Estudo de instituto ligado à London School of Economics aponta que combinação de energia limpa, minerais críticos, agronegócio e biodiversidade coloca o país em posição privilegiada para atrair investimentos da nova economia de baixo carbono
A corrida global pela descarbonização está redesenhando fluxos de capital, cadeias produtivas e estratégias industriais em todo o mundo. Em meio a esse processo, o Brasil desponta como um dos poucos países capazes de combinar escala produtiva, recursos naturais estratégicos e uma matriz energética predominantemente renovável, atributos que podem transformá-lo em um dos principais destinos de investimentos associados à transição climática nas próximas décadas.
Essa é a principal conclusão do relatório Brazil’s Investment-led Growth in the Ecological Transition, divulgado pelo Instituto de Clima e Sociedade (iCS) em parceria com o Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), da London School of Economics and Political Science (LSE). O estudo foi apresentado durante a London Climate Action Week e sustenta que o país possui condições singulares para capturar parte significativa dos investimentos globais destinados à economia de baixo carbono.
A avaliação ocorre em um momento de aceleração da demanda por energia limpa, minerais críticos, combustíveis sustentáveis e alimentos produzidos com menor intensidade de carbono. À medida que governos e empresas ampliam seus compromissos climáticos, cresce a busca por regiões capazes de oferecer recursos naturais, estabilidade energética e potencial industrial para sustentar a nova economia verde.
Vantagens competitivas colocam Brasil em posição estratégica
O estudo destaca que poucas economias reúnem simultaneamente os ativos presentes no território brasileiro. Além de possuir uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o país concentra reservas relevantes de minerais considerados essenciais para a transição energética, como lítio, níquel, cobre, grafite e terras raras.
A esses fatores somam-se a liderança global do agronegócio e uma biodiversidade sem paralelo, características que ampliam as possibilidades de desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas à bioeconomia, aos combustíveis sustentáveis e à indústria de baixo carbono.
Na avaliação dos pesquisadores, essa combinação posiciona o Brasil para disputar uma parcela dos investimentos globais direcionados a setores intensivos em energia limpa: “O Brasil está bem posicionado para atrair parte dos US$ 600–800 bilhões investidos anualmente em setores de alto consumo de energia, como combustíveis limpos, indústria de baixo carbono, minerais essenciais e agricultura sustentável, áreas nas quais o país detém importantes vantagens competitivas.”
A oportunidade ganha relevância diante da crescente reorganização geopolítica das cadeias globais de suprimentos. Empresas e governos buscam reduzir dependências estratégicas, diversificar fornecedores e garantir acesso a recursos essenciais para a eletrificação da economia.
Transição energética pode impulsionar nova etapa de industrialização
Mais do que ampliar exportações de commodities, o estudo sugere que a transição climática pode servir como vetor para uma nova fase de industrialização baseada em energia limpa e agregação de valor.
O principal autor do relatório e professor visitante do CETEx, Luiz Awazu Pereira da Silva, avalia que as transformações em curso estão alterando profundamente a dinâmica dos investimentos globais: “As mudanças climáticas, a transformação tecnológica e a fragmentação geopolítica estão remodelando os padrões globais de investimento. A questão é se o Brasil conseguirá converter suas vantagens estruturais em investimentos sustentáveis, crescimento da produtividade e desenvolvimento econômico.”
A possibilidade de produzir hidrogênio de baixa emissão, combustíveis sustentáveis, fertilizantes verdes, aço de baixo carbono e produtos industriais intensivos em energia renovável aparece entre os principais vetores de crescimento identificados pelos pesquisadores. Esse movimento também dialoga com uma tendência observada em diversos mercados: a migração de indústrias para regiões com abundância de energia limpa e competitiva.
O economista Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília, membro sênior do iCS e um dos autores do estudo, acredita que essa mudança poderá redefinir a geografia industrial global: “O mundo está saindo de uma era em que a energia era transportada para a indústria para uma em que a indústria buscará cada vez mais a energia limpa. Essa mudança pode redefinir as cadeias globais de valor nas próximas décadas.”
Energia limpa, minerais críticos e segurança alimentar formam tripé estratégico
A pesquisa identifica três áreas em que o Brasil pode desempenhar papel relevante na segurança econômica e energética global. A primeira está relacionada à oferta de energia limpa em larga escala, incluindo eletricidade renovável e biocombustíveis sustentáveis para setores de difícil descarbonização, como transporte marítimo, aviação e indústria pesada.
A segunda envolve o fornecimento de minerais críticos extraídos sob padrões ambientais e sociais cada vez mais exigidos pelos mercados internacionais. Já a terceira está associada à capacidade de ampliar a produção de alimentos em um cenário de mudanças climáticas e pressão crescente sobre os sistemas globais de abastecimento.
A diretora executiva do iCS, Maria Netto, avalia que esses fatores podem transformar o país em um parceiro estratégico para governos e investidores: “Essas soluções apresentadas no estudo garantem resiliência nas cadeias de produção, estabilidade de preços e a mitigação dos riscos de conflitos associados aos recursos naturais.”
A executiva destaca ainda que os benefícios podem extrapolar a agenda ambiental: “Por outro lado, internamente, o Brasil tem a oportunidade de combinar a descarbonização com a reindustrialização, atraindo investimentos e promovendo o fortalecimento social.”
Gargalos estruturais ainda limitam captura de investimentos
Apesar do cenário favorável, o estudo alerta que o potencial brasileiro não se converterá automaticamente em crescimento econômico. Os pesquisadores apontam desafios relacionados à infraestrutura logística, expansão das redes de transmissão, capacidade de implementação de projetos, ambiente regulatório e segurança jurídica. Também permanecem no radar dos investidores questões ligadas ao combate ao desmatamento ilegal e à previsibilidade das políticas públicas de longo prazo.
A pesquisadora do CETEx responsável pela mobilização de capital privado, Fernanda Gimenes, destaca que o debate sobre transição ecológica não deve se restringir às necessidades de financiamento: “Esse estudo defende que, para países como o Brasil, a transição também deve ser entendida como uma oportunidade de investimento. O desafio é criar as condições que permitam que o capital nacional e internacional invista em grande escala nos setores que moldarão a economia global do futuro.”
Nesse contexto, especialistas avaliam que a próxima década será decisiva para determinar se o Brasil ocupará posição central nas cadeias globais da transição energética ou se continuará atuando predominantemente como fornecedor de matérias-primas para economias mais industrializadas.
Com a combinação de energia renovável abundante, potencial mineral estratégico e capacidade produtiva em larga escala, o país reúne condições para desempenhar um papel de destaque na economia de baixo carbono. A consolidação dessa liderança, entretanto, dependerá da capacidade de transformar vantagens naturais em projetos viáveis, investimentos produtivos e políticas públicas capazes de garantir previsibilidade para o capital de longo prazo.



