Curtailment acende alerta para cogeração e ameaça competitividade da bioenergia no Brasil

Restrições operativas impostas pelo ONS expõem vulnerabilidades de usinas movidas a biomassa, elevam custos para o setor sucroenergético e reacendem debate sobre critérios de despacho no Sistema Interligado Nacional

A intensificação dos episódios de curtailment no Sistema Interligado Nacional (SIN) está ampliando a preocupação de um segmento que ocupa posição estratégica na matriz elétrica brasileira: a cogeração a partir de biomassa. Responsável por aproximadamente 10% da capacidade instalada de geração de energia do país, o setor enfrenta dificuldades crescentes para conciliar as restrições operativas determinadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) com a natureza integrada de suas operações industriais.

Desde dezembro de 2025, as orientações para aplicação de cortes ou limitações na geração de usinas classificadas como Tipo III passaram a impactar diretamente empreendimentos que produzem simultaneamente energia elétrica e energia térmica. Embora o objetivo das medidas seja preservar a segurança operativa do sistema diante de cenários de baixa demanda, excesso de oferta ou limitações na rede de transmissão, especialistas alertam que os efeitos sobre a cogeração vão muito além da simples redução na exportação de energia.

O tema ganha relevância em um momento em que o setor elétrico convive com o crescimento acelerado da geração renovável, especialmente solar e eólica, ampliando os desafios relacionados ao equilíbrio entre oferta, demanda e capacidade de escoamento da energia produzida.

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Cogeração enfrenta limitações operacionais diferentes de outras fontes

Ao contrário de usinas convencionais, os empreendimentos de cogeração operam com forte integração entre a produção de energia elétrica e os processos industriais que utilizam vapor e energia térmica. Essa característica reduz significativamente a flexibilidade operacional para responder a comandos de redução de geração.

O presidente-executivo da Cogen, Newton Duarte, destaca que as restrições aplicadas ao setor precisam considerar essa particularidade técnica: “Para evitar a possibilidade de colapso do sistema elétrico, o despacho é reduzido ou interrompido temporariamente. O grande ponto, porém, é que essa contenção no caso da cogeração cria o risco de prejuízos ainda mais significativos, uma vez que incluem os processos industriais, colocando em xeque uma conta ainda maior.”

Na prática, uma ordem para redução ou interrupção da exportação de energia pode comprometer não apenas a receita obtida com a comercialização da eletricidade, mas também a continuidade das atividades industriais associadas à planta de cogeração. Os números evidenciam a relevância desse segmento. Dados da Cogen mostram que a cogeração movida a biomassa alcançou 18,8 GW de capacidade instalada em abril de 2026, o equivalente a cerca de 85% dos 22 GW de cogeração existentes no país.

Setor sucroenergético está entre os mais expostos aos impactos

O impacto das restrições operativas é particularmente sensível para a indústria sucroenergética, principal usuária da cogeração a partir de biomassa no Brasil.

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Segundo dados da ANEEL, da CCEE e da EPE, aproximadamente 70% da cogeração proveniente de biomassa utiliza o bagaço da cana-de-açúcar como combustível. Nessas unidades, a geração elétrica está diretamente ligada à produção de açúcar, etanol, biogás e biometano. Quando ocorre uma limitação de geração, os efeitos tendem a se espalhar por toda a cadeia produtiva.

Além da perda de receita com a energia que deixa de ser comercializada, as empresas podem ser obrigadas a recompor sua posição contratual no mercado de curto prazo, muitas vezes adquirindo energia a preços elevados indexados ao Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Ao mesmo tempo, a redução da disponibilidade de vapor e eletricidade para os processos industriais pode provocar perda de eficiência operacional e, em situações mais severas, interrupções na produção.

Duarte ressalta que os impactos econômicos vão além da esfera energética: “É um efeito cascata. A empresa perde na venda da energia, incorre em custos adicionais para recompor sua posição e ainda corre o risco de comprometer toda a sua produção agroindustrial. Isso fragiliza a competitividade e cria um ambiente de insegurança regulatória ao setor.”

Debate sobre critérios de despacho ganha força

O avanço do curtailment tem provocado discussões cada vez mais frequentes sobre os critérios utilizados para a gestão das restrições operativas no sistema elétrico brasileiro. Embora o setor reconheça a necessidade de preservar a segurança energética nacional, representantes da indústria defendem que a formulação dos mecanismos de despacho leve em consideração as características específicas de cada tecnologia de geração.

No caso da cogeração, a geração elétrica não constitui uma atividade isolada, mas um componente integrado a processos industriais essenciais para diferentes segmentos da economia. Essa condição faz com que uma restrição energética possa produzir reflexos em cadeias produtivas inteiras, incluindo o agronegócio, um dos pilares da economia brasileira.

Ao avaliar os desdobramentos do atual modelo, Duarte argumenta que os impactos extrapolam o setor elétrico: “O impacto na eficiência operacional das usinas sucroenergéticas, por exemplo, pode comprometer a oferta de açúcar, etanol, biogás e biometano, além de afetar empregos, investimentos e a sustentabilidade de uma cadeia importante para o País.”

Novo cenário exige aperfeiçoamentos regulatórios

Com o crescimento da geração renovável e a maior frequência de situações de excedente energético em determinados períodos do dia, especialistas avaliam que o debate sobre flexibilidade operativa e remuneração adequada dos agentes deverá ganhar espaço na agenda regulatória dos próximos anos.

Entre as alternativas defendidas pelo setor estão mecanismos mais sofisticados de resposta da demanda, sinais econômicos mais aderentes às novas condições de mercado e modelos de despacho capazes de reconhecer as especificidades da cogeração. Para a Cogen, a construção dessas soluções será fundamental para evitar distorções que penalizem fontes consideradas eficientes do ponto de vista energético e ambiental.

Ao projetar os desafios futuros, Duarte defende uma abordagem regulatória mais aderente à realidade operacional dessas usinas: “É fundamental avançarmos em mecanismos regulatórios que, além de considerar a natureza integrada da cogeração, promovam o emprego, por exemplo, de resposta da demanda e um sinal de preço que venha a se adequar à nova realidade do setor, com as sobras de geração, bem como a recomposição nos horários de pico de consumo. Caso contrário, corremos o risco de penalizar algumas das fontes mais eficientes e sustentáveis da nossa matriz elétrica.”

O debate ocorre em um momento decisivo para o setor elétrico brasileiro. À medida que a participação das fontes renováveis intermitentes cresce e os episódios de curtailment se tornam mais frequentes, aumenta a pressão para que o modelo regulatório evolua de forma a preservar simultaneamente a segurança do sistema, a competitividade industrial e a sustentabilidade econômica dos agentes responsáveis por uma parcela relevante da oferta de energia limpa do país.

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