sucesso da migração.
Volatilidade do PLD amplia exposição dos consumidores
As regras estabelecidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) ilustram a amplitude da exposição financeira existente no mercado de curto prazo.
Para 2026, o piso do PLD foi definido em R$ 57,31/MWh, enquanto o teto horário poderá alcançar R$ 1.611,04/MWh. A diferença representa uma variação potencial de quase 28 vezes entre o menor e o maior preço da energia ao longo do ano. Embora esses extremos não ocorram continuamente, eles demonstram como eventos hidrológicos, restrições operativas e o despacho de usinas térmicas podem alterar rapidamente os custos da energia para agentes expostos ao mercado spot.
O contexto também afeta os consumidores do mercado regulado. A manutenção da bandeira tarifária amarela adiciona R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acompanha a evolução dos reservatórios e a necessidade de despacho de térmicas de maior custo para preservar a segurança energética.
Mercado livre entra em nova fase com abertura da baixa tensão
A expansão do ACL tornou-se um dos principais movimentos estruturais do setor elétrico brasileiro. Dados consolidados da CCEE mostram que o ambiente livre respondeu por 42% de todo o consumo nacional de eletricidade em 2025, após crescimento de 7,3% em relação ao ano anterior. Apenas naquele exercício, aproximadamente 21,7 mil unidades consumidoras migraram para o mercado livre, enquanto outras 9,2 mil ingressaram no primeiro semestre de 2026.
A partir de agosto, esse universo tende a crescer de forma acelerada com a entrada de pequenos comércios, empresas de serviços e indústrias de menor porte. A mudança amplia a competitividade do setor, mas também exige maior compreensão sobre conceitos como sazonalização, modulação, contabilização da CCEE e estratégias de contratação, fundamentais para reduzir a exposição às oscilações do PLD.
Ao avaliar esse momento de transição do mercado, o CEO da Lux Energia, Gustavo Sozzi, ressalta que a volatilidade faz parte da dinâmica do setor e precisa ser incorporada ao planejamento das empresas: “O histórico de volatilidade mostra que preço de energia no curto prazo não é uma linha estável. Ele pode sair de pouco mais de R$ 50 e ultrapassar R$ 1.600 por MWh dentro do mesmo ano, e é justamente no segundo semestre, no período seco, que essa pressão costuma se intensificar. Quem entra no mercado livre precisa entender que está assumindo essa exposição, não apenas capturando um desconto na conta.”
Economia depende de estratégia de contratação
A busca por redução na conta de energia continua sendo um dos principais motivadores para a migração ao mercado livre. Entretanto, especialistas avaliam que esse objetivo, isoladamente, não garante bons resultados ao longo do contrato.
No ambiente regulado, parte da volatilidade é absorvida pelas distribuidoras e pelos mecanismos tarifários. Já no ACL, consumidores passam a responder diretamente pelos efeitos de sobras ou déficits de energia contratada, além das oscilações do mercado de curto prazo. Nesse contexto, a qualidade da estratégia comercial e o acompanhamento permanente das condições de mercado tornam-se elementos centrais para preservar a competitividade das empresas.
Ao abordar os equívocos mais frequentes observados entre novos consumidores livres, Gustavo Sozzi destaca que a decisão não deve ser baseada apenas nas tarifas vigentes: “O erro mais comum é olhar só para a economia imediata e ignorar o cenário de risco em que se está entrando. No mercado cativo, o consumidor tem a previsibilidade das tarifas reguladas. No mercado livre, ele ganha autonomia, mas assume diretamente a variação de preço. Sem monitoramento contínuo do PLD, estratégia de contratação e leitura de mercado, a migração pode gerar o efeito oposto ao esperado.”
Segundo semestre será teste para novos agentes
Historicamente, os meses de estiagem representam o período de maior sensibilidade para a formação dos preços da energia no Brasil. A redução das chuvas pressiona os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, aumenta a probabilidade de despacho térmico e amplia a volatilidade do PLD. Para consumidores recém-chegados ao mercado livre, esse cenário funcionará como um teste de adaptação ao novo ambiente competitivo.
Empresas que estruturarem contratos compatíveis com seu perfil de consumo, acompanharem continuamente o comportamento do mercado e adotarem mecanismos de gestão de risco tendem a preservar os ganhos econômicos proporcionados pela migração. Por outro lado, operações excessivamente expostas ao mercado spot podem enfrentar custos elevados em períodos de estresse hidrológico, comprometendo parte da economia inicialmente projetada.
Ao avaliar o momento vivido pelo setor elétrico, Gustavo Sozzi afirma que a maturidade dos consumidores será determinante para transformar a abertura do mercado em vantagem competitiva: “O segundo semestre é sempre um teste de maturidade para o mercado livre. As empresas que atravessam esse período com contratos bem estruturados e gestão ativa saem mais protegidas. As que entraram apenas em busca de desconto, sem acompanhar o mercado, são as que sentem primeiro quando o cenário aperta. A volatilidade não é um problema em si, ela é uma característica do mercado. O que separa quem se protege de quem se expõe é a qualidade da gestão.”
A abertura da baixa tensão representa um novo marco para a modernização do setor elétrico brasileiro. Entretanto, a consolidação desse movimento dependerá cada vez menos do desconto obtido na migração e mais da capacidade dos consumidores de incorporar inteligência de mercado, gestão de risco e planejamento energético à estratégia dos seus negócios.



