Com foco em resiliência climática, digitalização e redes subterrâneas, distribuidoras detalham planos plurianuais até 2030; no RN, Capex é impulsionado por renovação de concessão.
O setor elétrico no Nordeste receberá uma forte injeção de capital nos próximos cinco anos. Em movimentos estratégicos sequenciais, a Neoenergia anunciou os maiores planos de investimento da história de suas distribuidoras no Rio Grande do Norte (Neoenergia Cosern) e em Pernambuco (Neoenergia Pernambuco). Juntas, as concessionárias mobilizarão R$ 13,8 bilhões entre 2026 e 2030.
Os aportes, estruturados após a consolidação de diretrizes de longo prazo, miram o aumento da resiliência dos sistemas frente a eventos climáticos extremos, a digitalização das redes de distribuição e o suporte ao crescimento da carga industrial, turística e do agronegócio na região.
Neoenergia Cosern: Crescimento de 81% no Capex para o Rio Grande do Norte
No Rio Grande do Norte, o plano plurianual prevê o aporte de R$ 4,1 bilhões, montante que representa uma expansão de 81% frente aos R$ 2,2 bilhões injetados no ciclo anterior (2021-2025). A execução do portfólio de projetos foi viabilizada pela prorrogação antecipada do contrato de concessão da distribuidora potiguar até 2057, conferindo estabilidade regulatória para ativos de longa maturação.
A liderança corporativa da holding aponta que a estratégia está diretamente vinculada à preparação do sistema para novas dinâmicas de consumo e transição energética. O CEO da Neoenergia, Eduardo Capelastegui, avalia o panorama macroeconômico do estado: “O novo ciclo de investimentos demonstra a confiança da Neoenergia no potencial de crescimento do Rio Grande do Norte. Estamos preparando a rede elétrica para acompanhar o desenvolvimento econômico do estado, ampliar a qualidade do fornecimento, aumentar a resiliência do sistema diante dos eventos climáticos e incorporar novas tecnologias que tornem a distribuição de energia cada vez mais eficiente, digital e inteligente”
Do orçamento total aprovado para a Cosern, a alocação de capital (Capex) será dividida em três pilares principais:
- 37,36% para a expansão da infraestrutura básica e atendimento ao mercado;
- 26,43% voltados à modernização, digitalização e incremento de confiabilidade;
- 36,21% destinados a programas de combate a perdas comerciais e fortalecimento operacional (sistemas de TI, automação e frotas).
Metas de Ativos e Detalhamento Regional no RN
Ates de 2030, a Neoenergia Cosern planeja adicionar 460 MVA de potência instalada, uma expansão equivalente a 25% da capacidade atual do estado. O plano contempla a construção de 10 novas subestações (SEs), a ampliação de outras 16 unidades e a implantação de 1.788 quilômetros de redes de média e alta tensão.
A divisão geográfica dos investimentos prioriza os polos de carga com maior pressão de demanda:
- Leste e Região Metropolitana (R$ 2,4 bilhões): Concentra o maior volume financeiro, com foco no turismo e expansão urbana. Inclui projetos de fiação subterrânea na Praia da Pipa (Tibau do Sul) e na Avenida Praia de Ponta Negra (Natal), além de quatro novas subestações (Estivas, Tabatinga, Parque das Nações e Felipe Camarão).
- Oeste (R$ 963 milhões): Direcionado ao atendimento do agronegócio, fruticultura irrigada e cadeia de óleo e gás. Contempla a rede subterrânea do Corredor Cultural de Mossoró e quatro novas subestações (Abolição, Antônio Martins, Serra do Mel e Upanema).
- Central (R$ 464 milhões) e Agreste (R$ 334 milhões): Foco nas indústrias salineira, de mineração e infraestrutura de escoamento, com a construção das subestações Afonso Bezerra e São Tomé.
No âmbito da eficiência energética, a distribuidora destinará R$ 72 milhões para projetos de geração distribuída fotovoltaica em instituições públicas e programas de modicidade tarifária para consumidores de baixa renda.
