Seca avança para metade do território brasileiro e aumenta atenção sobre reservatórios do SIN

Expansão do fenômeno no Sudeste e Centro-Oeste coincide com início do período seco e reforça monitoramento sobre armazenamento hídrico, carga e despacho térmico

A seca voltou a ganhar intensidade no Brasil e já alcança 50% do território nacional, segundo dados mais recentes do Monitor de Secas. O avanço ocorreu justamente em regiões consideradas estratégicas para a segurança energética do país, como Sudeste e Centro-Oeste, onde estão concentrados os principais reservatórios responsáveis pela regularização do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Entre abril e maio, a área afetada pelo fenômeno aumentou de 3,43 milhões para 4,21 milhões de quilômetros quadrados, ampliando a preocupação de agentes do setor elétrico em relação ao comportamento das afluências durante o período seco e aos reflexos para a gestão dos estoques de água das hidrelétricas.

Embora os níveis de armazenamento dos reservatórios estejam em situação mais confortável do que a observada em crises hidrológicas recentes, a deterioração das condições climáticas em estados-chave para a geração hidrelétrica reforça a necessidade de acompanhamento permanente dos indicadores hidrometeorológicos.

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Sudeste concentra os quadros mais severos

Entre as cinco regiões monitoradas, o Sudeste registrou as condições mais críticas em maio. Foi a única região do país a apresentar áreas classificadas como seca grave, sinalizando um agravamento das condições de umidade justamente na principal região de armazenamento energético do SIN.

São Paulo permaneceu como o estado com o quadro mais severo do país. Apesar da redução da área atingida pela seca, de 100% para 84% do território, o estado continuou sendo o único a registrar a categoria de seca grave.

Minas Gerais também apresentou deterioração dos indicadores. A área afetada avançou de 57% para 65%, acompanhada pelo aumento das áreas enquadradas em seca moderada. No Rio de Janeiro, a expansão foi ainda mais acelerada, passando de 30% para 52% do território estadual.

A evolução do fenômeno ocorre em um momento sensível para a operação do sistema elétrico. A região Sudeste concentra os maiores reservatórios de regularização plurianual do país e desempenha papel central na gestão energética nacional, influenciando diretamente as estratégias de operação definidas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

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Centro-Oeste amplia sinal de alerta para recursos hídricos

No Centro-Oeste, a expansão da seca também chamou atenção. Goiás registrou uma das maiores deteriorações observadas no levantamento, com a área afetada avançando de 64% para 86% do território estadual. O estado também apresentou crescimento das áreas classificadas como seca moderada, indicando não apenas uma expansão geográfica do fenômeno, mas um agravamento efetivo das condições hídricas.

A situação é acompanhada com atenção porque a região possui forte integração operacional com o Sudeste e desempenha papel relevante na dinâmica dos reservatórios que sustentam a geração hidrelétrica brasileira. Embora Mato Grosso tenha voltado a registrar seca após meses sem ocorrência do fenômeno, o impacto permanece localizado, atingindo menos de 1% de sua área.

Norte registra rápida deterioração das condições climáticas

Apesar de apresentar os quadros menos severos do país em termos absolutos, o Norte registrou uma das mais rápidas expansões da seca.

O Tocantins saltou de 26% para 78% de área afetada em apenas um mês, consolidando-se como o estado mais impactado da região. Rondônia passou de 15% para 59%, enquanto o Amazonas registrou aumento de 45% para 60%. Outro dado relevante foi observado no Pará, onde a área sob influência da seca avançou de apenas 3% para 29%.

O comportamento do fenômeno na região é acompanhado com preocupação crescente devido aos efeitos sobre rios, navegação, abastecimento e geração de energia em sistemas isolados, além dos impactos ambientais associados à redução da umidade e ao aumento do risco de queimadas.

Nordeste apresenta melhora, mas estiagem permanece disseminada

Na contramão das demais regiões, o Nordeste apresentou sinais de recuperação em parte dos estados monitorados.

Ceará, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte registraram redução tanto da área afetada quanto da severidade da seca. O caso mais expressivo foi o do Ceará, onde a estiagem recuou de 100% para 48% do território, marcando o retorno de áreas livres do fenômeno pela primeira vez desde setembro de 2025.

Apesar da melhora, o quadro regional ainda demanda cautela. Pernambuco manteve 75% de seu território sob influência da seca e continuou registrando alguns dos indicadores mais severos do Nordeste. O Piauí, mesmo apresentando avanço nas condições climáticas, permaneceu como o estado nordestino com maior proporção territorial afetada pela estiagem.

Rio Grande do Sul volta a registrar seca em todo o território

O Sul seguiu como a região com maior cobertura geográfica do fenômeno no país, com 84% de sua área sob influência da seca.

O principal destaque foi o Rio Grande do Sul, que voltou a registrar estiagem em 100% de seu território, situação que não ocorria desde maio de 2025. Apesar da abrangência total, houve redução na intensidade do fenômeno, com o desaparecimento das áreas classificadas como seca moderada.

Paraná e Santa Catarina apresentaram melhora tanto na extensão quanto na severidade da seca, reduzindo a pressão observada nos meses anteriores.

Impactos vão além da geração hidrelétrica

O avanço da seca para metade do território brasileiro reforça a importância do monitoramento hidrológico para o planejamento energético nacional. Além dos possíveis efeitos sobre os níveis dos reservatórios, o fenômeno pode produzir reflexos indiretos relevantes para a operação do sistema elétrico.

A redução da umidade do solo tende a diminuir as vazões incrementais dos rios ao longo do período seco, enquanto temperaturas mais elevadas podem impulsionar o consumo de energia associado à refrigeração de ambientes. Outro fator de preocupação é o aumento do risco de queimadas, que historicamente elevam a exposição de linhas de transmissão e demais ativos elétricos a desligamentos e ocorrências operativas.

Com a estiagem avançando sobre regiões estruturais para o abastecimento energético do país, os próximos meses serão determinantes para avaliar os impactos sobre os reservatórios e os possíveis reflexos sobre o planejamento da operação do Sistema Interligado Nacional.

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