Alerta de greenwashing: Estudo aponta falhas em títulos ESG de 46% das elétricas no país

Levantamento da SIS identifica lacunas em processos de diligência socioambiental de empresas e instituições financeiras e aponta desalinhamento com a Taxonomia Sustentável Brasileira.

O mercado brasileiro de títulos verdes, sociais e sustentáveis (ASG), que ganhou protagonismo como fonte de financiamento para projetos de infraestrutura e transição energética, enfrenta um desafio crescente de credibilidade. Um estudo inédito da Associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) concluiu que empresas dos setores elétrico e agropecuário, além de instituições financeiras emissoras de títulos sustentáveis, apresentam falhas relevantes nos mecanismos de diligência socioambiental, abrindo espaço para potenciais casos de greenwashing.

A pesquisa analisou as políticas de conformidade de 22 instituições financeiras, 37 empresas do agronegócio e 32 companhias do setor elétrico que acessaram o mercado de capitais sustentável entre 2021 e 2025. O diagnóstico aponta um padrão de auditoria concentrado em projetos específicos, sem uma avaliação mais ampla de passivos ambientais, conflitos territoriais e riscos existentes ao longo das cadeias de suprimentos.

Setor elétrico acumula passivos e amplia debate sobre governança

Apesar de tradicionalmente ser associado a elevados padrões de governança, o setor elétrico apresentou indicadores que acenderam o alerta dos pesquisadores. O levantamento identificou fragilidades na gestão de riscos climáticos, na proteção da biodiversidade e na condução de políticas de relacionamento com comunidades impactadas por grandes empreendimentos de geração e transmissão.

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Entre as 32 companhias analisadas, os números revelam um cenário de passivos relevantes:

  • 46,9% respondem a investigações ou procedimentos em agora no Ministério Público;
  • 40,6% possuem processos junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT);
  • 28,1% enfrentam disputas socioambientais na Justiça Federal;
  • 28,1% registram autuações ou infrações em órgãos ambientais estaduais.

Segundo o estudo, esses indicadores não têm sido considerados de forma consistente nos frameworks utilizados para a emissão de títulos sustentáveis, que permanecem fortemente concentrados na destinação dos recursos para projetos de energia renovável, sem uma análise mais abrangente das práticas corporativas dos emissores.

Bancos falham em rastreamento de riscos indiretos

O levantamento também identificou fragilidades entre as principais instituições financeiras do país. Bancos como Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Santander, BTG Pactual, BNDES, Sicredi e Sicoob cumprem, em média, apenas 17,5% das diligências recomendadas pela Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB).

Nenhuma das instituições avaliadas estendeu a análise socioambiental para fornecedores e parceiros comerciais das empresas financiadas. A verificação mais recorrente continua sendo a consulta à lista de empregadores envolvidos com trabalho análogo à escravidão, adotada por 83,3% dos bancos pesquisados. Já ferramentas consideradas estratégicas para a rastreabilidade das cadeias produtivas, como consultas ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) e monitoramentos por imagens do INPE e do MapBiomas, aparecem em menos de 16% dos processos de análise.

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Agronegócio repete padrão de baixa diligência

No agronegócio e no segmento de biocombustíveis, a pesquisa identificou um quadro semelhante. As empresas avaliadas cumprem, em média, apenas 12,5% dos critérios mínimos de diligência previstos pela TSB. O estudo aponta que nenhuma das 37 empresas analisadas realiza verificações sobre processos judiciais ambientais ou investigações conduzidas pelos Ministérios Públicos em relação aos seus fornecedores e parceiros comerciais.

Para a Diretora Executiva e Técnica da SIS e coordenadora do levantamento, Luciane Moessa, o crescimento do mercado de finanças sustentáveis não foi acompanhado pelo fortalecimento dos mecanismos de controle: “Os resultados mostram que o mercado brasileiro avançou em volume, mas ainda não incorporou mecanismos de diligência compatíveis com os riscos socioambientais envolvidos. Em muitos casos, recursos captados com o compromisso de gerar benefícios ambientais e sociais podem estar sendo direcionados a empresas ou cadeias produtivas sem uma verificação adequada de passivos ambientais, conflitos territoriais ou descumprimento da legislação.”

Taxonomia Sustentável Brasileira ganha protagonismo

O debate ocorre em um momento de forte expansão das finanças sustentáveis no país. Dados do mercado indicam que o volume acumulado de emissões sustentáveis por emissores brasileiros alcançou US$ 67,8 bilhões até junho de 2025, consolidando o segmento como uma das principais ferramentas de financiamento da transição energética e de projetos de infraestrutura.

Diante desse crescimento, a Taxonomia Sustentável Brasileira, instituída pelo Ministério da Fazenda no fim de 2025, passa a ser vista por especialistas como um instrumento essencial para elevar a qualidade das emissões e reduzir o risco de maquiagem verde. Moessa defende que a incorporação desse conjunto de salvaguardas regulatórias é o que dará consistência de longo prazo ao mercado de capitais: “Fortalecer esses mecanismos é fundamental para dar credibilidade ao mercado e alinhar as emissões às salvaguardas da Taxonomia Sustentável Brasileira. O mercado precisa avançar para uma visão mais sistêmica dos impactos socioambientais gerados pelas atividades financiadas, para que não estejamos criando benefícios de um lado e prejuízos de outro, o que nos impede de avançar de verdade.”

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