A condução executiva local ressalta o impacto desses investimentos na cadeia de valor regional. A diretora-presidente da Neoenergia Cosern, Fabíola Almeida, contextualiza o direcionamento dos recursos: “Esse volume recorde de investimentos permitirá ampliar a capacidade da rede para atender o crescimento das cidades, fortalecer setores estratégicos da economia e garantir energia com ainda mais qualidade para as famílias, o comércio, os serviços, a indústria e o agronegócio potiguar”
Neoenergia Pernambuco: R$ 9,7 Bilhões e Foco em Redes Inteligentes
Em Pernambuco, a escala do investimento é ainda maior. A Neoenergia anunciou um plano de R$ 9,7 bilhões para o período 2026-2030, o que configura um salto de 123% em comparação com o ciclo que se encerra. O plano prevê a instalação de 25 novas subestações, reforma e ampliação de 34 unidades e a inserção de 766 MVA de potência de transformação adicional na rede de distribuição estadual.
O planejamento para a área de concessão pernambucana destaca-se pelo volume de capital direcionado à tecnologia de redes e projetos especiais de engenharia:
- Smart Grids (R$ 560 milhões: Investimento massivo em esquemas de recomposição automática (self-healing) e digitalização para reduzir os indicadores de duração (DEC) e frequência (FEC) de interrupções.
- Redes Subterrâneas Urbanas: Serão alocados R$ 350 milhões para o embutimento da fiação no Recife Antigo e R$ 190 milhões para a modernização dos circuitos da orla de Boa Viagem, visando diminuir a exposição dos ativos à maresia e distúrbios climáticos.
- Infraestrutura Subaquática: Um projeto piloto de R$ 7,5 milhões avaliará e implantará a primeira rede subaquática do estado para reforçar o atendimento no Litoral Sul (trechos Toquinho/Serrambi e Suape-Muro Alto).
O comando global do grupo Iberdrola e a diretoria executiva da Neoenergia reforçam que a magnitude do plano acompanha as projeções de reindustrialização e adensamento populacional do estado. Ao analisar a robustez das redes para as próximas décadas, Eduardo Capelastegui complementa: “O desenvolvimento de Pernambuco passa, necessariamente, por uma infraestrutura elétrica moderna, robusta e preparada para acompanhar o crescimento do Estado. Este novo plano de investimentos reforça nosso compromisso de contribuir para a expansão da activity econômica, ampliar a oferta de energia com qualidade e confiabilidade e criar as condições necessárias para que novos empreendimentos se instalem em todas as regiões pernambucanas. Estamos investindo no futuro do Estado, levando uma infraestrutura cada vez mais resiliente, digital e preparada para atender às demandas da sociedade nas próximas décadas.”
Descentralização de Ativos em PE
O plano pernambucano divide-se estruturalmente entre a Região Metropolitana do Recife (R$ 4,7 bilhões), que engloba também o reforço de R$ 46 milhões para a segurança energética dos polos culturais de Olinda e Recife, o Sertão (R$ 2,8 bilhões), focado nas subestações Petrolina IV e Arcoverde III para suportar o polo gesseiro e a fruticultura, e o Agreste (R$ 2,3 bilhões), direcionado à cadeia têxtil.
O plano fecha seu escopo com mais de R$ 350 milhões para o arquipélago de Fernando de Noronha, com foco em sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) acoplados à geração solar fotovoltaica, visando o deslocamento da geração térmica a diesel local.
Foco na Agenda ESG e Metas Regulatórias
Os anúncios consolidados pela Neoenergia refletem a estratégia do grupo de antecipar as exigências dos contratos de concessão e os níveis de qualidade comercial e técnica monitorados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A transição para redes subterrâneas em perímetros urbanos de alta densidade e o aporte em automação de redes funcionam como mitigadores de risco operacional e blindagem dos ativos contra intempéries severas, tendência que tem ditado o ritmo de alocação de Capex das grandes holdings de distribuição do país.



